
Num pavilhão da Feira do Livro, só com obras em segunda ou terceira mão, uma livreira insiste em impingir-me uma treta alegadamente escrita por José Sócrates integrada num pacote “leve dois volumes por cinco euros”. Respondo de imediato: «Isso nem de borla levaria.» Várias pessoas em redor exprimem concordância. Vale o que vale, como os políticos costumam dizer das sondagens.
Deixo a tal treta inerte no escaparate e trago O Último Imperador, de Edward Behr, e A Ponte, de Manfred Gregor: nada mal, por cinco euritos.
Como de costume, todos os anos, venho da Feira com a mochila carregada. Com obras de Paul Auster (4321), Evelyn Waugh (Enviado Especial), Karen Blixen (África Minha), Stephen Crane (A Insígnia Vermelha da Coragem), Javier Marías (Negras Costas do Tempo), Branquinho da Fonseca (Rio Turvo), Henry Fielding (Tom Jones) e Elias Canetti (As Vozes de Marraquexe).
Como sempre também, encontro muita gente conhecida: Júlio Isidro, Francisco Moita Flores, António Araújo, Fernando Sobral, Joaquim Vieira, Maria Inês Almeida, Carlos Rodrigues Lima, Rogério Beltrão Coelho, Margarida Balseiro Lopes. Passa Nuno Artur Silva, em ritmo lento. E Ricardo Araújo Pereira, em trote acelerado, deixando para trás vários suspiros femininos que certamente já não escutou.
Lá em cima à direita, no quarteirão do Grupo Leya, acumula-se uma multidão dentro da multidão: é a fila de admiradores de António Lobo Antunes: o romancista, de caneta na mão, assiste impávido ao desfile de fãs.
O “meu” território encontra-se no quadrante oposto, em baixo à esquerda. O quarteirão da Porto Editora, onde é sempre um prazer cavaquear com o Francisco José Viegas e o Rui Couceiro.
Numa fileira de autores, descobrimo-nos seis tristes adeptos do Sporting (não contabilizo o Francisco, que tem duas costelas leoninas). O mais procurado para autógrafos é Jaime Nogueira Pinto, ali presente com uma reedição do seu Salazar Visto Pelos Seus: qualquer livro com Salazar na capa é sucesso de vendas – seja mau ou seja bom. Este é dos bons.
Reparo que a poucos metros está Luis Sepúlveda, compenetrado a autografar várias obras. Pego num exemplar de Patagónia Express, peço-lhe uma dedicatória com determinado nome feminino – oferta especial.
Sepúlveda é o mais “português” dos escritores chilenos: sempre lhe admirei a escrita depurada. Sei bem como é difícil escrever de forma clara, legível e aparentemente simples.
Cruzo-me quatro vezes com o embaixador Seixas da Costa, co-prefaciador do mais belo livro em exposição na Feira. E nem de propósito: lá surge ela, a colectânea do DELITO DE OPINIÃO, no tranquilo pavilhão da E-primatur.
Está muito bem acompanhada: ao lado da República, de Platão. Discípulo de Sócrates – do outro, do genuíno. Há uma diferença abissal entre Platão e Carlos Santos Silva. Desde logo em termos financeiros: não consta sequer que o autor de República tivesse conta bancária.

Lá volto amanhã, em dia mais calmo (espero),que no sábado passado estava confuso.
Através da Amazon e aproveitando os paperback usados, tornei-me “devoto” do Evelyn Waugh. Que belíssimo escritor. Ando agora a ler a autobiografia de Robert Graves, Goodbye to All That, muito bom.
Abraço
Fernando Antolin
Viva, Fernando.
Prazer em vê-lo novamente por cá.
Waugh é um dos meus escritores favoritos. Livros como ‘O Ente Querido’, ‘Declínio e Queda’ e ‘Um Punhado de Pó’ estarão sempre no meu panteão especial enquanto leitor atento.
Tomei boa nota desse livro de Robert Graves, que não conheço.
Forte abraço, meu caro.
Será amanhã, a tarde inteira, se nenhum imprevisto se intrometer. De Jaime Nogueira Pinto, por estes dias, é a reedição d’A direita e as direitas (creio que esta confissão me desqualifica inapelavelmente perante alguns assíduos comentadores).
O Sócrates lusitano já está no circuito da venda por atacado? Sinal de bem-vinda decência.
Costa
Jaime Nogueira Pinto tem vários livros no mercado: ‘Bárbaros e Iluminados’, ‘O Islão e o Ocidente’ (que aqui recomendei), ‘Jogos Africanos’, esse que mencionou, ‘A Direita e as Direitas’.
E não esqueçamos o excelente romance ‘Novembro’, também dele.
Esses recomendo-os a todos. Deles só ainda não li os Jogos Africanos. De outros, todos de bem proveitosa leitura, Nobre Povo, por exemplo, vale por ser mais uma claríssima demonstração do que foi verdadeiramente a tão cantada I República.
Novembro é de facto uma excelente incursão pela ficção. E sê-lo-á, ficção, assim tanto?
Costa
Pedro Correia, antes Platão que ……Sócrates!
António Cabral
Farei sempre a apologia de Platão, meu caro. Jamais a de Sócrates.
“Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência” – Aristóteles
Nada mais a propósito.
Nesse pavilhão comprei “Os Contos Completos” de Marcel Proust.
Gostei da banca. A revisitar brevemente.
Faltou-me encontrar obras do Miguel Real. Tenho de fazer uma pesquisa mais pormenorizada.
Quanto ao Ricerdo Araújo Pereira esteve na Tinta da China a lançar um livro de um novo autor brasileiro.
Também vi o ALA e cruzei.me com o antigo ministro Vera Jardim, A meio da tarde de ontem estava uma multidão…
Abraço.
Andámos ali bem perto um do outro, meu caro. Havia muita gente, na verdade. Muita e boa.
Abraço.
Que bela companhia!
todos os anos, venho da Feira com a mochila carregada
E tem tempo e paciência para depois ler tudo aquilo que comprou?
Eu quando era novo também fazia isso. Depois descobri que acabava por não ler nem metade dos livros que comprara. Agora pura e simplemente já não ponho os pés na Feira, para não perder tempo e não perder dinheiro a comprar coisas que depois não lerei. Só compro livros novos à medida daqueles que vou acabando de ler.