Xenófobos, nós? Naaa, e se formos, é só um bocadinho


Rui Rocha,

O João Carvalho já reflectiu ontem sobre a importância das profissões na contextualização de crimes. Ao João parece-lhe, e a mim também, que não importam nada. Existe, todavia, um outro tipo de etiqueta que acompanha frequentemente a notícia de um crime. Trata-se do rótulo da nacionalidade.  E a este propósito há que distinguir de acordo com o espaço geográfico em que são cometidos. Se o facto ocorrer no estrangeiro, a nacionalidade relevante é a portuguesa. A notícia há-de referir: ‘português natural de Felgueiras apanhado a roubar cinco figos na Namíbia foi condenado a varrer sete lanços de escadas’. Nestes casos, o que se procura explorar é um sentimento de proximidade. Se a notícia referisse os factos sem indicação da nacionalidade, não nos despertaria qualquer interesse. Assim, é possível que nos dediquemos a explorar os meandros da distribuição moderna dos figos na Namíbia, a altura dos degraus naquele simpático país africano, a qualidade das vassouras, a severidade da justiça local (sete lanços!) ou que nos detenhamos a reflectir, ao menos por uns momentos, sobre as razões que levam um português a roubar figos na Namíbia. Todavia, se o crime for cometido em Portugal, a nacionalidade que interessa salientar é toda aquela que não for portuguesa. A título de exemplo, nos últimos dias, fomos confrontados com a detenção de cinco cidadãos por dois assaltos. Romenos, claro! Ainda mais recentemente, a notícia do rapto de uma mulher. Coisa de chineses, evidentemente. Ora, nestes casos, o rótulo não está dirigido à proximidade. Está directamente relacionado com o distanciamento e com o preconceito. Quem diz romenos ou chineses, diz brasileiros ou cabo-verdianos. A mensagem é ‘estes estrangeiros estão cá para piorar o nosso pacato e desenvolvido país’. Isto é, para além do mais, tremendamente injusto para todos os cidadãos de nacionalidade não portuguesa que ajudam todos os dias a tornar Portugal um país melhor. Trata-se, à nossa boa maneira, de uma xenofobiazinha suave. Não mata, mas aleija. E está tão entranhada que torna possível, por exemplo, que o DN coloque na primeira página a notícia da ilegalidade da base de dados da PSP ao lado de uma outra que propõe um contexto para os crimes dos chineses. Talvez tudo se tornasse mais fácil se prescindissemos dos rótulos e passássemos a avaliar comportamentos em função do seu valor intrínseco.

 

14 comentários em “Xenófobos, nós? Naaa, e se formos, é só um bocadinho”

  1. “Mulher hospitalizada depois de ser mordida por um pitbull “.
    Está mal! pois incentiva o receio generalizado relativamente a essa raça de cães, que são tão meigos e amigos do homem como os outros cães!
    Pois é… mas são um grupo de risco. Eu, por mim, passo ao largo… o conhecimento da estatística de más ocorrências com os cães dessa raça criaram em mim esse comportamento…
    A generalização exagerada do conceito de xenofobia é uma prática que não presta um bom serviço à sociedade, pois confunde receios legítimos com receios irracionais.

    1. Pois é, Manolo. Mas, nesta fase, ainda consigo conviver com generalizações relativamente aos cães. No que diz respeito a pessoas, incomoda-me. No dia em que eu achar que os animais têm tanto valor como as pessoas, ponho ambos em pé de igualdade.

      1. O meu comentário não tem nada a ver com animais! tem a ver com o exercício da razão e com o instinto de sobrevivência do bicho-homem.
        Se o Rui entrar um dia na urgência de hospital, e necessitar de cuidados urgentes e isso coincidir com uma arruaça de ciganos a exigir que um lelo deles seja atendido à sua frente (à sua e a demais pessoas que chegaram antes) vai compreender o porquê de os médicos cumprirem esse pedido. Sentem-se pressionados sob ameaça, e acabam por discriminar positivamente o cigano doente. O mesmo se passa nos tribunais, etc. As pessoas pacíficas não se querem dar ao trabalho de partir as ventas de outras que lhes estão a usurpar o direito ao tratamento igual, esse direito democrático.
        Nunca vi os militantes anti xenofobia falarem contra a discriminação positiva das minorias ou contra as atitudes anti-socias (chantagem, coacção) praticadas constantemente por esta minoria.
        Quanto aos romenos é muito semelhante. Ora pense bem! o que fazem em Portugal milhares de pessoas que não sabem a nossa lingua e não têm condições para viver do comércio ou do trabalho dependente?; Ou mendigam ou dedicam-se a actividades ilícitas, para sobreviver. Passar ao largo dessa gente não é um acto de xenofobia, é um acto de auto-defesa.

        1. Manolo, ambos estamos a falar de generalizações. O Manolo, por certo influenciado por experiências pessoais ou próximas desagradáveis (a tal estatística pessoal) tem uma visão. Eu, que vivi um par de anos ao lado de um prédio onde viviam várias famílias ciganas e não tenho um dedo a apontar-lhes, prefiro generalizar no sentido de avaliar os tais comportamentos pelo seu valor (venham de amarelos, verdes ou brancos).

          1. Portanto eu fico na minha e o Rui fica na sua…
            Mas já agora conto aqui as minhas experiências, que são muitas:
            Durante mais de 10 anos morei a 30 metros de um “aldeia cigana” no Rio Seco, Lisboa. Dois dos episódios passam-se aí:
            1- Uma dia pedi à minha filha mais nova, que então tinha 6 anos para fazer uma compra na mercearia que ficava do outro lado da rua, e fiquei a ver à janela ela atravessas a rua. Para meu espanto um miúdo cigano, talvez da mesma idade, aproximou-se dela a correr para lhe roubar o porta-moedas. Ela resistiu e eu corri em seu socorro. Quando lá cheguei já lá estavam vários adultos ciganos, a minha filha chorava já sem o porta-moedas e os ciganos só me disseram com um ar ameaçador: você não toca no meu filho. Meti o rabo entre as pernas e regressei a casa com a minha filha e sem o porta-moedas. Este episódio podia ter-se passado com qualquer género de pessoas, minorias ou não. Só os ciganos defendem tão absolutamente as crianças da sua tribo. Mesmo que estejam a fazer mal os pais defendem-nas, passando as culpas para o lado da vítima.
            2- Um dia fui ao Dispensário para dar uma vacina a essa mesma fila. Havia dois guichets a atender (tirar a senha), um dos guichets tinha 3 pessoas, outro tinha uma cigana. Obviamente fiquei atrás da cigana. Ela virou-se para mim e disse-me: aqui á o guichet dos ciganos, vá para além, apontando para a fila maior! Estupefacto , perguntei à funcionária que atendia se era verdade que aquele guiché era só destinado a ciganos, ela encolheu os ombros como quem diz “temos que aturar isto…”. Fiquei aonde estava. Passados uns minutos entraram mais de 10 ciganos adultos que fizeram coro com a cigana que estava à minha frente para eu mudar de guichet. Assim fiz, por medo! Este episódio ilustra como certos ciganos (muitos) se julgam com mais direitos que os outros cidadãos.
            3- Um dia fui testemunha, no Tribunal de Sintra, de um acidente em que o carro que ia à minha frente atropelou um rapaz cigano, numa auto-estrada , de noite, a chover . O rapaz atravessou a auto-estrada e, soube mais tarde, já chegou morto ao hospital. No julgamento apareceram mais de 20 ou 30 ciganos a chamar assassino ao condutor que estava a ser julgado, o polícia de serviço não se atreveu a intervir. O homem foi condenado e 2 anos de pena suspensa. Era o que os ciganos queriam, para receberem uma indemnização maior do seguro (disse o advogado)… fiquei revoltado, até porque podia ter sido eu quem atropelou o rapaz. Íamos ambos devagar e é proibido a circulação de peões nas auto-estradas . Mais tarde soube que a família do falecido recebeu 700 contos! em 1085.

            É claro que os gangsters também têm estes comportamentos. Desses também passo ao largo, desde que consiga identificá-los…

    1. E é também muito pertinente a observação que lá fizeste, Ana. Alargar as vistas é um exercício necessário. Mais agora que existem tantas janelas para espreitarmos o mundo.

  2. Que dizer dos USA que expulsam pessoas lá nascidas, neste caso para os Açores, filhos de portugueses, que “meteram o pé na argola”?
    Não estou nada contra que um indivíduo de nacionalidade estrangeira seja expulso, se o seu comportamento não for o admissível. Porque pessoas de bem, azuis, brancas ás pintinhas, etc, são e serão sempre bem vindas.
    Quanto as chineses, não é uma questão xenófoba, mas sim económica e de direitos humanos. Económica porque teêm a possibilidade de praticarem concorrência deslleal, e de direitos humanos porque a produção chinesa assenta na escravatura, com a cínica complacência do Ocidente.

    1. Absolutamente pertinente o seu comentário quanto a muitas práticas americanas. O sistema jurídico americano trata de modo muito diferente e discriminatório os cidadãos nacionais e os outros. No que diz respeito à China, noto que as suas observações dizem respeito à política chinesa e aos seus dirigentes. Penso que é importante distinguir este aspecto do da condenação a priori dos chineses em geral que são as principais vítimas dos aspectos políticos.

  3. Não acho que seja xenofobia. Acho, aliás, importante ter noção de que “redes” e particularidades se formam nas comunidades de imigrantes, para que se possa intervir precisamente ao nível da lei e não do preconceito. Tentar não ver essa realidade -que somos diferentes em muita coisa- é um pouco infantil e não ajuda, sequer, a fazer de Portugal um caso de boa integração de estrangeiros, como por acaso até é.

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