
(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)
Ontem, 13 de Março, passaram-se 3 anos exactos!: a minha filha chegou de Inglaterra, onde a sua universidade encerrava por todo aquele ano lectivo, eu recebi-a num misto de angústia – aquela que presumo todos os pais terem sentido nessa época, ainda desconhecedores dos efeitos que a nova doença teria entre os jovens – e de ira, pois acolhendo-a num aeroporto pejado de turistas ingleses que vinham ao Sol do Algarve, e sabendo que os paquetes apinhados ainda atracavam ao Tejo…, isto tudo entre as já trapalhadas da futura “Super-Marta” (que agora se anuncia “para Lisboa”!), sua dra. Graça (“visitai os lares de terceira idade”, clamara ela nessa mesma semana) e restantes dignitários… Saímos da Portela logo rumo a Sul do Tejo, e confinámo-nos junto a um grupo de amigos que já se tinham encerrado há já uma semana, abrindo o portão apenas para que nós entrássemos – Amigos-Irmãos, verdadeiramente.
Era-me um momento importante, regressara há pouco da Bélgica, tinha ido ao Brasil, tinha sido convidado para regressar a Moçambique. Terminava um trabalho demasiado longo (“falta-me um mês, mês e meio, não mais do que isso…” augurava eu), reinventava-me como jovem, nisso homem com sentimentos, “isto” parecia que ia recomeçar. Logo um amigo brasileiro, também antropólogo, desafiou-me a escrever algo sobre o Covid-19 por cá, a publicar entre um colectivo de textos. Nas noites (de angústia, claro) fui ver o que os outros botavam: uns davam-se à demagogia anti-liberal, nisso julgando-se “intelectuais orgânicos” de uma qualquer “pós-modernidade”. Outros, mais plácidos, actualizavam, talvez inconscientemente a velha e colonial “etnografia de varanda” fazendo “etnografia de Whatsapp” ou, pior ainda, “de marquise”.
Por isso tudo, deixei-me nas noites (as tais de angústia, repito) na catarse de escrever este “O capitão MacWhirr e o Covid-19: os dois primeiros meses de pandemia”. Julgo que o melhor texto que escrevi na vida – algo comprovado por ter colhido para aí 10 elogios de amigos, coisa inédita. Não foi publicado, talvez por eu não ter feito qualquer “etnografia de quinta”, talvez por eu me ter dedicado a partir a loiça toda – que era o que me apetecia, ainda mais do que habitualmente… Ou talvez por ser extenso em demasia, 40 e tal páginas, disse depois, em dias mais serenos.
Entretanto o resto logo estancou, nem os sentimentos medraram nem o trabalho (longo) fluiu, ou vice-versa. O regresso ao Índico desabou. Atrapalhei-me, está visto e revisto. Depois morreu a minha mãe, enclausurada na sua “residência”, e, parece-me agora, este ríspido heteronormativo tóxico desabou (mais?) um bocado. Há as alvoradas, bem matutinas, às vezes almoço, e as noites – já sem angústias. Uma salamandra e uma piscina vizinha, depende da época. Ficou-me, apenas, este “MacWhirr e o Covid-19“, lido por um punhado de amigos. E um constante “I would prefer not to“, feito que fui Bartleby…
O confinamento já acabou?

conheço o coronavirus desde a peste suína de 1947
li muita alarvice sobre Covid-19 em revista doutros países.
esqueceram a função dos lazaretos ou cordão sanitário e foi o que se está ainda a ver e se verá futuramente
O confinamento já acabou?
Acabou, mas deixou sequelas tóxicas.
Para além de jovens com doenças mentais, há locais de trabalho que nunca mais voltaram a ser o mesmo. Muitas pessoas ficam a (supostamente) trabalhar em casa, outras fecham-se nos seus gabinetes e não falam com ninguém.
E eu nunca votarei nos partidos que nos fizeram isto (o que aliás em nada os prejudica, porque de qualquer forma nunca votara neles antes).
“…a minha filha chegou de Inglaterra, onde a sua universidade encerrava por todo aquele ano lectivo….”
Desculpe, não percebi esta explicação e todo o resto do post.
A universidade encerrava ….., porquê?
Pois não se encerre Vexa agora,vá publicando que nas clareiras das madrugadas,divorciado que sou das rainhas e raínhos levedados venho abicar aqui.
Obrigado. Bom turno de vigia…
Estes três anos, num contexto extraordinário como esse, e de contornos irrepetíveis, davam um romance. Digo eu, a ver de fora.
Com alusões continuas a factos da época e os necessários “flashbacks”, como no cinema, para cimentar a obra. África poderia sempre aparecer nesses fragmentos.
É só um palpite. Tenho a convicção que será até mais que isso: um bom conselho de amigo.
Agradeço o alento.
so tenho pena que em vez da “super marta” e da graça freitas, não tenha sido o sr (e outros semelhantes) a conduzir os destinos do país nesta altura. Concerteza estavamos muito melhores…
Porventura… Mas infelizmente não pude dar o meu contributo nessa área de actividades, estava ocupado a exportar produtos agrícolas para a China – é que se criaram imensas oportunidades de negócio nessa altura.
imagino a sua azafama para tentar salvar o mundo … devem ter sido quilos e quilos de arroz carolino. agradeço a sua contribuição para a economia do pais.
Tem toda a razão, foi uma azáfama. Excelentes (e por isso imperdíveis) oportunidades de negócio, felizmente detectadas pela nossa excelência governativa.
exatamente … a unica diferença é que quem governa/decide/gere etc etc bem ou mal tem de fazer decisões (boas ou más). já as decisões de quem está atrás de um teclado a “exportar” simplesmente o “intelecto” são sempre mais fáceis. Mas pelo menos agradeço o facto de não praticar censura a este tipo de comentários (ao contrário de alguns amigos seus)
António Fonseca se a questão é o seu acinte face ao “exportar” intelecto eu então “exportarei” o meu, ainda que preveja que seja coisa a mais para a sua camioneta:
1 – como estou farto de esclarecer nos blogs não há “censura” – isto não é imprensa. Quem não consegue perceber isso, quem após 20 anos de bloguismo em Portugal insiste nessa ladainha, padece de profunda e crónica deficiência cognitiva.
2 – para além da ministra que você acha dever defender (segundo a patusca concepção de democracia que é a “se soubesseis o que custa mandar/decidir preferírieis obedecer toda a vida”) ter sido uma má ministra da Saúde antes do surgimento do Covid-19 – como aliás o que se vem passando algo pode demonstrar, e como era sentido generalizado entre os agentes do SNS -, para além disso, dizia, convoco uma memória que para si não é necessária, pois satisfaz-se em defender o “intelecto” dos jogadores do seu clube: em finais de Janeiro de 21 durante alguns dias Portugal foi o pior país do mundo em termos absolutos (em termos absolutos, repito-lhe a ver se lhe entra na cabeça) de incidência do Covid. Algo que muito se deveu à errática, ziguezagueante, política de contenção da pandemia que o governo havia tido nos últimos meses – já passou algum tempo, as pessoas tendem a esquecer, mas, caramba, não é assim tão longínquo. E também devido à incapacidade dos serviços estatais em terem promovido reestruturações dos serviços sanitários, coisa reafirmadissima por vários oficiais do ofício, e também tanto aludida pelo facto de haver algumas instalações que de modo avulso se tinham optimizado, nisso contrastando com a incapacidade da DGS e seu ministério de promoverem tais medidas.
Nesse período (mais uma vez lhe lembro, em que Portugal era o pior país do mundo em termos absolutos) a sua querida e tão competente ministra foi entrevistada na RTP, tendo sido confrontada com a tétrica situação. Não respondeu, preferindo investir desabridamente sobre a jornalista. Foi na sequência disso que João Morgado Fernandes, então jornalista em pousio (pousio ao qual se deverá a sua preferência por políticos que invectivam jornalistas nisso eximindo-se a responder a questões gravosas) e contratado como oficial de comunicação de uma universidade pública (de onde veio a transitar para as mesmas funções … grupo parlamentar do PS, ao que ouvi dizer) emitiu o logo aclamado e muito replicado entre a chusma socialista “Super-Marta”. E é este lixo, imundo, imoral, javardo, que você vem aqui defender, passados já dois anos. Agitando a merda do argumento avesso ao “intelecto”, ainda por cima. Vá-se foder.