“Minúscula e asseada cidade de província, com os seus edifícios oitocentistas caiados, Pangim nada tem a ver com a ‘terra esquecida dos deuses’ que Lady Burton descrevia há um século.”
(Graham Greene)
8 comentários em “Vinte cidades que jamais esquecerei (XIX)”
Por “Pangim” refere-se a Panaji, a capital de Goa?
Tem graça, eu estive lá e não me lembro de ver o edifício na fotografia. Será um dos edifícios da chamada “Old Goa”, que fica a oito quilómetros de Panaji?
Pangim, capital de Goa – em português. Recordo-lhe que Goa foi território português durante 450 anos, entre 1511 e 1961. Se adoptamos a grafia portuguesa para inúmeras cidades estrangeiras, por maioria de razão devemos manter a grafia portuguesa num caso como este, dados os profundos laços históricos, culturais, afectivos e até de sangue que ali conservamos (o mesmo se aplica, por exemplo, a Macau, que designamos assim e não ‘Macao’ ou ‘Ou Mun’ ou ‘Au Man’) A frase de Graham Greene é extraída de um excelente livro de crónicas (de cinema, de livros, de viagens) e foi publicada em 1964, três anos após a invasão. O livro, com a chancela da Penguin, intitula-se ‘Reflections’: eu bem gostaria de ver editado enfim em Portugal, onde Greene tem tantos leitores fiéis. É uma belíssima crónica que recomendo a todos os leitores. Diz você que esteve lá e não se lembra de ver o edifício na fotografia. Aproveito para avivar-lhe a memória: é a catedral de Nossa Senhora da Conceição. Dado tratar-se talvez do edifício mais emblemático da capital deste estado indiano (que também com o nome de Nova Goa foi sede do vice-reinado desde 1759 e capital da antiga Índia portuguesa desde 1843), pergunto-me eu como foi possível confundi-lo com uma das seculares catedrais de Velha Goa.
Estive lá há treze anos e as minhas recordações são poucas. Não me lembro de ter visto este edifício, não.
Achei muito bucólico aquele passeio ao pé do rio. Parecia uma cidade de província portuguesa que tivesse ficado parada nos anos, sei lá, 60.
Achei emocionante ver uma data de nomes (de ruas, de lojas) escritos em português. Os indianos, apesar da sua sanha anticolonialista, esqueceram-se de mudar os nomes (como nós cá fizemos quando mudámos o nome da ponte Salazar para 25 de Abril, por exemplo).
Mas Panaji deve ter mudado bastante desde que lá estive, dado Goa ser um dos estados mais ricos e progressivos da Índia.
De facto, os goeses mantêm-se acima do padrão médio de vida no conjunto da Índia – o que aliás já sucedia antes de 1961. É, de facto, emocionante verificar as marcas portuguesas que lá se conservam, nomeadamente em zonas da capital, como no Altinho. Nos jardins das vivendas do bairro das Fontainhas, ouvi pessoas a conversar naturalmente em português. Foi, aliás, em português que fui saudado por um funcionário alfandegário no aeroporto logo à chegada. Não esqueçamos que há milhares de famílias goesas com parentes em Portugal. Também reparei na toponímia: há em Pangim, por exemplo, uma praça general Bénard Guedes, que foi o penúltimo governador-geral português da Índia. Existe uma atmosfera portuguesa na capital que se reforça quando cruzamos o território e passamos pelas aldeias e vilas goesas, tanto junto à praia como no interior. É uma característica única, que Greene aliás sublinhava no seu artigo.
Esta também “ainda” não conheço, e não me perdoo. Por 3 vezes já tive viagem marcada para a Índia, e por 3 vezes aconteceu qualquer coisa que me impediu de ir. Mas não desisto.
Não desistas, Ana. Conheço bem as marcas de Portugal no Oriente – na Índia, em Macau, em Malaca e em Timor. Algumas das mais comoventes são precisamente as de Goa. De onde a administração portuguesa saiu à força há meio século mas onde a cultura portuguesa permanece um pouco por toda a parte, como é evidente aos olhos de qualquer visitante.
Não desisto de maneira nenhuma, Pedro. A Índia é um fascínio antigo, como se estivessem lá as minhas raízes ou qualquer coisa que me falta. E não é só Goa, é também a Índia não portuguesa. Não sei explicar mas sei que vou lá assim que puder, embora ande intrigada com tanto impedimento.
Fala-se muito em Goa pelo encanto das suas praias, que são deslumbrantes, certamente. Mas o fascínio goês, para nós, ultrapassa muito as zonas balneares. Tem sobretudo a ver com uma cultura multissecular que ali deixámos ao longo de quase meio milénio e com marcas visíveis e únicas. Como uma impressão digital, impossível de apagar.
Por “Pangim” refere-se a Panaji, a capital de Goa?
Tem graça, eu estive lá e não me lembro de ver o edifício na fotografia. Será um dos edifícios da chamada “Old Goa”, que fica a oito quilómetros de Panaji?
Pangim, capital de Goa – em português. Recordo-lhe que Goa foi território português durante 450 anos, entre 1511 e 1961. Se adoptamos a grafia portuguesa para inúmeras cidades estrangeiras, por maioria de razão devemos manter a grafia portuguesa num caso como este, dados os profundos laços históricos, culturais, afectivos e até de sangue que ali conservamos (o mesmo se aplica, por exemplo, a Macau, que designamos assim e não ‘Macao’ ou ‘Ou Mun’ ou ‘Au Man’)
A frase de Graham Greene é extraída de um excelente livro de crónicas (de cinema, de livros, de viagens) e foi publicada em 1964, três anos após a invasão. O livro, com a chancela da Penguin, intitula-se ‘Reflections’: eu bem gostaria de ver editado enfim em Portugal, onde Greene tem tantos leitores fiéis. É uma belíssima crónica que recomendo a todos os leitores.
Diz você que esteve lá e não se lembra de ver o edifício na fotografia. Aproveito para avivar-lhe a memória: é a catedral de Nossa Senhora da Conceição.
Dado tratar-se talvez do edifício mais emblemático da capital deste estado indiano (que também com o nome de Nova Goa foi sede do vice-reinado desde 1759 e capital da antiga Índia portuguesa desde 1843), pergunto-me eu como foi possível confundi-lo com uma das seculares catedrais de Velha Goa.
Estive lá há treze anos e as minhas recordações são poucas. Não me lembro de ter visto este edifício, não.
Achei muito bucólico aquele passeio ao pé do rio. Parecia uma cidade de província portuguesa que tivesse ficado parada nos anos, sei lá, 60.
Achei emocionante ver uma data de nomes (de ruas, de lojas) escritos em português. Os indianos, apesar da sua sanha anticolonialista, esqueceram-se de mudar os nomes (como nós cá fizemos quando mudámos o nome da ponte Salazar para 25 de Abril, por exemplo).
Mas Panaji deve ter mudado bastante desde que lá estive, dado Goa ser um dos estados mais ricos e progressivos da Índia.
De facto, os goeses mantêm-se acima do padrão médio de vida no conjunto da Índia – o que aliás já sucedia antes de 1961. É, de facto, emocionante verificar as marcas portuguesas que lá se conservam, nomeadamente em zonas da capital, como no Altinho. Nos jardins das vivendas do bairro das Fontainhas, ouvi pessoas a conversar naturalmente em português. Foi, aliás, em português que fui saudado por um funcionário alfandegário no aeroporto logo à chegada. Não esqueçamos que há milhares de famílias goesas com parentes em Portugal. Também reparei na toponímia: há em Pangim, por exemplo, uma praça general Bénard Guedes, que foi o penúltimo governador-geral português da Índia.
Existe uma atmosfera portuguesa na capital que se reforça quando cruzamos o território e passamos pelas aldeias e vilas goesas, tanto junto à praia como no interior. É uma característica única, que Greene aliás sublinhava no seu artigo.
Esta também “ainda” não conheço, e não me perdoo.
Por 3 vezes já tive viagem marcada para a Índia, e por 3 vezes aconteceu qualquer coisa que me impediu de ir. Mas não desisto.
Não desistas, Ana. Conheço bem as marcas de Portugal no Oriente – na Índia, em Macau, em Malaca e em Timor. Algumas das mais comoventes são precisamente as de Goa. De onde a administração portuguesa saiu à força há meio século mas onde a cultura portuguesa permanece um pouco por toda a parte, como é evidente aos olhos de qualquer visitante.
Não desisto de maneira nenhuma, Pedro. A Índia é um fascínio antigo, como se estivessem lá as minhas raízes ou qualquer coisa que me falta. E não é só Goa, é também a Índia não portuguesa. Não sei explicar mas sei que vou lá assim que puder, embora ande intrigada com tanto impedimento.
Fala-se muito em Goa pelo encanto das suas praias, que são deslumbrantes, certamente. Mas o fascínio goês, para nós, ultrapassa muito as zonas balneares. Tem sobretudo a ver com uma cultura multissecular que ali deixámos ao longo de quase meio milénio e com marcas visíveis e únicas. Como uma impressão digital, impossível de apagar.