
Escândalo Watergate começou com um assalto a 17 de Junho de 1972
A minha geração foi irremediavelmente influenciada pelo caso Watergate. Sonhei ser jornalista precisamente porque Watergate aconteceu. Dissequei-o nos mais ínfimos pormenores e na minha galeria de heróis figuram não só o duo Bob Woodward–Carl Bernstein (Robert Redford-Dustin Hoffman, na excelente versão cinematográfica de Alan J. Pakula) mas também Ben Bradlee, o director que confiou no talento e na sagacidade dos seus repórteres, e Katharine Graham, a proprietária de jornal que soube mostrar-se imune a todas as ameaças. Incluindo as da Casa Branca, reforçadas pela grosseria de Richard Nixon.
Woodward e Bernstein, os jornalistas que revelaram aos americanos e ao mundo todas as implicações do caso Watergate, tornaram-se celebridades. Fala-se muito menos em Bradlee, que aceitou dirigir o Washington Post quando este era uma espécie de parente pobre na alta roda da imprensa norte-americana, sempre à sombra do mítico New York Times.
A verdade é que nenhum dos artigos de Woodward e Bernstein (a dupla que ele baptizou de “Woodstein”, nos longos serões de trabalho no jornal durante a revelação do escândalo que conduziria à demissão do presidente Nixon) teria sido possível sem a firmeza de Bradlee, que lhes deu destaque em sucessivas manchetes. Contra pressões de todo o tipo.

Nas suas memórias, Bradlee relata-nos a odisseia do relançamento do Post, que à época era apenas o terceiro jornal mais vendido na capital americana. Ele arejou o grafismo, destacou a imagem, criou um suplemento chamado Style, que dava prioridade ao lazer, valorizou o espaço de opinião, criou um provedor de leitores (em 1969!) e deu novo impulso à reportagem. Bastando-lhe adoptar como lema a velha lição que recebera da professora da instrução primária: «O melhor possível hoje, melhor ainda amanhã.»
A qualidade foi sempre um objectivo a atingir. «A detecção de talentos nunca cessa num periódico», defendia Bradlee, «decidido a que cada jornalista fosse o melhor da cidade no seu ramo de actividade».
Este foi um dos segredos do sucesso do jornal, a par das normas de exigência postas em vigor. O Post deixou de usar a ambígua expressão «segundo as nossas fontes», instituiu a norma da verificação dos factos junto de duas fontes autónomas e recomendou aos seus repórteres que nunca esquecessem o sábio preceito de Camus, que também foi jornalista: «Não existe a verdade. Só existem verdades.»
Neste caso, a verdade jornalística contrariou em toda a linha a suposta verdade oficial. A partir de um assalto ao edifício Watergate, faz hoje 50 anos. Ali funcionava a sede nacional do candidato democrata George McGovern, rival nas urnas do republicano Nixon, que já formalizara a recandidatura à Casa Branca.
Parecia ser mero caso de polícia, com a detenção de cinco supostos larápios de meia-tigela, a tal ponto que a cobertura jornalística foi confiada a Woodward, jovem repórter que costumava frequentar esquadras à cata de novidades. Mas transformou-se num escândalo político em cascata que foi cercando o presidente. Em 17 de Novembro de 1973, já muito acossado, Nixon fez uma alocução televisiva em que declarou categoricamente: «I’m not a crook» [«Não sou vigarista»] Ninguém tomou esta declaração pelo seu valor facial, mas pelo seu oposto.
Nove meses depois, o inquilino da Casa Branca – o mais poderoso político do planeta – viu-se forçado a resignar ao cargo. Nunca antes tinha acontecido algo semelhante nos EUA, nunca aconteceu depois.
Dir-me-ão uma vez, dir-me-ão cem vezes: o caso Watergate é irrepetível. Mas quanto mais único, quanto mais insólito, quanto mais raro, mais me serve de referência. E continuará a ser o maior dos motivos por que um dia, já há muito tempo, decidi ser jornalista.
Ingenuidade, dirão talvez. Felizmente podemos ser ingénuos em qualquer idade.

Dustin Hoffman (Bernstein) e Robert Redford (Woodward) no filme Os Homens do Presidente

O caso watergate é irrepetível? Não sei, basta olhar para o caso covid, parece que o Pedro Simas agora chegou à conclusão que as medidas de protecção foram prejudiciais para o nosso sistema imunitário. E o que é que fez a comunicação social? Nada.
Neste momento acontece aquilo que os “negacionistas ” previam; um aumento considerável de doentes não tratados no período covid. O que é que fez a comunicação social? Nada.
Neste momento há a disseminação do vírus dos macacos em todos os países que utilizaram a vacina com o adenovírus do macaco. O que é que faz a comunicação social? Nada.
Não foi à toa que a comunicação social recebeu 15 milhões antes da pandemia, e também não foi à toa que foi aprovada a lei da rolha na internet. Veja-se a quantidade de comentários e artigos que foram censurados e a quantidade de médicos que foram sancionados apenas por emitir a sua opinião.
Para não falar nos confinamentos a fazer lembrar os campos de concentração de triste memória.
Não me vá dizer agora que a culpa da varíola do macacos é das vacinas anti-covid, como alguns lunáticos fazem passar (como se o perfil dos doentes não fosse tão pronunciado). Aliás, é graças às vacinas que se abandonam progressivamente as outras medidas ant-covid.
Realmente, só mesmo um lunático é que se lembrava de relacionar a vacina ChAdOx-1 ( Chimpanzé, Adenovírus e Oxford ) com a varíola dos macacos. Ainda se fosse com a varíola dos Chimpanzés tá bem, agora com a dos macacos não tem nada a ver.
O que vale é que temos os especialistas que desconhecem a origem da doença e a sua transmissão mas têm a certeza absoluta que não é das vacinas.
Ontem:
– Portugal é o país do mundo com mais vacinados. ( Portugal é um país responsável e cumpridor)
Hoje:
– Portugal é o país do mundo com mais infecções. ( Malandros)
Éh pá, por favor…vacinem-se.
Sim, as vacinas são terríveis, mas como relacionar com outros países que neste momento têm uma percentagem tão grande de vacinados (e mais ainda de reforçados) e têm taxas baixíssimas de covid? E foram homens de meia-idade a faixa etária/sexual mais vacinada? É que não se vêm mulheres mais velhas ou mais novas atingida pela “bariola”. Provavelmente não se vacinaram.
Se você gosta de ser cobaia de vacinas experimentais, tudo bem, quem sou eu para o contrariar. Agora que me queira convencer que esta vacina não é responsável por uma série de efeitos secundários graves, como é o caso da varíola dos macacos, da hepatite fulminante dos putos e das miocardites, se calhar perde o seu tempo.
Adorava saber porque é que as pessoas que mais contestam as restrições ao covid, por vezes com razão, são as que mais contestam as vacinas.
Tinha-o por mais racional. Essa conversa do “experimentalismo” é pura teoria conspirativa, e essas doenças como consequência (então a da varíola dos macaco nem se fala, mas nem vale a pena mencionar de novo o facto de só determinadas faixas serem atingidas; os idosos, os mais vacinados, não sofrem da varíola porquê?) são uma deriva disso mesmo, sem qualquer base que não a conversa de café. Nem sequer pensa que as miocardites derivam precisamente da covid, de que são uma efeito frequente, e que as hepatites tanto podem ser da Covid como do uso excessivo de máscaras. Agora da vacina? Se acha isso, presumo que nunca mais vá a um centro de saúde ou hospital; afinal é lá que estão as criaturas malévolas que dão as vacinas.
E eu adorava saber porque é que você mistura tudo. O que é que tem a ver estas “injecções” com vacinas normais?
E qual é a admiração de só atingir determinadas faixas? Então as vacinas que têm o adenovírus do macaco não são só as da Oxford que depois se juntou à AstraZeneca? Não houve vacinas que só foram dadas a pessoas de uma determinada idade? Não houve vacinas que só foram aconselhadas para homens? E porque carga de água é que a varíola dos macacos só está a aparecer nos países onde foram dadas estas vacinas?
Se você gosta de ser enganado o problema é seu, tem informação mais do que suficiente para esclarecer todas as dúvidas.
E sim, as vacinas eram experimentais, procure e confirme a autorização que tiveram, antes de vir para aqui falar de cor.
As vacinas NÃO são experimentais. Para isso teriam que ter passado por cima da terceira fase. As vacinas para a Gripe asiática de 1957 surgiram em sete meses, também eram “experimentais”? E sim, são vacinas. Essa relação entre as vacinas e a varíola primata só surgiu em redes sociais de chalupas e já desmentiram centros de vezes (tem aqui um exemplo mais directo: https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/ad enovirus-de-chimpanze-na-vacina-da-astra zeneca-contra-a-covid-19-nao-causa-vario la-dos-macacos). A avaliar pela gíria utilizada, as suas “informações” devem vir dessas sapientes redes sociais.
Tá bem, se lhe aparecerem as borbulhinhas depois não venha para aqui dizer que ninguém o avisou e que a culpa é dos chalupas.
Eu não sei onde é que você viu que as vacinas não eram experimentais, de certeza que você sabe ir à procura num computador?
Procure por autorização de vacinas. É só googlar caramba, não é assim tão difícil.
Só se for a googlagem a habituais páginas conspirativas. Repito: as vacinas não eram nem são experimentais. E estou muito grato a quem nelas trabalhou. Se continua a creditar nessa sandice de que são responsáveis pelas tais borbulhas, problema seu.
Já vi que tenho de ser eu a fazer a papinha toda.
Veja lá este documento, é da União Europeia, a não ser que para si também seja um documento conspirativo.
https://eur-lex.europa.eu/legal-content/P T/TXT/PDF/?uri=CELEX:52020DC0245&from=PT
Mas se você não consegue perceber o que está escrito nesse documento, tem aqui outro link, este do jornal de negócios. Espero que também não seja conspirativo.
https://www.jornaldenegocios.pt/economia/c oronavirus/detalhe/covid-19-oms-da-aprov acao-de-emergencia-a-vacina-da-moderna
Eu acredito que para si seja tudo muito honesto e basta o Presidente para a Aliança Global para as Vacinas ser o Durão Barroso para ser a garantia de qualidade, mas já não tenho idade para ser cobaia,e já viu se agora me aparecessem as borbulhas? O que é que eu ia dizer se não fossem as vacinas? Que a alergia era do pó que apanhei dentro do armário?
passa-se o mesmo com a
CS desta republiqueta e os poderosos do ps: sócrates. pinho. vara, salgado …
Excelente post.
O jornalismo é de facto uma nobre profissão. Mas apenas quando é independente, isento e corajoso. E o que se publica hoje em dia tem pouco destes atributos. Com perdas enormes para a nossa democracia.
Obrigado, Susana.
Este foi um dos textos seus que mais gostei Pedro. Além da homenagem merecida a Woodward e Bernstein tocou-me particularmente esse toque de idealismo. Às vezes pode parecer que não gosto de Jornalistas. Mas é o contrário. Gosto demasiado para os ver entregues a ideologias e a interesses mesquinhos.
Bradlee e Graham são também figuras incontornáveis pela coragem com que abraçaram a procura da verdade, independentemente de todas as consequências para si próprios.
Parece-me que em Portugal is jornalistas saem da universidade formatados politicamente e não se conseguem (ou não lhes convém) libertarem-se dessa roupagem.
Não compreendo como no tempo do Passos Coelho havia manchetes todos os dias sobre os bebés que nasciam nas ambulâncias, e agora só nos damos conta dos problemas dos serviços obstetrícios quando morre um bebé numa maternidade.
Um protesto de meia dúzia de “utentes” do bloco de esquerda abre os telejornais, mas as manifestações contra a supressão das liberdades constitucionais de “negacionistas” da covid não têm tempo de antena.
A hegemonia da esquerda nos meios universitários foi o princípio do fim. E os apoios estatais foram o golpe de misericórdia do jornalismo.
Obrigado de novo, Susana.
Eu lamento muito que só se fale de jornalistas para dizer mal e criticar de alto a baixo. Nunca oiço ou leio elogios a jornalista algum.
Oiço e leio elogios a médicos, advogados, psiquiatras, cientistas, professores, futebolistas… Quanto a jornalistas, é sempre e só para desancar.
Por vezes pergunto-me se não haverá ninguém que mereça destaque.
É pergunta retórica, pois sei bem que sim. E, sempre que posso, tento remar contra a maré – consciente de que sou suspeito na matéria. Tenho-o feito várias vezes.
Talvez um dia lance este desafio aos leitores do DELITO: indiquem três jornalistas de quem tenham opinião favorável ou até muito positiva.
Veremos quantas respostas haverá.
Uma vez mais, agradeço-lhe a gentileza e o modo atento como participa nestes debates, concordando ou discordando do que se escreve,
Oh! Obrigada 😊
No final dou-lhe razão. Tendemos a fixar os maus exemplos e esquecer os bons. Vou tentar olhar para o jornalismo de uma forma mais construtiva. Peço desculpa pela generalização abusiva que faço muitas vezes… Mas olhe que há com cada um que me tira mesmo do sério. É como se deixassem o cérebro em casa.
Os seus comentários – e este diálogo que travamos – levaram-me a esta ideia, que aqui lançarei um dia destes. Desafiando os leitores a nomearem jornalistas que apreciem ou por quem tenham consideração ou que gostem de escutar ou ler.
É sem dúvida um caso inspirador para todos os jornalistas e para todos os amantes da democracia, pois sem boa imprensa não há boa democracia. Devia ser lembrado a todos os que não cumprem aquela máxima de que o jornalismo resume-se a publicar o que alguém não queria que fosse publicado. Tudo o resto é publicidade.
Temos, infelizmente, na nossa imprensa muitos publicistas disfarçados de jornalistas e todos perdemos com isso.
Também por isso, Paulo, seria útil e construtivo de vez em quando mencionar os exemplos contrários, aliás mais abundantes. Os dos jornalistas que cumprem os deveres deontológicos, a missão profissional e uma função social insubstituível. Desfazendo alguns mitos muito frequentes. Por exemplo, o de que «qualquer um pode ser jornalista» desde que esteja munido com um dispositivo móvel. Ou o de que as redes sociais asseguram com vantagem o exercício jornalístico pois «estão livres de compromissos».
É um tema a que tenciono regressar. A separação de águas é fundamental. Entre bom e mau jornalismo, sim. Mas também entre aquilo que é e não é jornalismo.
O jornalista que revelou o maior escândalo deste século vai ser extraditado para os USA ficou hoje a saber-se, que pontaria Pedro Correia.
É jornalista? Pensava que era activista.
Adorei o postal. Sempre me fascinou o Watergate e toda a embrulhada em que o Tricky Dikie se meteu , dando o dito por não dito e ficando apenas com a saída airosa da renúncia, para não passar pela vergonha da destituição.
Os Homens do Presidente é um dos filmes da minha vida.
Contraditório: https://portadaloja.blogspot.com/2022/06/o-c aso-comporta-na-actualidade-ou.html
Não é contraditório. É uma sopa da pedra, que mistura coisas muito diversas de épocas muito diferentes.
E que tem o condão de nos revelar ou recordar como o ‘Observador’ de 1972 e 1973, então em forma de revista, acertava ao lado quando abordava questões políticas dos EUA.
Quanto a este blogue que menciona, sempre me deixou perplexo o facto de ser feito sob anonimato.
Assinar “José” ou não assinar nada, tanto faz.
Não me merece crédito quem se oculta anos a fio sob o anonimato.
Nem todos são profissionais da “comunicação”.
Exigir identificação é apenas má fé para não responder às ideias.
O costume, vindo dos profissionais.
Não é jornalista quem quer, mas quem sabe e quem pode.
Obrigado, Dulce.
E já que se menciona o caso Watergate no cinema, Spielberg homenageou Bradlee e Graham aqui há uns anos, numa boa fita, The Post (não tão publicitada como normalmente são as deste realizador), em que colocou Tom Hanks e Meryl Streep, respectivamente nos seus papéis.
É verdade, João Pedro. Um filme acima da média actual, que vi com muito agrado (Tom Hanks como Bradlee), embora sem ser a obra–prima que é Os Homens do Presidente (Jason Robards nesse papel).