Venezuela trágica


Pedro Correia,

 

Esta imagem está a correr mundo. A imagem de uma tragédia pessoal que simboliza a tragédia de um povo. E de um regime, o de Caracas, que apesar de ser o nono exportador mundial de petróleo continua a condenar os venezuelanos à pobreza endémica e aos maiores índices de criminalidade urbana do globo pela incompetente oligarquia “socialista” que pretende perpetuar o chavismo sem Hugo Chávez enquanto bens essenciais — incluindo pão, leite, arroz, açúcar e até papel higiénico — desaparecem durante semanas das prateleiras e a inflação galopa para níveis alucinantes.

Génesis Carmona tinha apenas 22 anos, frequentava o curso universitário de Gestão e em 2013 fora eleita Miss Turismo do estado de Carabobo, na Venezuela. Manifestava-se numa avenida da cidade de Valencia, junto à mãe e aos irmãos, contra o executivo de Nicolás Maduro quando foi alvejada com um tiro na cabeça. Outros oito manifestantes ficaram feridos, também a tiro.

Um amigo conduziu-a rapidamente numa motorizada a uma clínica da cidade, situada a 170 quilómetros da capital venezuelana. Mas nada havia a fazer: a jovem morreu horas mais tarde, sem recuperar a consciência. “Quantas tragédias como esta teremos de sofrer até que as coisas mudem?”, diz um tio da estudante, citado pelo diário El Universal. Enquanto o escritor venezuelano Antonio López Ortega, em artigo hoje publicado no El País, condena sem reservas a “repressão da juventude venezuelana” levada à prática pelos herdeiros de Chávez.

Génesis foi assassinada por exercer um direito cívico. Assassinada por ter dito não a um regime que muitos dos seus compatriotas consideram iníquo. Assassinada por ter ousado reclamar contra o Governo num país onde a liberdade começa a ser um bem tão escasso como o pão.

 

Leitura complementar:

Estado de São Paulo – Morte de Miss em protesto contra Governo acentua divisão na Venezuela

Guardian – Venezuela sends troops to border region as violence escalates

El País – Aumenta la persecución política en Venezuela tras las protestas

12 comentários em “Venezuela trágica”

  1. É uma tragédia, mas tanto quanto eu sei, o regime que ela combatia foi escolhido pela maioria dos seus compatriotas. Mal ou bem, mas isso são as malhas que a democracia tece.
    Quando ao resto… quem deu o primeiro tiro, e porquê, etc… desde há algum tempo que me habituei a questionar tudo o que se diz sobre a Venezuela, contra ou a favor da situação.

    1. Meu caro, seis pessoas assassinadas e dezenas feridas, várias das quais com gravidade, não são “malhas que a democracia tece”. É, pelo contrário, a negação da democracia. Que implica o direito à manifestação, o direito à crítica, o direito ao protesto. E até à indignação, como entre nós teorizou Mário Soares. Sem assassínios. Sem balas na cabeça, como aquela que matou Génesis Carmona em Valencia.
      Não é difícil verificar a origem dos tiros quando há mortos e feridos num desfile de protesto contra o Governo. Na Venezuela ou noutro ponto do globo qualquer.
      Recomendo, a propósito, a leitura deste impressionante artigo de opinião do escritor venezuelano Antonio López Ortega, publicado na edição de hoje do ‘El País’:
      http://elpais.com/elpais/2014/02/20/opinion/1392913499_717574.html

      1. A oposição está longe de ser impoluta e virginal. Neste caso, não tomo partidos, apenas tomo nota de que, como sempre, a democracia só parece ser um valor absoluto quando dá os resultados que nos agradam. Ou seja, é tudo muito relativo.

        1. Eu tomo partido. Como tomei nas manifestações populares na Tunísia, no Egipto e na Líbia. Como tomei nas manifestações populares na Turquia. Não chamo “indignados” a quem protesta nuns países e “fascistas” a quem protesta noutros, consoante conveniências ideológicas ou de trincheira.
          É um dever cívico erguermos vozes de protesto perante o confronto totalmente desproporcionado entre manifestantes e forças policiais, paramilitares e até mesmo militares (há milhares de soldados mobilizados na Venezuela para reprimir desfiles e manifestações). E este dever de protesto cívico reforça-se quando há manifestantes assassinados pelas chamadas “forças da ordem”, como já sucedeu na Venezuela.
          Não conheço países civilizados que reprimam manifestações assassinando quem se manifesta. Basta isso para não devermos considerá-los civilizados.

    2. “Socialismo” entre aspas porquê? os políticas de Chavez-Maduro vêm do manual do socialista primário: populismo, nacionalizações, intimidação contra os recalcitrantes, inflação, escassez de bens de primeira necessidade, violência, mercado negro.

      As sucessivas respostas que os comentadores da área esquerda deram aqui de apoio ao regime neofascista do Chavez-Maduro demonstram igualmente.

      Quanto a esses:
      Só no gozo se pode falar de eleições na Venezuela: intimidação, violência, ocupações, nacionalizações demonstram bem a impossíbilidade de decidir em Liberdade na Venezuela.
      Nem as eleições dão poder para fazer tudo. Mas não é surpreendente para quem tenha uma visão totalitária.

      Ainda me lembro do Défice Democrático na Madeira vindo de bandas socialistas.
      Comparem.

  2. Give me a break!!!

    A jovem que ali vai em cima da motocicleta, com a cabeça direita e o braço tenso em volta do condutor, está em perfeita consciência e não levou tiro nenhum na cabeça! Uma pessoa inconsciente não está assim!!!

  3. Este Lavoura julga-se espertinho:

    Se tivesse lido a(s)noticia(s) teria lido que a vitima foi transportada AINDA viva ao hospital, onde veio a falecer!

    1. Não somente viva mas também consciente e com suficiente força para manter a cabeça bem direita e para se agarrar ao condutor com o braço, pelos vistos.
      E, aparentemente, apesar de ter levado com um tiro na cabeça, sem sangrar…

  4. para quem gosta de estar bem informado vale bem a pena ler o que dizem os opositores do Vidente de passarinhos e advinhar o que aconteceria em Portugal, Espanha…se as oposiçoes usassem aquela linguagem que mais parece saioa dum manual de «sucesso a criar odios».
    Claro que os “amigos” de americanos/ingleses têm o pensamento na linda democracia que se faria com tanto petroleo, como gente inteligente e com a ajuda do escutador de passarinhos vão sem dúvida ter sucesso;
    eleito pelo povo? mas ainda há ingenuos a ler este blog. Se estiverem interessados pago um almoço só para ter o previlegio de ver uma especie rarissima, diria quase instinta.

    1. Maduro diz que Chávez já lhe apareceu em forma de passarinho confidenciando-lhe em maviosos piupiupiupiupiupius o seu desejo de que a Venezuela se mantenha um país súcia-lista.

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