Vergonha


Pedro Correia,

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Por sete milhões de euros, ou de petrodólares, os responsáveis máximos do futebol italiano acederam em deslocar do seu país para a Arábia Saudita o jogo da Supertaça que vai disputar-se entre as equipas da Juventus (onde pontifica Cristiano Ronaldo) e do AC Milan. O desafio decorrerá no próximo dia 16, no estádio Cidade Desportiva Rei Abdullah.

Tudo bem? Não: tudo mal. Assim preparam-se para caucionar a chocante discriminação existente nos estádios sauditas, onde as mulheres só em 2018 foram autorizadas a assistir pela primeira vez a jogos de futebol, mas sem se misturarem com homens, permanecendo confinadas aos lugares mais recuados das bancadas. Assim acontecerá novamente nesta Supertaça. Tapadinhas, caladinhas – e lá para trás.

«O desporto precisa de plateias globais para crescer», alega o dono da bola italiana. Está profundamente equivocado: destas plateias não precisa mesmo. Até porque são a antítese do espírito desportivo. Como fervoroso adepto de futebol, sinto vergonha destes dirigentes desportivos europeus que se põem de cócoras e chegam mesmo a rastejar mal atravessam o Mar Vermelho, convivendo alegremente com as mais inaceitáveis segregações em terras de Maomé.

0 comentários em “Vergonha”

  1. Nem mais. E em tempos de activismo seria interessante que o público feminino boicotasse os produtos publicitados pelos ícones que se prestam a isso (e os suportes que utilizam, tipo páginas pessoais)

    1. Concordo com tal boicote, até porque desde miúda que faço este tipo de boicotes políticos. Apenas não percebo o apelo ou incidência no público feminino, já que a matéria é, nas minhas perspectivas, de direitos humanos.

    2. Os ícones – jogadores de futebol – são trabalhadores dos seus clubes e têm a obrigação de jogar onde o clube requer. Não têm autorização para boicotar o clube, recusando-se a jogar. Seria totalmente injusto boicotar os ícones, que nenhuma culpa têm de onde os seus patrões decidem pô-los a jogar.

  2. Se o Pedro Correia fôr assistir a um serviço religioso na sinagoga de Lisboa, verá que também aí as mulheres assistem sentadas numa tribuna superior, invisíveis aos homens (que não se devem distrair a olhar-lhes para as formas em tão importantes ocasiões) e longe do centro da ação.
    Portanto, ao fim e ao cabo, são discriminações que já ocorrem, em certas ocasiões, nos nossos territórios.

      1. Tem, Pedro – a encimar a Coroa Real, símbolo da Monarquia Católica.

        Mas a Coroa foi alterada para não ofender islâmicos extremosos do seu extremismo, pois a procura de artigos do Real era elevada e os poços de petróleo jorram ainda.

      2. Sim, Pedro, é verdade. Repare na parte de cima da coroa. Eu já sabia deste (algo grave) incidente, ocorrido não há muito tempo, em que, aquando de uma iniciativa, ou parceria, já não me lembrava com que entidade e em que país muçulmano, os (ir)responsáveis do RM submeteram-se e aceitaram que o símbolo do clube fosse mutilado.

        Quanto ao tema deste seu texto, concordo que é grave o que se passa na Arábia, mas é pior o que acontece no Irão, em que as mulheres continuam a não poder entrar.

          1. Aqui há anos ia acontecendo uma coisa ainda mais disparatada com o Inter de Milão, cujo equipamento alternativo tinha uma cruz de S. Jorge (que figura na bandeira de Milão e até no símbolo dos rivais do AC Milan). Um adepto turco queixou-se que o clube italiano tinha usado um símbolo cristão em jogo contra um clube de Istambul e em território turco e queria que o Inter fosse expulso das competições europeias.
            Já agora, será que o AC Milan vai poder usar o seu símbolo normal no uniforme, ostentando a cruz em terras de Maomé?

          2. Entretanto a conversa já girou tanto que parece haver por aqui uma quantidade de gente disposta a absolver o inadmissível comportamento dos responsáveis pelo futebol italiano, que verão os seus próprios adeptos segregados nas bancadas do estádio saudita.

            O que o Real Madrid faz com o seu emblema, que aliás já mudou várias vezes (como já lembrei, o clube madrileno decidiu eliminar a coroa durante anos e alterou a sua própria designação, deixando cair o Real), é questão diferente. E muito mais irrelevante,

          3. Não propriamente, Pedro: a alteração de símbolos é pactuar com exigências extremistas em nome do dinheiro; a deslocação de jogos para países onde impera a segregação é pactuar com hábitos ancestrais (até para nós) em nome do dinheiro. A grande diferença, apontada por alguns comentadores neste postal e noutros, é que a deslocação dos jogos contribui para levar mais mundo aos países fechados.

            Esta é uma excelente discussão: boicotar eventos em tais países penalizará o regime ou acabará por o beneficiar, dado impedir o contacto dos cidadãos com o mundo exterior?

          4. A questão do Real Madrid é pior. É eliminar partes do próprio símbolo por causa do que o Muçulmanos não toleram.

    1. O interior de um templo é gerido pelos responsáveis dessa religião. Os devotos aceitam as regras ou mudam de templo – ou de religião.
      Confundir um templo com um estádio é próprio da megalomania benfiquista, sempre pronta a ver “catedrais” onde só existem estruturas pré-fabricadas.

      1. Um estádio é a mesma coisa – as pessoas aceitam as regras ou então não vão lá.
        Se as mulheres sauditas não gostam de ficar num setor especial para famílias, podem perfeitamente recusar-se a ir ao estádio.
        Ser adepto de um clube é como ser de uma religião – se não gostas das regras, podes afastar-te.
        (Aliás, há muitos judeus que se afastam da religião, ou pelo menos de uma variante dela, precisamente porque os aborrece a forma como as mulheres são tratadas pelos mais ortodoxos.)

          1. Concordo, Pedro! “papoilas saltitantes” são “sombras” que pouco têm de desportivismo e muito mas muito de clubismo – daquele de clube privado com objectivos inconfessados.

            Apenas o relembrei (como se o tivesse esquecido!) que, nisto de “religiões”, todas elas têm fiéis que usam o apedrejamento figurado (algumas usam mesmo o literal!) quando os lugares de culto têm telhados de vidro 😉

  3. A esposa do treinador Jorge Jesus é a que está apontar com dedo:

    — Olha lá está o meu Jesus….
    — Raiva nos diabos negros…
    …
    Prometeram 12 milhões de dólares se o Jorge Jesus trocar o nome Jesus por Jorgi Ahemed Salin…Será que aceitará ou vem para a Catedral? !

    Amendes

    1. O lugar de Jesus é na catedral. Onde reina a mística da chama imensa.

      Se permanecesse entre os sauditas, recebia mais uns milhões só para trocar de nome. Passava a chamar-se Maomé, Jorge Maomé.

  4. Caro Pedro,

    Penso que o tiro neste caso lhe saiu ao lado. A vinda de este tipo de espectaculos aqui à Arabia Saudita faz muito mais bem que mal. Uma coisa é o regime e outra são as pessoas – que são quem muda ou faz mudar os regimes- e as pessoas só mudam se expostas a realidades diferentes.

    Por norma na Arabia Saudita espaços como restaurantes, cinemas ou espectaculos tem zonas ou horas reservadas a familias – onde se incluem as mulheres sozinhas ou homens acompanhando familias – e outras reservadas a homens sozinhos. Podemos gritar discriminação mas a consequencia de não haver essa divisão é de que as mulheres sauditas ficarão em casa. Porque a questão é cultural e as pessoas não mudam por decreto. Vão mudando.

    P.S: Pode ser que tal como os italianos seja parcial. Afinal, tal como eles, estou a benificiar dos petrodolares.

    1. Daniel, é natural que o seu ponto de vista seja diferente, pois vive aí. Faz sentido.
      Eu escrevo sob a perspectiva de quem vive em Portugal e recusa aceitar que os direitos fundamentais que exigimos para nós sejam relativizados noutros quadrantes, com a nossa conivência ou beneplácito.
      Espero sinceramente que tenha razão ao anotar que espectáculos como este ajudam a abrir mentalidades na Arábia Saudita. Oxalá assim seja, embora as dúvidas nesta matéria sejam legítimas.

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