Vazios


Sérgio de Almeida Correia,

image.jpg

Quando era miúdo não apreciava por aí além, até as coisas mudarem depois de adulto. De Verão nunca foi uma tentação, mas a partir do Outono e, em especial, durante os dias de inverneira azul dava por mim, muitas vezes, a pensar quando chegaria o Domingo para irmos comer um cozido à portuguesa. Sem frango nem batatas, que para mim sempre estavam a mais.

Hoje quis cumprir esse ritual e fui à procura do cozido. Não há?, foi ontem. Ontem? Mas ontem foi sábado. E ninguém avisa? Pois, agora é assim.

Vai ser menos uma preocupação. Até que possa voltar à Paisagem e ao senhor Paulo, ou ao Camponês, acabou-se o cozido ao Domingo. Passa a ser um dia como todos os outros.

Sem cozido, é certo, mas também sem o espectáculo da mesa da frente, onde um cachorro vestido de rapaz, com o impermeável azul que devia ter ficado à porta, lambia sofregamente o prato do doce. No final a mãe limpou-lhe a boca. 

Os tempos mudam. E não avisam.

0 comentários em “Vazios”

  1. Confesso-me na dúvida se rapazito irrequieto qual cachorro ou cachorro mimado por demente mãe humana.
    Enfim, rapaz ou cachorro a lamber pratos não é chouriço que apreciasse no cozido, mesmo que apenas saboreado de memória. Lastimo-o pela dupla perda, a do cozido e a da inocência desse Domingo, mas não lastimo assim tanto – afinal, da fome saiu-lhe este texto.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *