“Tu tens cara de ser rico”


Pedro Correia,

Estou na paragem do autocarro, chega o pedinte e atira sem rodeios:

– Tu és rico, dá-me dinheiro.

– Não tenho dinheiro nem sou rico – respondo-lhe de imediato.

Mira-me de alto a baixo, com ar intrigado, antes de repetir a frase – desta vez em tom menos imperativo.

Chamo-lhe a atenção:

– Se fosse rico, andava de Mercedes. Não estava aqui à espera do autocarro.

Ele afasta-se. Mas, depois de dar uns passos, vira-se para trás e faz questão de encerrar assim o breve diálogo:

– Olha que tu tens cara de ser rico.

Trota passeio adiante sem aguardar mais réplica, cravando outra pessoa logo a seguir.

32 comentários em ““Tu tens cara de ser rico””

  1. Segue esse pedinte o método do fisco. Com algumas diferenças de eficácia: o fisco qualifica-nos como ricos por decreto (lei, portaria ou o que seja), decide ele quanto nos vai sacar, saca frequentemente por antecipação e consegue sempre o dinheiro que quer. E quanto a isso de se ser rico, borrifa-se para as demonstrações em contrário que procuremos fazer.

    Isto de se ser dotado de poderes de autoridade é magnífico.

    Costa

    Ps: entenda-se acima que o fisco está a lidar com um comum cidadão de classe média (usualmente denominado de “contribuinte”); há outros universos, como bem se sabe.

    1. Por acaso estava a pensar nisso, o Pedro é rico de conhecimento, de sabedoria.
      Pode parecer graxa, mas não é
      Pedro, vá lá dar a moedinha ao rapaz.
      Se correr ainda o apanha, ainda o apanha…
      Maria

        1. Pedro, eu estava a tentar ironizar, com o Carlos Eduardo e o Ega a correrem para o americano…
          Há dias respondi a um rapaz que me fez o mesmo pedido:
          Se soubesses quanto recebo de reforma eras tu que me davas uma moedinha a mim.
          E não estava a brincar, juro.
          É que ele é que tinha mesmo ar de rico
          Maria

          1. Entendo bem isso, Maria. (E a propósito desse final d’ Os Maias, de que tanto gosto, tenciono publicar este mês um texto sobre esse romance.)

          2. Esse final, o capítulo XVIII, um sublime exemplo de elegíaca elegância, finamente depurada, sem uma palavra a mais ou em falta. Que se lê uma e outra vez. E sempre – como toda a obra – apetece reler.

            Afasto-me radicalmente do tema. Nada acrescento à discussão com este comentário. Mas (e já neste blogue trocámos linhas sobre esse final), não poderia deixar de o fazer.

            Costa

  2. Mais importante do que ser é parecer ser?
    Maquiavélico, o pedinte.
    Não ser uma pessoa rica não quer dizer que nâo tenha uma riqueza infinitamente superior à do toque de Midas. O conhecimento, a educação e a saúde não têm cotação nos mercados, porque não se lhes pide atribuir um preço.

    Como a dignidade. Faz hoje 38 anos que perdemos a inocência numa bola de fogo.

  3. Também uso transportes públicos. No porto utilizadores são tratados como reses. A quem pede limito-me a dizer que só trago cartões. Por vezes, acrescento que já fui assaltado e por isso os trago. Meu pai, costuma fazer um ar condoído, soltando expressão vetusta: “Não pode ser santinha, tenha paciência…”. Esta não me atrevo. E às vezes até dou.

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