
Acho inconcebível que esteja a passar despercebida aquela que considero, depois de Yes, Minister mas agora num registo sério, a melhor série de televisão alguma vez feita sobre política: Borgen, de segunda a sexta-feira na RTP2. Borgen, que significa castelo em dinamarquês, corresponde à designação comum do palácio de Christiansborg, sede do parlamento e do governo dinamarquês e lugar de trabalho do Primeiro-Ministro. A série relata a ascensão ao cargo de Primeira-Ministra da Dinamarca de uma jovem mulher, Birgitte Nyborg, que consegue montar uma coligação num parlamento dividido, oferecendo o apoio do seu partido na condição de ser designada Primeira-Ministra.
Neste âmbito, a série dá-nos um retrato extremamente realista dos meandros de um governo de coligação e das rivalidades entre os ministros, abordando mesmo os problemas pessoais e familiares que ocorrem a uma mulher que ascende a um cargo tão importante. E nem sequer falta a relação com a imprensa, mostrando como hoje a política passa muito mais pela influência sobre os media do que pelos debates parlamentares. Quase nunca vemos uma sessão parlamentar, mas passamos todo o tempo a ver o spin doctor Kasper Juul a manobrar os jornalistas como peças de xadrez.
O que achei curioso na série é a semelhança com a política portuguesa, mesmo sendo os países tão diferentes. Mas a série demonstra igualmente a humanidade e a fragilidade dos políticos que não há spin doctor que consiga esconder. Um dos episódios é sobre a nomeação do comissário dinamarquês, obrigando a Primeira-Ministra a conciliar a esse propósito simultaneamente conflitos no governo e no partido com as pressões do presidente da comissão, que condiciona a atribuição de uma pasta importante à nomeação de alguém com peso político efectivo. Mas quando a Primeira-Ministra consegue um nome que a todos satisfaz, o nomeado sofre um AVC quando lhe dizem que iria ser sujeito a um interrogatório de seis horas no parlamento europeu. Não há desígnio político que consiga superar a fragilidade humana dos protagonistas.
Esta série é um verdadeiro serviço público que a RTP2 nos proporciona.

Gostei e concordo com a análise. Só um pequeno comentário de alguém que está a viver na Dinamarca há já alguns anos. Borgen pode querer dizer castelo, mas é também a alcunha do parlamento dinamarquês
Oversættelser | the Castle | – The Castle is the nickname for the Danish Parliament (Borgen er øgenavn for Folketinget)
É excelente. Dei com ela por acaso. Não dei por qualquer referência à série!
E serviço público é dá-la a conhecer, como fizeste, porque passando na RTP2 há muita gente que nem deu por ela…
Eu, por exemplo, conheci-a lendo a blogosfera!
Pois eu sou espectadora assídua desde o 1º episódio e já me tornei militante. Vejo com interesse pois é assistir à política por dentro, no que tem de jogo de negociação permanente e de exercício de prestação de contas aos eleitores. E, quase tão importante, a dependência de uma eficaz comunicação.
Mas é também assistir a uma dura realidade: o que afecta a vida pessoal de quem vive a política a tempo inteiro. No caso das mulheres parece ser ainda mais duro especialmente quando têm filhos menores.
Muitas vezes me interrogo como conseguem algumas mulheres políticas estar disponíveis quase 24 horas por dia e manter um relacionamento estável. Claro que vale também para os homens mas as mulheres costumam ser mais tolerantes do que os homens. Digo eu.
Já falei várias vezes do Borgen lá no meu ‘Um Jeito Manso’, mas claro, falado aqui no Delito é outra coisa – e ainda bem que o fez porque é das melhores séries de televisão.
Nem chega aos calcanhares de The Thick of It, essa sim genial em como usa a comédia negra para demonstar a deriva da política moderna.
” E nem sequer falta a relação com a imprensa, mostrando como hoje a política passa muito mais pela influência sobre os media do que pelos debates parlamentares.”
Se coloca os jornalistas num lado e os políticos do outro fica-se logo a perceber que não é uma série fiel à realidade.
Justificar a existência de um i̶n̶ó̶s̶p̶i̶t̶o̶ ̶s̶o̶r̶v̶e̶d̶o̶u̶r̶o̶ ̶d̶e̶ ̶d̶i̶n̶h̶e̶i̶r̶o̶ canal estatal por causa de uma série que pode ser comprada por 10 euros em DVD… É por causa dessas tiradas e de outras que passam como verdade que isto é o que é e estamos como estamos. Nenhum país de gente com brio precisa de um serviço público de televisão. Se quiserem faço uma lista das merdas que estão profundamente erradas nesta gaita desta terra.
E se em vez de uma lista comprasse um bilhete de avião?
Então essa tolerância?
Já faltou mais, acredita. Em breve ficarás cá tu a pagar a conta do Eusébio.
Adoro. Presentemente, a minha série preferida. Extremamente bem feita e colada à realidade. Porém, está começando uma outra que, suspeito, também será empolgante. Chama-se SYRISA …
Ando a seguir esta série e concordo contigo: é uma das melhores do género já produzida em televisão. Em Portugal nem daqui a dez anos haverá uma série semelhante. E era nisso sobretudo que o chamado “serviço público” devia apostar.