Uns tontinhos em passo afogueado


Paulo Sousa,

Precisamos de olhar para a Primeira República para entender a longevidade do Estado Novo, da mesma forma que precisamos de olhar para a longevidade do Estado Novo para entender a predominância do PS à frente dos destinos do país.

Os tempos são outros, o zeitgeist, na Europa e no Mundo, estreita as margens do que é politicamente possível, mas não podemos deixar de observar que a sujeição popular ao abuso resulta da comparação feita com os abusos anteriores. Não queremos saber das boas práticas para nada. Soubemos, ou simplesmente tivemos a sorte, de ter conseguido reunir condições que nos teriam permitido estar muito melhor? O que é que isso interessa? Quem não aplaude é fascista. Quando nos recordamos do Estado Novo, aceitamos o abuso, tal e qual como se se aceitou o Estado Novo recordando a Primeira República.

Então e as boas práticas, e os países que repetidamente nos ultrapassam? Isso não importa, porque engrenamos a lenga-lenga de que estamos melhor do que no tempo da outra senhora e isso é suficiente.

Soube há uns tempos de um tontinho que não morava longe daqui e que um dia, cheio de pressa, em passo apertado e quase a correr, ia à Batalha dar um recado, ou resolver qualquer urgência. Alguém que passava de carro reconheceu-o, abrandou e ofereceu-lhe boleia. Ele, o tontinho, afogueado e convicto, recusou a boleia porque… estava com pressa.

Quando olhamos para as boas práticas dos países que nos ultrapassam, e aceitamos todos os abusos socialistas, só porque não nos conseguimos desligar da narrativa da situação, estamos a ser como este tontinho. Com as condições que temos, poderíamos estar muito melhor? Podíamos sim, mas mergulhamos nesta anestesia, nesta vertigem que, sem tirar os olhos dos retrovisores, finge avançar. E quem quiser mais do isto, que emigre.

13 comentários em “Uns tontinhos em passo afogueado”

  1. Se o Paulo Sousa ler a penúltima revista The Economist”, lerá nela que esta nossa sina não é somente nossa, mas também de muitos países mais desenvolvidos. Esses países exibem, nos últimos anos, taxas de crescimento económico muito baixas; mas, o que é mais interessante, as populações desses países parece terem-se acomodado a, estarem satisfeitas com, e serem contra as políticas que poderiam alterar essas baixas taxas de crescimento. Não é somente Portugal que está contente com a modorra, o Reino Unido, a Alemanha, a França e a Itália também estão.

    1. O conformismo seria sempre questionável, mas se comparar os níveis de pobreza e de desigualdade dos países que refere, entenderá que está a comparar coisas não comparáveis.

  2. Infelizmente creio que tem razão mas a população não acorda do sono profundo em que foi mergulhando todos estes anos… Estamos hoje melhor do que há cerca de 50 anos atrás (tempo do antigo regime)? Óbvio que sim, assim como em 1972 também estávamos muito melhores do que em 1922 e assim por diante – em 50 anos a evolução tecnológica e social foi extraordinária em todo o mundo praticamente, logo também em Portugal. Vir com contos da carochinha alegar que, por exemplo, em 1972 não havia eletricidade em vastas áreas do território e que agora há não diz nada de nada porque em muitas outras paragens do globo também em 1972 haviam diferenças brutais face ao que existe hoje, é a evolução natural que ocorre em todo o lado e que nada tem que ver com o fim do estado novo e as ações desta república. O problema é que as pessoas não entendem isso e pior, é que as elites e quem controla o status quo do país, tudo fazem para que nada se discuta seriamente de modo a que esse não entendimento perdure o máximo de tempo possível. Quem não alinhar com a doutrina predominante é um “facho” automaticamente. Hoje, mesmo uma pessoa moderada só por discordar de algo que seja é logo um “radical da extrema-direita”, sendo a sua opinião imediatamente aniquilada e devassada em praça pública. Lá está, não há direito ao contraditório nem ao debate sério dos problemas e ideias de modo a que tudo se mantenha de acordo com os interesses daqueles que são efetivamente os DDT. Assim é impossível mudar e evoluir para melhor.

    1. No último trambolhão eles dizem que aprenderam a valorizar as “contas certas”. Mas não aprenderam nada. Simplesmente subiram a parada em mais um nível. O Projecto de Poder que se pretende confundir com o Estado, chamado PS, diz e faz o que for preciso para atingir esse objectivo. Se precisar de entregar o poder temporariamente durante um tempo de vacas magras, é isso mesmo que irá acontecer … mas sempre com os olhos postos no ciclo longo.

    2. Luís, também se põe o problema visto do outro lado, criticando são os “comunas” e os tipos da “extrema esquerda radical”, constantemente diabolizado.
      As comparações, logicamente, têm de ser feitas em relação às épocas. As condições de vida dos portugueses em 1972 e dos restantes países europeus nessa data, p.ex.

    1. Vem aqui a coberto do anonimato, e trata-me por spin?
      Fique sabendo que o seu comentário traduz um pequeno dói-dói, que, tenho de confessar, me apraz.
      A mim pagam-me em onças de tabaco e garrafas e vinho. A si será em fotocópias. Tresanda a moscas.

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