Uma estátua para D. João II


Pedro Correia,

Retrato-de-Dom-João-II_pormenor (1).jpg

D. João II (retrato do século XVI)

 

Quase todas as grandes cidades portuguesas têm estátuas de figuras ilustres da nossa História. Incluindo, naturalmente, dos monarcas que contribuíram para fundar e robustecer este Estado-Nação, um dos mais antigos do mundo com as suas actuais fronteiras, definidas no rectângulo continental desde 1249, com a conquista do Algarve, e na sua globalidade desde o século XV, com a descoberta e povoamento das ilhas atlânticas.

São conhecidas da generalidade dos portugueses estátuas tão majestosas e emblemáticas como a de D. José implantada em 1775 no Terreiro do Paço, ou a de D. Pedro IV, descerrada em 1866 no coração da Baixa portuense. Sem esquecer a do nosso monarca fundador, D. Afonso Henriques, que se ergue junto ao castelo de Guimarães. Ou a moderna evocação de D. Sebastião, no centro de Lagos.

Várias outras cidades ou vilas têm estátuas de reis que de algum modo lhes estiveram ligados por acontecimentos diversos – ou por lá terem nascido, ou por lhes terem atribuído carta de foral ou ali feito uma inauguração de vulto, ou porque as tomaram aos mouros, alargando o perímetro das fronteiras portuguesas. Acontece, por exemplo, na Guarda (D. Sancho I), em Silves (D. Sancho II), Faro (D. Afonso III), Leiria (D. Dinis), Cascais (D. Pedro I), Lisboa (D. João I), Alcochete (D. Manuel I), Coimbra (D. João III), Vila Viçosa (D. João IV), Mafra (D. João V), Queluz (D. Maria I), Castelo de Vide (D. Pedro V) ou Cascais (D. Carlos). Com maior ou menor mérito, todos são ostensivamente recordados em mármore ou bronze.

Há, no entanto, uma evidente lacuna neste vasto conjunto de estátuas régias distribuídas de norte a sul do País. Refiro-me a D. João II, que passou à História com o cognome de Príncipe Perfeito. Reinou durante 14 anos, entre 1481 e 1495, embora tenha assumido a governação do Estado desde 1477, por abdicação efectiva de seu pai, Afonso V. Foi sob o seu comando que Portugal deu um impulso decisivo à epopeia das navegações, assumindo-se como precursor da globalização em vários marcos: chegada de Diogo Cão às costas de Angola e da Namíbia; início da colonização de São Tomé e Príncipe; envio de Pero da Covilhã por terra à Etiópia, Cairo, Adém, Ormuz e Goa; passagem do cabo da Boa Esperança, assim baptizado por Bartolomeu Dias; assinatura do Tratado de Tordesilhas com os reis de Espanha; preparação da armada de Vasco da Gama que inauguraria o caminho marítimo para a Índia.  

D. João II é o único dos nossos grandes reis ainda sem estátua numa cidade portuguesa. Em 1998, numa rotunda do que hoje se chama Parque das Nações, foi inaugurada uma peça em bronze supostamente em sua homenagem: é um bloco abstracto, que em nada alude ao Príncipe Perfeito. Fica o desafio aos decisores políticos, a nível nacional, regional ou autárquico: pôr fim a esta chocante omissão erguendo um monumento a D. João II realmente digno desse nome. Em 2020 assinala-se o 525.º aniversário da morte do monarca: é um ano apropriado para tal fim.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

0 comentários em “Uma estátua para D. João II”

  1. Bom dia Pedro Correia
    Como leitor do “15” eu já tinha ponderado o assunto que de novo coloca e que, para mim naturalmente, faz todo o sentido.
    Aguardemos para confirmar que orelhas moucas andam por aí.
    António Cabral

  2. Tem toda a razão, Pedro.
    D. João II nunca foi imortalizado em praça pública o que é uma falha enorme.
    Felizmente Fernando Pessoa mitigou a falta colossal n’ O Mostrengo, que diz muito de nós como povo e de D. João II como rei.

      1. Espero bem que não… Mas aposto que não discordarão de uma estátua de Maduro mesmo ao lado da de Simón Bolivar…

  3. Uma nota apenas para o que foi a prática política deste Rei e que permitiu que Portugal chega-se onde chegou naquela que poderá ter sido a primeira se da globalização: percursor da centralização do Estado, do que viria a ser o absolutismo, não permitindo à nossa nobreza que limita-se os poderes do Rei e da sua concepção de governação. É aliás a partir desta premissa, uma vez implementada, que D. Manuel leva a bom caminho aquilo a que se chamaram os “descobrimentos portugueses”.

  4. Não sabia isso.
    Inacreditável e inadmissível que um dos maiores Reis da nossa História passasse assim como um desconhecido para as anteriores e futuras gerações.

    1. É verdade. E uma obra de arte de paquete, para a época.
      Ao menos Salazar, o “Demoníaco” Salazar, “A Personificação do Mal” Salazar, honrou esse grande Rei dando-lhe o nome.
      Mas, lá está. Para os grandes crânios de agora, Salazar era um burro.
      E provavelmente era. Tão burro que morreu na pobreza.

        1. Mas eu não sou saudosista nem defendo Salazar, cuja política senti na pele. Tanto na guerra como depois fora dela.
          Faço comparações.
          Era um homem ultrapassado no seu tempo que acreditando nos seus ideais não via mais longe.
          Limitado de vistas, mas era honesto.
          E não! Não tinham o direito de tirar o nome dele à ponte para lhe darem a do 25 de Abril.
          A ponte foi Salazar quem a fez, não foi o 25 de Abril.
          De uma certa maneira, a tal honestidade que se discute.

    1. Boa pergunta. Infelizmente não sei se alguém saberá responder.
      Numa cidade que tem levantada na Avenida da Liberdade uma estátua do Simón Bolivar, que nada tem a ver com Lisboa, é imperdoável não haver um monumento digno a D. João II, um dos nossos melhores monarcas.

      1. Más notícias: parece que a escultura terá sido vítima da intempérie que arrasou boa parte dos pavilhões da Exposição do Mundo Português, e que nos roubou outras peças preciosas (como o d. Afonso Henriques de Maximiano Alves).

          1. Para mim, seria uma boa solução (e uma justa homenagem ao malogrado escultor) utilizar os modelos deixados e refazer a escultura (provavelmente a sua melhor obra). Quiçá, mandando executar também a peça-irmã de Manuel I, recuperando a ideia que presidiu ao concurso de 1931 (ou então usando a que venceu salomonicamente o certame: o Manuel I de Maximiano Alves, que se encontra sub-aproveitado no castelo de S. Jorge – n. 110 na listagem do DO).

      2. uma cidade que tem levantada na Avenida da Liberdade uma estátua do Simón Bolivar, que nada tem a ver com Lisboa

        No Campo de Santana há um busto dedicado “ao Inca Garcilazo de la Vega”. Não sei quem foi esse indivíduo nem o que tenha ele a ver com Lisboa.

  5. É de facto espantoso que o nosso melhor rei não tenha honras de estátua nenhures, enquanto que irresponsáveis que por pouco não eliminaram Portugal do mapa, como D. Sebastião e (em menor grau) D. Duarte, as tenham em barda.
    Sobretudo D. Sebastião, acho inacreditável que haja estátuas dele seja onde fôr. Sugiro que, no próximo Dia 15, o Pedro Correia proponha a eliminação de todas as estátuas existentes desse gajo.

      1. Sim, D. Duarte.
        Lançou uma expedição maluca contra Tânger, com um exército claramente insuficiente (muito inferior àquele que tinha tomado Ceuta, e nesse caso os mouros foram apanhados desprevenidos). Foi copiosamente derrotado, foram todos feitos prisioneiros, e Portugal só não acabou ali porque os mouros fizeram um mau negócio para eles, libertar os portugueses em troca da devolução de Ceuta.
        Foi, tal como eu disse, um rei irresponsável que por pouco não eliminou Portugal do mapa.

    1. Fico contente por saber que a várias pessoas que pensam como eu. Um dos melhores reis de Portugal, talvez tenha sido o melhor.

  6. D. João II não tem nenhuma estátua porque foi o rei que constatou, face à evolução da História, que em breve Portugal deixaria para sempre de ser independente em termos geopolíticos.

    Um estadista que avançou no caminho da centralização, que percebeu que Portugal se tornaria demasiado pequeno e que tentou avançar no sentido de uma Ibéria – é um estadista que a pequena História não perdoa.

  7. Também Estado novo lhe não erigiu estátua ?
    A crueza justiceira, não era apreciada pelo regime, que mandou tirar os ferros dos pelourinhos, devido a ser pouco edificante no tocante aos brandos costumes da grei de terras de sta maria, pátria de lendas, heróis, santos e mártires – segundo aviso épico de leitão de barros, que mal não evoque, …

  8. Também Estado novo lhe não erigiu estátua ?
    A crueza justiceira, não era apreciada pelo regime, que mandou tirar os ferros dos pelourinhos, devido a ser pouco edificante no tocante aos brandos costumes da grei de terras de sta maria, pátria de lendas, heróis, santos e mártires – segundo aviso épico de leitão de barros, que mal não evoque, …

  9. Muitas vezes, não damos o valor que merecem às pessoas que contribuíram com acções para a solidificação e engrandecimento deste país, como é o caso de D. João II

    D. João II foi um visionário. Não se limitou a satisfazer a alta nobreza com as conquistas do Norte de África, para as suas glórias pessoais. Possivelmente, foi um dos primeiros “globalistas”.

    Na impossibilidade, de aumentar o território, virou-se para o Atlântico, para o desconhecido, para Portugal ter um futuro, e só assim conseguiria aumentar o seu prestigio junto das outras casas reais europeias. D. João II e sua família foram importantíssimos para que existissem os Descobrimentos.

    Sem dúvida uma família de visionários. Apesar de D. Manuel ter dado continuado o seu trabalho, se D. Afonso, filho de D. João II, não tivesse morrido os Descobrimentos, acredito, seriam muito mais grandiosos.

    1. Sim, foi um visionário. Infelizmente para ele (e talvez para Portugal) o sonho que teve desfez-se com a morte do príncipe herdeiro, alegadamente devido à queda de um cavalo. Não faltou quem atribuísse tão estranha morte a um atentado. O próprio monarca terá morrido envenenado, com apenas 40 anos. A pretensão de que lhe sucedesse um filho bastardo, D. Jorge, foi prontamente negada pela viúva, D. Leonor.

  10. Talvez não precisemos de estátuas aos nossos réis, antes disso contem a verdade, de onde vem este Povo o português ?

    Tantos morreram homens e mulheres para um todo Portugal na monarchia e também esses teriam estátuas !

    Quem foi o pai de João IV de Portugal e seu sobrenome ?

    Com registos da época e em latim se faz favor. Tudo que foi criado na republica e no Estado Novo, sobre a realeza portuguesa e gente nobre, é tudo falso.

    De onde viemos, qual a nossa origem ? qual a casa que deu acesso a Portugal ?

    João V casou com quem ? com registos originais da época se faz favor

      1. Porquê Lisboa e não em Coimbra !

        Aonde existe referência que Lisboa é a capital do reino esquecido ?

        Se faz favor com registo da época.

        Eu falo contra os meus, eles não precisam de estátuas, precisam só de serem relembrados e contem as verdades, é só

  11. Governou pouco tempo é um facto, mas é com grande satisfação e respeito que merece por tudo o que fez nesse seu breve reinado. Foi uma máquina!! Viva D.JOÃO II

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