Vamos brincar à demagogiazinha


Pedro Correia,

Não sei se havia pobres na convenção do Bloco de Esquerda que hoje elegeu uma liderança bicéfala (ou paritária, em politiquês correcto). Mas, segundo os relatos da imprensa, não faltaram vaias à presidente do Banco Alimentar contra a Fome, um dos organismos que mais tem socorrido os pobres em Portugal – não com palavras mas com actos concretos, generosos, solidários. Os verdadeiros pobres, os de carne e osso – não os pobres dos discursos destinados a aliviar boas consciências e a desempoeirar a ideologia – sabem a que porta hão-de bater quando precisam. E o Banco Alimentar contra a Fome é uma delas.

“Sei que nos chamam radicais por querermos correr com a ‘troika’ desde o dia zero. E agora quando vemos uma senhora do movimento nacional feminino [Isabel Jonet] a brincar à caridadezinha o que lhe vão chamar?”, disse Francisco Louçã na sua última intervenção como líder do Bloco, numa das tiradas mais demagógicas que alguma vez lhe ouvi e em nada condizente com o seu recente discurso de renúncia como deputado à Assembleia da República.

É demasiado fácil, para um político tão bem-falante como Louçã, fazer demagogia com alguém que não se distingue pelo dom da palavra mas pela dádiva do seu exemplo. Seis minutos de declarações inábeis, num debate em directo na televisão, não podem apagar 20 anos de serviço à causa pública. “Aproveitar onde sobra para distribuir onde falta” num país onde um quinto da população vive abaixo do rendimento mínimo é o lema do Banco Alimentar, distinguido em 2005 – por unanimidade – com o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República.

Nessa altura, não consta que Louçã e os seus pares tivessem assobiado Isabel Jonet.

41 comentários em “Vamos brincar à demagogiazinha”

  1. Obrigada por este post e já agora aproveito para assinar por baixo.
    É que hoje enquanto ouvia Francisco Louçã, senti aquele desconforto (exactamente nessa parte) de que está algo ali a mais naquele discurso de demagogia feita à maneira. Ficou-lhe tão mal. Mas eu também sou suspeita, dizem ser carismático e eu por muito que me esforce não encontro carisma em parte alguma. Provavelmente sou só eu que naquele momento me senti algo indignada, pelo aproveitamento do momento, por aquele atirar mais uma pedra a alguém que já está afogada nelas. Não havia qualquer necessidade. Portanto o que o senhor Louçã me transmitiu foi aquela história de, quando estamos na lama, existe sempre um qualquer sapatinho que nos faz o favor de nos empurrar mais um pouco para a…lama. Bravo senhor Louçã. Olhe! tenha um bom Natal.

    1. Eu não me admirei nada, para mim o Louçã é uma pessoa desonesta, intencionalmente desonesta e isso diz tudo. E os seus apoiantes são acéfalos, na sua esmagadora maioria. E a comunicação social, com destaque para a TV, não ajuda nada- Pelo contrário.

  2. Só para dar a conhecer este post

    http://bancocorrido.blogspot.pt/2012/11/o-core-business-do-banco-alimentar-e.html

    dum ex-ministro da solidariedade social do PS cuja posição também irmana da do espírito da extrema esquerda insultuosa mas que se pretende mais “politicamente correcta”, embora atacando também de uma forma torpe…

    1. O ex-dirigente socialista vem contestar a atribuição do Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República ao Banco Alimentar Contra a Fome sete anos depois de este facto ter ocorrido.
      Na altura, tanto quanto me recordo, não lhe ouvi o mais ténue sussurro de protesto…
      Isto diz tudo, não só sobre o sentido de oportunidade deste ex-governante mas sobre a prioridade das causas que lhe servem de bandeira.

  3. Isabel Jonet foi desastrada, pretendeu encher o programa com palavras e foi no que deu. Ainda que numa ou noutra coisa tivesse acertado. Quando afirma que uma pessoa com 46 anos não voltará a ter hipótese, e posteriormente vem argumentar que a crise do estado social também se deve ao facto de as pessoas estarem mais tempo reformadas e, consequentemente, viverem mais, só revela um discurso despropositado e sem sentido. Há pessoas que devem fazer o que sabem. Isabel Jonet certamente que tem muitas competências a redistribuir o que todos damos ao BA, mas ponto final.

    Aqui:
    http://poweruser.aeiou.pt/blog/em-portugal-nao-temos-miseria-declaracoes-de-isabel-jonet-causam-polemica-no-facebook/

    Todavia, Isabel Jonet vem com uma declaração:

    http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=25&did=84718

    Por último, também tenho lido imensos comentários sobre a educação que recebemos de nossos, tendo esta sido algo maravilhoso e, hoje, intocável. Mas se a educação recebida de nossos pais foi assim tão boa, a pergunta que faço é a seguinte: Qual o motivo de sermos como somos e de nossos filhos serem como são? Há algo aqui que não bate muito certo.

  4. Pois meu caro na minha opinião o que Francisco Louça disse
    não penso que seja tão demagógico assim mas, o que a srª Isabel já penso que o seja. Até porque já não é a 1ª vez que a srª faz afirmações não condizentes com a sua função. Não sou fundamentalista, penso que a srª tem feito um trabalho meritório, que possivelmente se empolou demais o que ela disse, mas de vez em quando à D. Isabel foge-lhe a boca para a verdade e isso quanto a mim é grave. Vamos ver como é que os contribuintes do Banco se comportam no próximo peditório. É que o grosso das pessoas que contribuem vem da tal gente que a D.Isabel referenciou.

    1. Meu caro, admito que as declarações não foram felizes. Mas julgo que se tratou sobretudo de um problema de expressão. Quase nada do que ela disse, de resto, merece o clamor de indignação que por aí se gerou. Poupar água? Nada mais correcto. Não podemos nem devemos comer bife todos os dias? Claro que não. Vivemos, como sociedade, gastando muito acima do que produzíamos? É inquestionável. A declaração mais polémica é a da comparação com a Grécia, quando ela diz que lá há miséria e aqui ainda não. Julgo que pretendia dizer, genericamente, que os gregos vivem pior que nós.
      Fosse como fosse, nada justificou aquilo que se seguiu. Chamaram-lhe tudo – de meretriz a assassina. Anda tudo à beira da histeria…

      Aposto consigo que o peditório do BACF será, uma vez mais, um sucesso. Porque os portugueses são um povo generoso. E muitas vezes quem mais dá é quem menos tem. Dizer isto é uma constatação de facto, não uma apologia da pobreza – convém deixar isto claro, não vá alguém lançar também alguma petição contra mim.

  5. É engraçado que aquelas petições indigentes andavam para aí a acusar Jonet de “usar a caridade para fazer política”; o que é isto senão Louçã a usar uma polémica tonta para fazer política, e da mais rasteira?

    1. Já tínhamos o jornalismo a decalcar as polémicas histéricas (e estéreis) das redes sociais, e perdendo milhares de leitores todos os dias também por via disso. Começamos agora também a ter políticos que alinham os discursos pelos mais recentes clamores gritados em feicebuques. Não me parece o caminho certo, longe disso.

  6. O Anacleto, agora que tem tempo de sobra, bem se podia dedicar ao voluntariado no Banco Alimentar, sempre fazia mais pelos desamparados que alguma vez fez durante décadas.

  7. Já agora (não tendo eu a menor paciência para espectador com c dessas convenções e ignorando se João Semedo aplaudiu essas idiotices, mas isso agora não releva por aí além) parecia-me bem que fosse perguntado a João Semedo, para uma resposta directa com c e sem rodeios “Também é de opinião que o BACF é um novo MNF e brinca à caridadezinha?”

  8. O Gulag não existiu. A dívida não se paga. Os outros não prestam. No Outono não faz frio. O Banco Alimentar não faz nada. O Fidel não é um ditador. Os estivadores não sabotam a economia. Os americanos não são democratas. Os gatos não defecam. Os empresários não trabalham. O radicalismo ideológico não existe. Os impostos não vão aumentar. A demagogia não é connosco. O Ronaldo não marca golos. A “troika” não faz falta. O caviar não é um luxo. As empresas privadas não deveriam existir. No PREC não houve violência. O furacão Sandy não destruiu nada. Em Portugal não há miséria. Os blocos não brincam. A esquerda não é jacobina.

    1. Tenha cuidado, por que há gente que julga que está a falar a sério. Olhe que há malta que não vê dois palmos à frente do nariz…

  9. Louçã foi demagógico, sim. Tanto quanto Isabel J., que tem proferido um discurso de apoio, velado ou declarado, às medidas de austeridade (lembremos a sua posição sobre a TSU, a qual não se lhe afigurou errada mas, até, natural). Tem direito à sua opinião, claro. Mas, nas suas funções:
    1 . fica-lhe mal a superficialidade com que analisa as mudanças económicas do país;
    2 – Ofende, moralmente, quem doa para o BACF, através das suas leis morais sobre “viver acima das possibilidades” (isto sim, é demagógico – gostava de a ver atirar-se aos gastos dos sucessivos governos, em vez de se estar sempre a atirar às pessoas, como tantas vez o tem feito – esta não foi a primeira – nem a segunda…. )
    3 – As suas ideias sobre a intervenção do Estado Social defendem a exclusão, em vez da integração. Vide declarações de apoio ao decréscimos dos apoios sociais, sempre baseada em discursos morais do género ” as pessoas não querem ir trabalhar – preferem subsídios, blá, blá…. – DEmagógico o Louçá?! Sim. E esta Srª?!)
    4 – A sua obra é grande. Mas, dadas as suas posições, não tenho dúvidas de que O BACF é uma catapulta.
    E sim, vou continuar a contribuir para o BACF. Mesmo lamentando e desconfiando das intenções actuais de quem a dirige.

    1. Está no seu pleno direito de criticar a presidente do BACF, Lina. Mas as críticas de Louçã ultrapassaram o âmbito dessa polémica em torno dos seis minutos na SIC Notícias pois o líder cessante do Bloco de Esquerda comparou – de forma totalmente inaceitável – o BACF ao Movimento Nacional Feminino.
      Palavras que surgem na linha das declarações da historiadora Raquel Varela – impulsionadora de uma petição contra Isabel Jonet – que se gaba de
      nunca ter dado “um grão de arroz ao Banco Alimentar contra a Fome”.
      Eu não sou muito de petições, mas se há palavras que mereciam uma petição de repúdio são precisamente estas.

  10. Só neste país que pensa pouco e recorda ainda menos , sujeitos como Louçã são apodados de carismáticos e grandes políticos…

  11. as vaias foram dirigidas a isabel jonet, e nunca contra o banco alimentar contra a fome.
    porque razão deveria o be contestar a distinção que foi atribuída ao banco em 2005, pela AR?
    afinal, isabel jonet é o banco alimentar contra a fome?
    que confusão vai na cabeça do autor do post…

    1. A vaia foi ao BACF, apelidado de ‘movimento nacional feminino’, o que é uma injúria, totalmente inaceitável, na medida em que o MNF foi um organismo criado e apadrinhado pela ditadura. Parece-me que a citação que transcrevo é suficientemente clara, sem necessidade de fazer um desenho para explicar melhor.
      Isabel Jonet já era presidente do Banco Alimentar Contra a Fome quando em 2005 este organismo recebeu o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República, por unanimidade. Não consta que alguém do Bloco, Louçã ou outro qualquer, tivessem então chamado ‘movimento nacional feminino’ ao BACF.

      1. ok, já percebi o título do post: afinal era o PC que ia brincar à demagogiazinha. a príncípio pensei que estava a referir-se ao louçã.

        o que escreve no seu post é bem explícito sobre o alcance do “ataque” do louçã à isabel jonet:

        “não faltaram vaias à presidente do Banco Alimentar contra a Fome” …
        “E agora quando vemos uma senhora do movimento nacional feminino [Isabel Jonet] a brincar à caridadezinha o que lhe vão chamar?”.

        como muito bem sabe, a isabel jonet foi assim catalogada, pelo louçã, pelas declarações “inábeis” que prestou, e não por pertencer ao BACF.

        o PC quer confundir isabel jonet com o BACF? faça-o, mas não tente arrastar os outros.

        porque,afinal, quem é mesmo isabel jonet? o que sabemos dela e do que pensa? Para o PC parece que o que pensa, ou pelo menos “comunica”, não passa de “declarações inábeis”, que por acaso até já a levaram a “explicá-las” na imprensa, em seu nome e não do BACF.
        para o PC a isabel jonet será uma daquelas pessoas cuja obra fala por elas, e tudo estará dito. calemo-nos quanto ao resto.

        pensemos assim e depois admiremo-nos com os casos “isaltino de morais” e “fernando nobre”,
        bem diferentes entre si e apenas citados a título de exemplo de “surpresas” que vamos tendo sobre quem tanta obra fez e faz.

        1. Lamento, mas falta-me a paciência para polémicas ao jeito das ‘redes sociais’, cheias de emoções rapidinhas, muito à flor da pele, que tão depressa surgem como desaparecem até vir a polémica seguida, tão efémera como a polémica anterior.
          Vou repetir mais de-va-ga-ri-nho, como se fosse o ministro das Finanças, pois é patente que o meu caro amigo não percebeu o que escrevi.

          Quando o Bloco de Esquerda foi criado, já o Banco Alimentar Contra a Fome existia há sete anos. O seu mérito é da tal forma inquestionável na sociedade portuguesa que levou a Assembleia da República, por unanimidade (repito, devagarinho: por u-na-ni-mi-da-de), a conceder-lhe o Prémio Direitos Humanos, em 2005.
          Já então, Isabel Jonet presidia a uma notável equipa de dez mil voluntários (sempre com tendência para crescer) que nos primeiros dez anos de existência desta instituição socorreu 200 mil pessoas (nem todas portuguesas) em estado de absoluta necessidade. Quando o estado não chega, eles conseguem chegar. Enquanto os “amanhãs que cantam” previstos nos cardápios deterministas não acontecem, eles estão presentes para satisfazer algumas das necessidades mais básicas dos dias de hoje. São, quase todos, heróis anónimos da nossa sociedade. Agem contra o comodismo, contra o egoísmo, contra a indiferença.

          É demasiado fácil lançar lama sobre as pessoas. É demasiado fácil, na era das “redes sociais”, promover linchamentos públicos. Mas é mais difícil concretizar esses linchamentos – promovidos até por quem se gaba de nunca ter contribuído sequer com “um grão de arroz” para o BACF – quando se trata de uma instituição de inegável mérito público, como é o caso.
          Ao qualificar o Banco Alimentar Contra a Fome de ‘movimento nacional feminino’, Louçã baixou muito a habitual fasquia das suas intervenções públicas, o que lamento.

          Acusa-me você de “querer confundir Isabel Jonet com o BACF”, como se (por exemplo) injuriar Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, não constituísse também uma injúria à central sindical, ou vice-versa.
          Já você, imagine-se, parece confundir Isabel Jonet com Isaltino Morais. A propósito de quê, não faço ideia. Parafraseando a elegante expressão com que me brindou no primeiro comentário, lá mais acima, que confusão vai nessa cabeça…

          1. Tudo bem, sem problema. Eu não tenho a pretensão de convencer ninguém e sempre convivi bem com quem pensa de maneira diferente da minha.

    2. Este Cunha, que também nunca deve ter dado um grão de arroz para o Banco Alimentar, já almoçou por conta do autor do post.

  12. Todas as supostas vítimas são instrumentos para a esquerda estruturar o seu poder.

    Por isso é que a esquerda odeia a “caridadezinha” como ela o chama porque não é uma estrutura estatal e onde a política intervenha.
    Não é algo sistematizado que dê votos permanentes.

    A criação de clientelas e o seu condicionamento e permanencia é o que interessa à esquerda.
    Não, as críticas não foram contra Isabel Jonet. Isabel Jonet foi só um pretexto.

  13. Louçã tem garantido um lugar de relevo no quadro de honra dos cromos supérfluos da “nossa democracia”.

  14. Gostava realmente de saber se João Semedo, que tenho na conta de homem sensato e pouco dado a demagogias baratas, subscreve estas afirmações lamentáveis de Louçã. Curiosidade minha, sobretudo em tentar perceber que rumo seguirá o BE com estas mudanças anunciadas.

    1. Conheço bem João Semedo e reconheço-lhe muitas qualidades. Sinceramente, Ana, não o imagino a proferir tiradas altissonantes e tão profundamente desajustadas como esta, destinada a colher aplausos demasiado fáceis e sem dúvida injustos.

  15. As declarações de Isabel Jonet não foram “um mau passo”. Pelo contrário, são consistentes com as alarvidades que a banqueira alimentar não perde oportunidade de tonitroar, com os modos de quem se dirige à criadagem, sempre que tem tempo de antena. Quem não se lembra das vezes em que a senhora apareceu, pressurosa, ao lado de Ricardo Salgado, para caucionar a cristianíssima visão do mundo que os próceres do BES propõem? Quem não se lembra de páginas inteiras do Expresso, verdinhas de publicidade do banco das “lavagens”(não, não é comida para animais),em que a dra. Jonet perorava sobre as virtudes do capitalismo selvagem e da sua válvula de escape de eleição, a mega-esmola? Etc. Na mundividência jonetiana, a condição de privilegiado é uma condição natural, ungida pelo Além, um destino caucionado por decreto divino, tal como, de resto, a inversa condição de pobre. A justiça não passa da máquina judiciária e a esmolinha, uma oportunidade para exaltação da condescendente benevolência dos “bem-aventurados”.A economia e a organização social devem, pois, nesta prometedora visão, ser deixadas ao brutal jogo de forças do mercado, já que o sobrepujamento da complacência dos felizardos tudo rematará na perfeição das decoradoras de interiores. É neste contexto que surge o banco da dra. Jonet, como ela não se cansa de explicar: o Estado, quer dizer, uma solução estrutural para a pobreza concretizada pelas instâncias representativas de toda a sociedade, só estorva, deve afastar-se para dar espaço à roda livre do banco alimentar e dos bailes da Cruz Vermelha.
    Deveria ser óbvio que isto nada tem de cristão. A vocação da Igreja não é a filantropia, aspiração vulgaríssima entre ricos. Pablo Escobar,o famigerado traficante de drogas, também dirigia uma organização sócio-esmoleira, só não consta que lhe chamasse “banco”.A Igreja é depositária da Palavra de Cristo e Cristo veio pregar a pobreza aos pobres, que esperavam outra coisa. Cristo convida-nos, pois, como diz Georges Bernanos, a olharmo-nos na pobreza como num espelho, porque ela é a imagem da nossa decepção fundamental, o lugar do Paraíso Perdido, o vazio dos nossos corações e das nossas mãos. Este vazio que só pode ser preenchido pelo mistério do amor de Deus é, nesse instante, a Cruz, a Caridade. A relação entre quem dá e quem recebe é uma relação de igualdade, mutuamente agradecida através de Deus. A Igreja, guardiã da Palavra, é defensora da honra da pobreza. A vocação da Igreja é a Caridade, que não se confunde com a esmola. A sede e fome de Justiça dos que seguem a Cristo, o Justo, não pode deixar de buscar, como de resto ensina a doutrina social da Igreja, a redenção de toda a sociedade humana. O discurso ideológico que a dra. Jonet não perde ocasião de matraquear, é, no fundo, um discurso irmão dos discursos dos Mitts Romney, Miltons Friedman, Pablos Escobar, ou Ricardos Salgado deste mundo. O discurso político de Isabel Jonet, no qual ela assenta a razão de ser do seu banco alimentar, é um discurso pornográfico e obsceno. Pornográfico, porque é a macacada de uma coisa séria. Obsceno, porque oferece uma“solução” completamente fora de cena para as reais questões que a pobreza suscita. É verdade que perante situações de fome sem solução à vista é necessário acudir urgentemente com comida, e esse trabalho é meritório. Mas defender a desnecessidade de acorrer às raízes da injustiça e propor a normalização da esmola em grande escala como solução social é repugnante. Como católico, considero vergonhoso, revelador da distância a que nos colocámos do Evangelho, que a destrinça entre esmola e Caridade não seja óbvia para os cristãos. Como católico, considero lamentável que o senhor bispo do Porto tenha sobre esta questão apenas a dizer que Isabel Jonet pretendeu somente propor uma reequação da distribuição da riqueza. Precisamente.

    1. Ao fim de 48 linhas de comentário, em que começa por falar de Isabel Jonet e acaba no Bispo do Porto com Pablo Escobar(!) de permeio, acho curioso que não cite uma única frase da presidente do BACF. Isso permitiria situar e enquadrar muito melhor toda esta polémica. Mas enfim, cada um argumenta como muito bem entende. Volte sempre: será bem-vindo aqui.

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