Quase todas as crianças actuais eram horríveis. O pior de tudo, embora organizações como os Vigias as transformassem sistematicamente em pequenos selvagens incontroláveis, era isso não despertar nelas qualquer tendência de se revoltarem contra a disciplina do Partido. Pelo contrário, adoravam o Partido e tudo que lhe dizia respeito. As canções, os cortejos, as bandeiras, as caminhadas, os exercícios com espingardas a fingir, o gritar berrar das palavras de ordem, o culto do Grande Irmão – para elas assentava tudo numa espécie de jogo formidável. Toda sua ferocidade era canalizada para o exterior, contra os inimigos do Estado, contra os estrangeiros, os traidores, os sabotadores, os criminosos de pensamento. Era quase normal que as pessoas com mais de trinta anos terem medo dos filhos. E com bons motivos, pois raramente passava semana sem que o Times não trouxesse um parágrafo relatando o modo como um estuporzinho bisbilhoteiro – “heroica criança” a expressão geralmente utilizada – ouvira esta ou aquela observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.
Quase todas as crianças actuais eram horríveis. O pior de tudo, embora organizações como os Vigias as transformassem sistematicamente em pequenos selvagens incontroláveis, era isso não despertar nelas qualquer tendência de se revoltarem contra a disciplina do Partido. Pelo contrário, adoravam o Partido e tudo que lhe dizia respeito. As canções, os cortejos, as bandeiras, as caminhadas, os exercícios com espingardas a fingir, o gritar berrar das palavras de ordem, o culto do Grande Irmão – para elas assentava tudo numa espécie de jogo formidável. Toda sua ferocidade era canalizada para o exterior, contra os inimigos do Estado, contra os estrangeiros, os traidores, os sabotadores, os criminosos de pensamento. Era quase normal que as pessoas com mais de trinta anos terem medo dos filhos. E com bons motivos, pois raramente passava semana sem que o Times não trouxesse um parágrafo relatando o modo como um estuporzinho bisbilhoteiro – “heroica criança” a expressão geralmente utilizada – ouvira esta ou aquela observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.
George Orwell, Mil novecentos e oitenta e quatro.
Muito a propósito.
Ela aí está, de novo, a Polícia do Pensamento. Ai de quem ousar emitir uma opinião fora da norma.
Esqueci de assinar.
Isabel