Uma vivência pessoal do tsunami de 2004


joaomsandre,

Faz agora dez anos estava eu a completar um ano de doutoramento e vida na Holanda. Chegada a época de Natal segui para Portugal, como de costume. Foi entre a família que ouvi falar do tsunami na Indonésia. Na altura não lhe prestei muita atenção. Um tsunami era algo que me tinha impressionado na altura da descrição do terramoto de Lisboa de 1755, mas tinha sido no passado, com construções mais fracas e limitado na destruição a uma cidade. Na forma como o imaginava com as primeiras informações disponíveis, este tsunami provavelmente seria uma tragédia para as pessoas na cidade afectada mas não mais.

 

Passadas umas horas começaram a chegar as informações que seria bastante mais grave. Muitos milhares estariam em risco. O tsunami teria atingido uma enorme frente costeira e atingido mais do que “simplesmente” a Indonésia. Com o tempo ficou claro que centenas de milhares de pessoas teriam morrido. Era uma tragédia enorme, uma das maiores alguma vez registadas. Era, no entanto, mais uma tragédia no outro lado do mundo, que me provocava pena e pouco mais. Não existia a sensação de proximidade.

 

Foi no dia 29, salvo erro, que tudo mudou. Nesse dia recebi – eu e os restantes membros do grupo de investigação – um e-mail que indicava que o Saiful, um nosso colega indonésio, tinha partido para a Indonésia em busca da família, a qual incluía a mulher e a filha de um ano de idade. Sem disso termos noção, o Saiful vinha precisamente da província de Aceh, a mais afectada pelo tsunami. Naquele momento a tragédia deixou de ser algo que tinha afectado um enorme grupo de pessoas a meio mundo de distância para afectar alguém que conhecíamos e com quem convivíamos todos os dias.

 

Depois da sua partida, não recebemos quaisquer notícias do Saiful por vários dias. Não sabíamos se teria conseguido chegar à zona afectada ou se teria encontrado os membros da família. A espera era angustiante, especialmente à medida que os vídeos iam chegando às nossas televisões.

 

Passados uns dias recebi um SMS do Saiful. Tinha pedido a um australiano para o enviar. Dizia que estava bem e que tinha encontrado a mulher e a filha e que o resto da família dele estava bem. Daria mais informações quando pudesse. Mais umas semanas e o Saiful estava finalmente de volta. Trazia a mulher e a filha e uma história de enorme sorte. A mulher e a filha tinham sido apanhadas pelas vagas, mas foram salvas por um vizinho que as puxara para a sua casa e as acolheu (bem como a muitas outras pessoas) no telhado da sua casa. O resto da família do Saiful tinha sobrevivido graças a um funeral: tinham-se deslocado ao interior do país, mais elevado, para as cerimónias fúnebres. Apenas um primo, que tinha ficado a trabalhar, tinha morrido. Perante as tragédias em volta o Saiful tinha tido bafejado pela fortuna.

 

Era no entanto uma sorte relativa. A filha ficou naturalmente traumatizada pela experiência e ficava em pânico perante ruídos súbitos ou movimentos rápidos. Quando o Saiful teve o segundo filho explicou-me que a filha acordava a gritar quando o irmão chorava à noite. Demorou vários anos a habituar-se a essas experiências e, quando o Saiful terminou o doutoramento e regressou à Indonésia para ser professor na universidade local, a filha insistia que não queria regressar. Não compreendia o porquê, mas associava instintivamente o local a algo de mau.

 

Falei recentemente com o Saiful. Tem uma vida calma e simples na Indonésia. Construiu a sua vida e ajudou a família a reconstruir as suas. A filha é agora uma criança – quase adolescente – feliz, mas que fica ainda algo carregada quando o tema passa pelo mar e ondas. Pelo que descreve, a zona onde vive é um repositório de esperança e tristeza. Um local onde o passado e o futuro convivem diariamente e o presente é apenas um ponto de passagem.

 

Não posso de forma nenhuma imaginar aquilo que as pessoas que estavam nas zonas afectadas ou lá tinham família terão sentido. Esta foi no entanto uma tragédia que, por uma vez, me afectou um pouco de forma pessoal. Isso torna-a também como menos irreal aos meus olhos.

2 comentários em “Uma vivência pessoal do tsunami de 2004”

    1. De nada Teresa. É uma lembrança que me veio com esta história dos 10 anos e por ter visto umas fotografias do Saiful com a família no Facebook.

      É alguém que não consigo deixar de admirar: depois daquilo por que passou, seguiu em frente e terminou o doutoramento dentro dos prazos previstos (o nosso professor estava disposto a prolongá-los) e com um excelente trabalho. Duvido que eu o conseguisse.

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