Uma vox no deserto


Teresa Ribeiro,

Quando lá entrei pela primeira vez não tinha mais que 14, 15 anos. Nesse tempo os cinemas eram espaços sérios e elegantes onde se servia chá e café em balcões de mogno nos intervalos das sessões. Não sei exactamente que memórias tem o King de mim, sobretudo da época em que ainda se chamava Vox, mas não precisamos de lembrar-nos de todos os detalhes para sabermos qual a importância da relação que mantemos com as coisas.

Apesar de velho e decadente o King conserva a dignidade dos lugares que não perderam a identidade. Mantém a traça original, a que os anos acrescentaram uma certa patine e insiste em receber pessoas que gostam de cinema, não audiências. É por isso que organiza ciclos temáticos e faz reposição de filmes, algo impensável noutras salas comerciais.

Há dias fui lá ver o excelente Em Carne Viva (1997), que perdi quando passou em estreia, integrado num ciclo dedicado a Pedro Almodóvar. Na sala, além de mim estava só mais uma pessoa, apesar de ser uma tarde de sábado. Nem os cinéfilos avessos a pipocas parecem interessados em manter em funcionamento um dos últimos cinemas tradicionais lisboetas.

O mercado, é bom não esquecer, é feito de gente que regula a oferta e a procura. Não adianta chorar lágrimas de crocodilo quando vemos fechar mais um cinema. Se mesmo lutando à sua maneira contra a crise, integrando uma livraria com exposições temporárias de pintura e um bar onde nos podemos sentar confortavelmente a lanchar, os lisboetas lhe viram as costas, o King terá os dias contados.

Fica numa rua escondida, mas a dois passos da avenida de Roma. É tão ou mais acessível que o Corte Inglês, os bilhetes são mais baratos, não precisamos de fazer fila na bilheteira, tem sempre uma programação de qualidade e nas paredes, em vez de cartazes gigantes com slogans publicitários encontramos informação sobre os filmes que vamos ver. Modestas fotocópias de críticas e entrevistas, incapazes de atrair, é certo, os ruidosos frequentadores de maus filmes, mas úteis para quem não perdeu o foco e sabe que nisto de ir ao cinema o que conta é o recolhimento no escurinho da sala e a descolagem rumo a uma tela gigante onde tudo pode acontecer. Não os néons, não o cheiro a caramelo desses espalhafatosos receptáculos de consumidores de tempo. De tempo, não de filmes.

Que bom que era se não deixassem morrer o King.

24 comentários em “Uma vox no deserto”

  1. Senti o que agora escreve em relação a vários cinemas do Porto que foram fechando portas. Cada vez que um encerrava, lá vinha um coro de vozes indignadas dizer que a cultura no Porto estava em agonia. Contudo, talvez por infeliz coincidência, relembro muitas noites em cinemas como o Nun’Álvares em que os únicos clientes eram eu e quem me acompanhava; e, por norma, noites de sábado.

      1. Peço desculpa por me intrometer. As pessoas não fazem parte do problema, são o problema.
        (belo postal, espero que o king aguente até ao verão daí, para que me possa despedir)

        1. Ora essa, não tens nada que te desculpar, jpt. Só disse que as pessoas “fazem parte”do problema porque meti nestas contas a crise, que também afasta as pessoas do cinema. Mas o que está a matar estas salas é sobretudo o comportamento das pessoas, sem dúvida.

  2. O cinema Vox foi inaugurado em 1969.

    No mesmo ano, lá estreou o mui falado filme “Helga – O Segredo da Maternidade” para maiores de 21 anos.

    “A Última Valsa” (Last Waltz) também lá estreou, entre outros bons filmes.

    Os meus cumprimentos

    J. Leite

    1. Caro José, uma das anedóticas actuações da censura de então, era proibirem moças grávidas, mas com menos de 21 anos, de verem o Helga- o segredo da maternidade. Só para rir claro……

  3. Ironia: apesar de ter vivido quase três anos praticamente ao lado do King (Av. EUA), quando lá fui pela primeira e até agora única vez já lá não vivia (fui ver, já agora, “A Valsa com Bashir”, um notável filme de animação israelita). Em compensação, ia com alguma frequência ao Londres, sobretudo para ver filmes que não justificassem um cinema mais moderno, mas que ainda assim gostasse de ver no grande ecrã. Como “Gran Torino”, do Eastwood.

    Mas a verdade é que para ver os filmes que habitualmente me fazem ir ao cinema, salas como as do Londres ou do King são desadequadas.

    1. Admito que ficção científica, Tarantino e Cronenberg não jogam com a atmosfera destes cinemas, por isso estás perdoado 🙂
      Mas vale a pena manteres-te atento à programação do King. Sempre desformatada e nesse sentido “fora da caixa”. Ali blockbuster não entra.

      1. Nem é uma questão de atmosfera (nestes termos nada batia o Londres e os seus maravilhosos assentos), mas sim de qualidade de imagem. Filmes como “Oblivion” ou “The Return of the King” pedem a maior tela que houver na cidade, com o melhor sistema de som 🙂 Já para um Tarantino, diria que uma sala clássica seria a escolha mais acertada; ver um filme como o “Death Proof” num centro comercial retira metade da graça à experiência (been there, done that, shame on me).

        Mas é engraçado como o cinema é o único motivo que me faz ir com alguma regularidade ao estádio do Sporting… 🙂

        1. Concordo, João. Faz sentido escolher as salas de acordo com o género de filmes que vamos ver e ir ao estádio do Sporting só para ver filmes e eventualmente alguns concertos 🙂

  4. “Ir ao cinema” acabou, parece. A minha geração (agora nos 40) foi a última que fez isso. A malta mais nova quer outras coisas. E não há nada de novo no cinema, diga-se em boa verdade. O formato está um bocado esgotado. Isso também conta muito. Por mim falo. Prefiro estar em casa a ver filmes, na internet, ao computador, meio a trabalhar meio a passear, a “mandar vir” nas caixas de comentários dos blogues e coisas assim 😉

      1. Pois… Isso nunca experimentei, devo confessar 😉 Mas sim, há essa vantagem. Ou não… às vezes cabe perguntar se o “multi-tasking” não é até uma espécie de doença. E se calhar nem é assim tão produtivo quanto parece.

  5. Continua a ser o cinema que mais frequento.
    E, já agora, uma confidência: foi no átrio do King, frente às salas de cinema, que troquei o meu primeiro beijo “mais sério”. Há muito que não sei da pessoa que partilhou comigo esse momento. Mas o cinema permanece quase igual. 🙂

  6. A única forma de não deixar de morrer estas salas é frequentá-las, Teresa. Sei do que falo, pois sou frequentador habitual de quase todas elas.
    O que vai acontecer, não tardará muito, é o que costuma suceder nestas ocasiões: aqueles que há anos não vão ao cinema, que em nada contribuem para estas salas permanecerem abertas, que se dizem apreciadores da Sétima Arte mas preferem ver filmes em cópia pirata no computador, estarão na primeira fila a carpir mágoas. De crocodilo.
    É sempre assim em Portugal.

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