Maria Barroso com Augusto Figueiredo na peça Benilde ou a Virgem Mãe (Teatro Nacional, (1947)
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Sophia de Mello Breyner Andresen
Há pessoas assim: capazes de nos cativar com um sorriso bondoso, uma palavra certeira, um olhar meigo, um gesto sereno, um tom de voz pausado. Maria de Jesus Simões Barroso Soares – Maria Barroso, como todos os portugueses a conheciam – tinha todos os atributos que enunciei. E vários outros – desde logo uma extraordinária coragem moral que a fez enfrentar todas as vicissitudes desde muito jovem. Franzina de corpo, mas com uma enorme fortaleza de espírito, enfrentou os esbirros da ditadura com uma inteireza arrepiante num tempo em que tudo apelava à demissão cívica. Por motivos de perseguição política, foi expurgada do chamado Teatro Nacional – uma página vergonhosa na nobre Casa de Garrett – e viu-se forçada a passar ao lado de uma carreira de actriz para a qual sentia genuína vocação.
Renunciou a muita coisa, mas nunca aos valores em que acreditava. Sem nunca assumir pose virtuosa, gesto próprio dos fariseus – “túmulos caiados”, na expressão bíblica que Sophia transpôs para um dos seus mais arrebatadores poemas.
Maria Barroso dizia poesia com uma dicção perfeita, reforçada com uma nota emotiva bem reveladora do seu carácter. Na noite mais escura, ela soube dizer a palavra não. E quando outra ditadura, de sinal contrário, pairou sobre o Portugal revolucionário, lá estava ela novamente, no lado certo. Em defesa da liberdade, por um país onde mais ninguém fosse vítima de poderes arbitrários, contra qualquer delito de opinião.
Alguns chamam-lhe agora, nesta hora em que partiu, “antiga primeira dama”. Detestável expressão, decalcada dos Estados Unidos, subentendendo uma relação de subalternidade em relação a Mário Soares, seu marido durante 66 anos. Nada mais inapropriado do que este rótulo jornalístico de importação. Como se Maria Barroso não fosse uma pessoa autónoma – nas ideias, nas convicções, no estilo, na atitude – para além dos laços de ternura solidificados por décadas de convívio com o homem que amou.
Vi-a muitas vezes, até há pouco tempo, nos locais mais inesperados. Olhando com atenção as novidades editoriais na Livraria Barata, saindo com uma amiga de uma sessão vespertina de cinema no Alvalade, encaminhando-se para a missa na “sua” igreja do Campo Grande. Nunca deixei de sentir admiração por ela, tal como – tenho a certeza – acontece com a esmagadora maioria dos portugueses. Quase como se fosse uma pessoa da nossa própria família, o que nos gera um íntimo sentimento de luto desde o início desta manhã, quando foi conhecida a notícia da sua morte. Que nem por já ser aguardada deixa de ser menos comovente.
Era sofisticada e simples, elegante sem sombra de presunção, lutadora convicta sem uma palavra de ódio dirigida aos seres menores que soube enfrentar com dignidade nas circunstâncias mais difíceis.
Uma Senhora.
Leitura complementar: a última entrevista de Maria Barroso. A Luís Osório, no jornal i.

![18253618_RzvD3[1].jpg 18253618_RzvD3[1].jpg](http://7.fotos.web.sapo.io/i/Bc81413a6/18607967_bA9OS.jpeg)
Que comentário tão feliz! O dom da palavra é, de facto, um dom.
Tentemos cultivar sempre os dons que possamos ter. Sem perder a humildade, que também é um dom.
E a gratidão também.
Curvo-me perante a sua memória!
https://www.youtube.com/watch?v=iOi5-JmX c9w
(poema de Mário Soares a ela dedicado,escrito quando se encontrava detido no Aljube, musicado e cantado por Carlos Mendes)
In: MENDES, Carlos, 1947 – Não me peças mais canções [Registo sonoro]. [s.l.]: Strauss, 1994. 1 disco (cd) (41 min., 10 seg.) : stereo. Faixa 7 : Para ti meu amor.
Muito lhe agradeço a achega que aqui nos traz.
Gostei muito, mesmo muito, de ler o que o Pedro aqui escreveu. Palavras certas na medida certa: é isto o dom da palavra.
🙂 Antonieta
Muito lhe agradeço essas palavras tão simpáticas, caríssima Antonieta. Gostaria de as ter escrito ainda em vida de Maria Barroso. Estive para fazê-lo no dia 2 de Maio, quando festejou 90 anos. Lamento muito que isso não tenha acontecido.
Conheci-os a todos desde 1977, aos da casa dos muros cor de rosa. A elas também.
Excelentes pessoas no relacionamento com os demais. Alguns mais do que outros. Uma mais do que todas as outras.
Sempre gentil, sempre simpática, calma e educada.
Uma verdadeira Senhora, sim.
Celebremos pois a sua vida, com a ovação que lhe é devida.
Muito bem dito, Dulce. Celebremos a vida intensa e cheia que viveu, mesmo quando o vento soprava contra. E saibamos inspirar-nos no seu exemplo.
Existem pessoas com a capacidade de transmitir ideias e sentimentos sem precisarem usar palavras. Diz-se dessas pessoas que falam com o olhar. O Pedro fala com o sentimento que lhe anima as pontas dos dedos. Não precisa falar muito para dizer tudo. Não precisa de floreados nem intelectualismos bacocos para homenagear uma grande Senhora em poucas mas sentidas linhas. Bastou-lhe a simplicidade e A beleza que N a verdade resumem a poesia que a alentou durante 90 anos.
Li um texto encantador, sobre uma das mais encantadoras pessoas que conheci.
Até amanhã e obrigada, Pedro.
D. Maria, para a Senhora , um beijinho e um até breve.
Eu é que lhe agradeço, Dulce. Uma vez mais.
por já ser aguardada
Eu, pelo contrário, temia que a morte tardasse muito. As pessoas podem ficar muitos anos naquele triste estado de coma irreversível sem que ninguém as mate.
Magnífico texto, Pedro.
Uma vez mais, o melhor que li sobre Maria Barroso e a notícia do seu desaparecimento.
Sensibilidade sem lamechice, tudo na medida certa. 🙂
Muito obrigado, Isabel. Confesso-te que me cansei de ir escutando ao longo deste dia triste contínuas alusões à “antiga primeira dama”. Português apressadamente traduzido do americano para significar coisa nenhuma. Maria Barroso foi muito mais que “primeira dama” ou mulher de. E merece a nossa homenagem e o nosso apreço cívico precisamente por causa disso.
(…)
“Além disso, ficai sabendo.
que voltarei
até do grande silêncio.
A bruma que desaparece na aurora,
deixando apenas orvalho sobre os campos,
subirá a acumular-se
no seio de uma nuvem
e cairá depois desfeita em chuva.
E eu não fui diferente da bruma.
No silêncio da noite
caminhei pelas vossas ruas,
e o meu espírito entrou em vossas casas.
O bater de vossos corações
esteve no meu coração,
a vossa respiração bateu no meu rosto,
e a todos conheci.
Sim. Conheci as vossas alegrias
e as vossas tristezas,
e enquanto dormíeis
os vossos sonhos foram os meus sonhos.
Muitas vezes estive no meio de vós
como um lago entre montanhas. (…)
in O Profeta – O Adeus Final – de Khalil Gibran
Olá Maria. Tem um bom dia.
Beijos
Vento
Oportuna e bela homenagem em forma de arte poética, que Maria Barroso tanto amava e cultivava.
Belíssima homenagem, Pedro. Conheço bem, como sabes, essa geografia. Acrescento-lhe um ponto cardeal: a do gabinete de Maria Barroso no Colégio Moderno. Dava para o pátio e tinha quase sempre a porta aberta. A imagem que me sobra dela é essa, a de uma mulher bonita (ela era uma mulher bonita), debruçando-se sobre livros no vão de uma porta aberta, como uma fotografia. Um abraço
Agradeço-te o pequeno mas precioso testemunho, Zé. De facto, ambos conhecemos muito bem este circuito geográfico onde Maria Barroso se movimentava com mais assiduidade – do Campo Pequeno a Alvalade. Foi sempre para mim uma figura inspiradora.
Abraço amigo.
Bela e merecida homenagem. Gostei (gosto sempre) muito de te ler.
Obrigado, Teresa. Foi uma homenagem muito sentida a alguém que sempre combateu pela liberdade e pela dignidade dos portugueses. Antes e depois de 1974.