Uma vítima demasiado forte


Teresa Ribeiro,

A propósito da estreia na Áustria do filme “3096 Dias” baseado na autobiografia de Natascha Kampusch, a rapariga que viveu sequestrada entre os dez e os dezoito anos, leio no El Mundo que apesar da sua história pungente, a jovem agora com 25 anos é detestada pelos seus compatriotas. Porquê? Aparentemente porque é forte. Em vez de chorosa e frágil a sua imagem pública é a de uma mulher controlada, inteligente e fria. Nunca se furtou aos media, deu a sua primeira entrevista uma semana após ter escapado ao cárcere e respondeu sempre a todas as perguntas sobre o que lhe sucedeu, sem omitir os pormenores mais sórdidos.

Nas redes sociais insultam-na massivamente, voltando contra ela informações que partilhou, como o facto de ter passeado com o seu sequestrador em público sem pedir socorro. Algo que Natascha justifica alegando que o medo a paralisava. Mas o argumento não serve, apesar de fazer sentido. Nesta como em tantas circunstâncias não basta sê-lo, é preciso parecê-lo e esta jovem está longe de parecer um farrapo humano. Queriam uma vítima e saiu-lhes uma sobrevivente tenaz.

Não há como dizê-lo sem ceder à especulação, mas não resisto a interrogar-me como seria se Natascha tivesse nascido homem. Se ela se chamasse Friederich a sua frieza provavelmente seria entendida como compostura e o autodomínio um sinal de dignidade. A frontalidade seria saudada como uma prova de coragem e assim por diante. Falta-lhe patilhas, bigode e músculos. Assim ela não encaixa no estereótipo e alguns estereótipos são para se respeitar.

Magoada, Natascha já desabafou em entrevista: “Eles preferiam que eu emigrasse ou me tivesse suicidado”. Com a indemnização que recebeu, os donativos que aufere através da página que os seus pais abriram na Internet em 2006 e as receitas provenientes dos media, Kampusch não precisa de trabalhar para ter uma vida confortável. Não que estivesse nos seus planos viver dos rendimentos. Sabe-se que tentou tirar um curso, mas teve de desistir, por não suportar estar muito tempo a interagir com outras pessoas.

Os psicólogos que a acompanham dizem que ela desenvolveu com os anos uma sociofobia que a afastou, inclusive, da família. Casar e ter filhos está fora de questão e do que gosta mesmo é de estar em casa sozinha a ver televisão e a beber chá. Não admira. Ao escapar do Inferno descobriu que a crueldade pode ter variações infinitamente subtis a que nem as vítimas dos piores crimes escapam. Sobretudo se forem mulheres jovens, bonitas e tesas.

19 comentários em “Uma vítima demasiado forte”

  1. gostei muito deste post e concordo contigo. se ela fosse homem, seria aplaudido, como mulher que é, devia ser/parecer frágil… terríveis clichés…

  2. Também gostei muito deste post.
    Natascha Kampusch tem muitos problemas psicológicos (não admira), por isso mesmo, é ainda acompanhada por psicólogos. Muita gente a acha arrogante, mas eu penso que é a sua estratégia para lidar com a situação, uma espécie de fuga para a frente.
    Também a acusam de se aproveitar da sua história para ganhar dinheiro. Eu acho que ela está no seu direito. Viveu aquilo, não o está a inventar. E, por mais atrativa que seja a possibilidade de viver confortavelmente das receitas provenientes dos média, eu não trocaria a minha história de vida pela dela.
    Ela sofreu muito e tem todo o direito de usar o seu passado como bem entender!

    1. É uma sobrevivente, e o problema é precisamente esse: as pessoas, em geral, apreciam mais as vítimas. Pelas vítimas podemos sentir pena; no que concerne aos sobreviventes, resta-nos colocar a nós mesmos a questão: teríamos conseguido?

  3. Muito bom texto, com o qual concordo.
    A ignorância e crueldade habita em todos nós e faz sempre estragos. Mesmo quando julgamos que as controlamos…

  4. Não entendo bem. Então ela é detestada mas, ao mesmo tempo, recebe donativos suficientes para viver sem trabalhar? Eu diria que quem lhe dá donativos não a detesta…

    1. O que eu entendo, Lavoura, é que se compraz em estar sempre do contra. Mas respondo-lhe, não tenho dificuldade em tirar-lhe essa dúvida aritmética. Além dessa gente que passa o tempo a insultá-la nas redes sociais, felizmente ainda há muitos que a apoiam. Só que esses não são notícia, porque assumem uma atitude que não suscita polémica.

  5. Pois é, Teresa, para sobreviver à situação parece-me evidente que se tenha tornado uma pessoa fria, pragmática, com certo sentido trágico da vida. A cada momento podia estar sujeita a qualquer coisa. Se fosse um homem? Isso levar-nos-ia para muitos outros exemplos. Eu cito muitas vezes uma frase do filme “Nas Nuvens” (não tenho a certeza de se chamar assim em português e peço desculpa por isso) em que a actriz Vera Formiga diz: “Pensa em mim como alguém igual a ti mas com uma vagina”. Ao mesmo tempo, o teu post fez-me voltar a uma pergunta que me atormenta. É tão bom ter liberdade de expressão, não é? Eu sou completamente a favor e, como jornalista, mais ainda. Mas e as redes sociais e os comentários on-line nos jornais? Esses que destilam fel? Tenho sérias dúvidas sobre a impunidade a que chegámos com as redes sociais. Podes insultar quem quiseres, podes ser mesmo hostil e violento, interpretar mal o que foi escrito, ser ofensivo. Só está nas redes sociais quem quer? É evidente. Lembro-me, há uns anos, do meu filho mais novo ter perguntado: “Mas não se lembram que as pessoas têm filhos?” Estávamos na net, a ver a homepage do sapo e a capa de uma revista era uma “boca” ou um daqueles títulos para chamar a atenção. A vítima aqui era uma actriz. Que sim, tem filhos. Enfim. Bom domingo.

    1. Lembras bem essa cena do filme de que me recordo com muita clareza. As mulheres que assumem este género de atitude são sempre alvo se não de hostilidade, pelo menos de desconfiança.
      Quanto à liberdade de expressão, pois, se mal usada é uma chatice, mas podemos sempre processar quem passa das marcas.

  6. Na mouche, Teresa. Ninguém perdoa a força, muito menos a uma “vítima oficial” que é suposto ostentar as marcas do drama para o resto da vida. Aparentemente quem a critica não percebe que essa é uma nova provação para esta mulher, além de tudo o que já passou.

  7. Gostei imenso do seu post . Concordo na íntegra com o que disse. Normalmente é muito fácil criticar e pela negativa. Outras no lugar dela seriam, hoje uns vegetais. Ela mostra-se uma combatente e sobrevivente como se tivesse sobrevivido a um holocausto pessoal. Há que olhá-la e pensar se não estamos a ser preconceituosos. Pôr a mesma situação em nós, antes de falar e provavelmente se assim se fizesse, muitos ficariam calados. Obrigado pelo post . Um excelente dia para si.

  8. Excelente texto! Concordo plenamente e até acredito que muitos dos insultos se prendam que pelo facto de ela não ter adoptado uma postura de vitima é sinal que gostou do cativeiro.
    O ser humano consegue ser muito cruel com as palavras!

  9. O ser humano bastantes vezes tem muito pouco de humano e bem mais de besta.
    Melhor dizendo: alguns seres humanos!
    Não creio (posso ter a certeza?) que os que contra ela se viram estejam minimamente preocupados com ela e com o que passou e a que se sujeitou em todo o seu cativeiro.
    Manifestam-se pelas mais variadas, razões porque sim!
    Porque acham que o podem fazer.
    Anonimamente na sua maioria.
    A discriminação social é um dado universal. Há sempre quem opte por menospresar em vez de glorificar, e não poucas vezes a vítima é “julgada” mais severamente do que quem sobre ela exerceu o poder e a força da agressão/opressão.
    Não se entende, de facto. E são tantos os exemplos…

    Cumprimentos.

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