Não é um Woody Allen que nos faça desfiar gostosamente na memória as suas marcas: o Annie Hall, claro, o Manhattan, pois, Ana e as Suas Irmãs, só para citar os mais incensados, evocação a que somos induzidos sempre que nos sentimos tocados, mais uma vez, pelo seu génio. O último que me fascinou realmente foi colheita de 2005, Match Point de seu nome. Desde então, é mais que óbvio, ele faz o que lhe apetece. O ano passado gostei que lhe apetecesse uma comédia feita ao jeito das suas oldies. Consolei-me, estava com saudades. Mas em Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos não se esforça. O argumento é um exercício de preguiça, só que gostar de Woody pode ser um vício. Eu assumo-o. Aos que lhe prescrevem, há anos, a reforma, respondo com uma indiferença obstinada e até com uma insidiosa suspeita de que querer proscrevê-lo tornou-se uma moda.
Agora que está velho, não espanta que tenham chegado aos seus filmes personagens da sua idade. É o caso, no último, mas com uma nuance: o herói é uma mulher, o que automaticamente afasta o seu ego do cerne da intriga. Como em regra acontece aos que já passaram a meia idade, também ele, nos últimos anos, vem dando mostras de que já consegue sair de si próprio e ver a Humanidade em perspectiva.
Mesmo sem um alter ego de serviço escolheu passear-se pela paisagem onde mais gostava de plantar as personagens que faziam dele próprio: a da incompetência natural dos casais para se entenderem, vítimas que são de neuroses, egotismos e outras doenças mortais. Casais que ele desdobrou em duas gerações para cobrir todo o espectro que corresponde à idade adulta e depois igualou nos ridículos e falta de maturidade, só para provar que por mais anos que passem não aprendemos nada.
Mas nesta comédia há um subtexto porventura mais amargo do que é habitual nos seus filmes. Através de Helena (Gemma Jones), a sua heroína improvável, ilude as nossas expectativas e a de todos os outros personagens, com os quais nos podemos identificar sem grande esforço, quanto ao desfecho da história. Ao fazê-lo, remete-nos subtilmente para questões incómodas, como a posição relativa em que nos colocamos na cadeia alimentar e o desprezo que devotamos aos que estão na base da pirâmide. Essa confrontação, que nos deixa com um sorriso contrafeito nos lábios, é a prova de que mesmo em filmes menores, como é o caso, o seu génio encontra formas de se insinuar. Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos supera-se num dos happy endings mais desconcertantes que eu já vi.


Querida Teresa, o teu texto é infinitamente melhor do que o filme… e olha que eu gosto tanto do Woody como tu, e não só do Woody puramente intelectual dos filmes mais emblemáticos que citas. Gosto – e muito – das comédias mais acessíveis, desde as primeiras de nonsense como “O herói do ano 2000” até às mais maduras, como “As faces de Harry”, uma das comédias mais inteligentes e hilariantes que já vi.
Este novo Woody em versão light não me interessa nada, mas também não o quero reformado. A cada novo filme tenho sempre a esperança de que ele volte a fazer filmes que não sejam iguais aos dos outros meninos. Mas ainda não foi desta. Se ao menos ele fizesse o papel que entregou ao Hopkins…
Enfim, vê-se. mas só porque eu lhe perdoo tudo.
Devo confessar: sou uma woody-céptica, desde sempre. Ó heresia… Talvez reaja ao endeusamento. Por isso estou tentada a embarcar na benevolente leitura da Teresa. Vou ver o filme, está dito 😉
Gostei do teu texto, Teresa. Este é, sem dúvida, um Woody Allen ‘menor’. Mas ou muito me engano ou os filmes do Woody Allen serão todos revalorizados pelo tempo, à semelhança do que sucede hoje (por exemplo) com os do Hitchcock. Hoje um Hitchcok ‘menor’ parece-nos muitas vezes ‘maior’. Com o Woody acabará por acontecer o mesmo.
Talvez tenhas razão, Pedo. Será uma questão de tempo e a patine vai dar-lhes outro interesse. Mas haverá sempre os maiores e os menores, se comparados só entre si.
Minhas lindas, estou com o Pedro. O pior de Woody está bem acima da média. Não tenho dúvidas de que com o tempo os que agora o crucificam vão reconsiderar.
Querida Teresa, que texto maravilhoso. Acho a “menoridade” – na qual não incluo o Match Point, que é genial mas é “maior” – do Woody Allen genial. O mais genial dos “menores” é, para mim, o Vicky Cristina Barcelona. Acho que é a melhor comédia que poderia ter sido feita sobre uma certa característica, que não tem nome a não ser no facebook e na camisola, da contemporaneidade cosmopolita. Sempre que ouço alguém a dizer que gostou do filme quero logo fazer-me amigo. Neste último filme do Woody Allen, do que mais gostei, tirando do filme, foi do texto da Teresa. Quis logo fazer-me amigo.
Match Point: ou a coragem de competir com o mainstream. Muito bom.
Genial, Laura. Os críticos que o andavam a enterrar há anos tiveram que engolir as suas doutas palavras quando esse filme estreou..
Obrigada, João Almeida. O Vicky na minha opinião não é o mais genial dos menores, gostei mais, por exemplo, do “Tudo Pode Dar Certo”, que ele realizou a seguir. Nunca fiz este exercício com papel, caneta e a sua filmografia à minha frente, mas de repente arrisco a dizer que para mim, dos seus menores o maior é o “Vigaristas de Bairro” (2000), que em certas cenas me fez chorar a rir. Apesar desta pequena divergência espero que continuemos amigos 🙂
Obrigado pela simpática resposta, Teresa. Pela minha parte, claro que continuamos amigos. Uma coisa, é o impulso para a amizade por identificação. Outra é subjugar a amizade à convergência. Isso é demasiado alemão para quem gosta de filmes “menores” e, além disso, acho que a divergência neste caso não ultrapassa os 3%.
🙂
Mas eu não o crucifixo, Teresa… só lhe lamento a preguiça, porque sei que ele é capaz de muito mais.
A Europa não é a praia dele, c’est tout.
🙂
Percebo-te, Ana. Ele pôs o fasquia lá bem alto e quando não se esforça ficamos decepcionados. É a maldição dos criadores. Mas a verdade é que mesmo das suas obras mais fracas retiro prazer, porque ele tem uma assinatura que eu adoro. Essa forma inconfundível que WA tem de olhar o mundo conquistou-me para a vida 🙂
Só não gostei daquele filme dele que tem o Bardem. Nem fixei o nome disso.
Esse é o Vicky Cristina Barcelona. Mas não gostas do filme porque não gostas do filme, ou não gostas do filme porque embirras com o Bardem?