no que escrevi me traduzi
e traduzi outros também
e traduzindo me escrevi
e a escrever-me fui eu quem
das várias coisas que senti
fez sofrimento de ninguém.
depois risquei, depois reli
e publiquei: assim porém
havia sempre mais alguém
para o chamar então a si,
também vivendo o que menti
mas como seu, mas como sem
ter sido meu o que escrevi
fosse por mal, fosse por bem.
é sua a vez. e que mal tem?
no que escrevi sobrevivi.
(Moura, Vasco Graça, Testamento, Lisboa: ASA, 2001)

Um bom poeta, Vasco Graça Moura. E é verdade que sobrevive no que escreveu, em tradução ou nome pessoal. E, mais importante, essa sobrevivência alimenta o espírito e as ideias de muita gente. A única trajectória de interesse na sobrevivência das ideias: que sirvam a outrém. O resto é vaidade e alheamento de si que não se aguenta ao futuro.