Lembrei-me logo daquele telefonema. Do outro lado a minha colega soluçava, ainda em choque: “O médico disse-me que se tivesse passado mais um mês talvez fosse tarde”. Referia-se a um melanoma que tinha acabado de extrair. Um sinal a que não dera qualquer importância até ao dia em que uma médica do IPO, que por acaso frequentava o mesmo ginásio, reparou nele e a aconselhou a ir, sem demora, a uma consulta. Solícita, ofereceu-se para meter cunha se houvesse uma grande lista de espera. Havia. E a cunha salvou-lhe a vida.
Lembrei-me daquele telefonema quando, na urgência de dermatologia, sou atendida por um jovem de olhos coruscantes, que antes mesmo de olhar para a cara da minha filha, nos diz: “Eu não vos devia receber. Sinais nunca são caso para urgência. O que deviam era ter marcado uma consulta”. Expliquei-lhe que estávamos ali a conselho de um colega dele, de Clínica Geral, que tinha consultado antes. “Sim?”, respondeu enquanto fremia de rabo alçado:
— Então e o que disse exactamente o meu colega?
— O seu colega disse que o melhor era ser vista numa urgência de dermatologia.
— Sim? Só que aqui não temos aparelhos para ver sinais. Só na consulta. O procedimento deve ser esse. Vai à consulta, é observada, depois marca outra para daí a seis meses para ver se ocorreu alguma alteração. É assim que se faz.
O sinal que antes era castanho e liso, agora estava preto, saliente e irregular. Tal como nalgumas fotos que são distribuídas à população nas campanhas de prevenção do cancro da pele. Expliquei-lhe que essas alterações já tinham ocorrido e que por esse motivo o seu colega tinha dito que o sinal era para tirar. Só não sabia se com urgência. A frase excitou-o:
— Ai ele disse que “era para tirar”?
Só então se dispôs a observar o sinal. Perguntei-me o que nos diria aquele boneco do dragon ball, apreciador de fungos e carcinomas mas não de pessoas, se depois de o examinar, percebesse que era mesmo um melanoma bem nutrido. Daria o dito por não dito, ou manteria o seu discurso para não perder a face?
Felizmente para ele e para nós o caso não era urgente.
— É congénito e ainda por cima tem pêlos.
Só faltou cuspir-lhe em cima. Mas aquele olímpico desdém deixou-me louca de alegria. Podia, enfim, esperar que a dermatologista que costumo consultar viesse de férias para tratar calmamente do assunto.
Do episódio só me ficou a memória daqueles olhos verde água, a chispar energia cósmica, cheios de raiva contra a Humanidade talvez porque estava um belo dia de praia e havia que ficar de banco no hospital, e da minha vontade de voar dali p’ra fora com a minha menina, num jacto triunfal: kamé hamé!!!


Os teus posts são sempre surpreendentes, Teresa. Como te compreendo! Mas eu, que tenho menos paciência do que tu, acho que teria mandado o rapazinho à… galáxia dele.
Ana, naquelas circunstâncias o que eu queria saber mesmo era se aquela coisa era maligna ou não. Mas tens razão, o que ele merecia era ser mandado de foguete àquela parte da galáxia que cheira muito mal.
Claro, o alívio compensou tudo. Pensando melhor, eu talvez até tivesse dado um beijo sonoro na bochecha metálica do dragon ball.
Eheheh! E que tal fazer um print deste post e fazer-lhe chegar às mãos? Isso é que era! (estou a ponderar seriamente nisso)
Boa, boa! Faz isso. Olha, o rapazinho deve ter facebook… aí tens um bom veículo.
Incrível!!!
Mas será que nos cursos de Medicina não se ensinam regras básicas de psicologia? Por exemplo, que os médicos não servem apenas para examinar os doentes, também para lhes transmitirem confiança? Que os médicos servem para levarem a sério as preocupações de quem os consulta, sejam elas justificadas, ou não?
Há regras básicas, deontológicas!
Pergunto-me porque é que gente como esta tira um curso de Medicina? Por ser bonito? Por achar piada? Para mostrar aos familiares e amigos? Apenas por ter boas notas no liceu e ir para o curso que exige as médias mais altas?
Por vocação, não é com certeza!
Este enganou-se, Cristina. O que ele tem é vocação para Medicina Veterinária.
Eu acho que nem isso. Também os animais merecem ser respeitados…
E mesmo que o sinal fosse “para tirar”, isso não quer dizer que não fosse fatal.
Um prima minha tirou uma vez um sinal na pele do ombro que a estava a incomodar e ao qual não deu qualquer importância. Dois anos mais tarde detetaram-lhe uma massa tumoral no cérebro, mas disseram que era originalmente um melanoma, do qual, no entanto, agora já não se via qualquer sinal em qualquer parte da pele. Morreu seis meses depois desse cancro, aos 30 anos de idade.
Vire essa boca para lá, Luís! Cruzes!
Só pretendi salientar que remover uma mancha da pele não basta. A coisa precisa de ser acompanhada, mesmo após a remoção.
Não sei se reparou mas escreveu um textozinho muito, muito razoável, bem humorado e com o seu quê de noir, mantendo sempre o tom certo.
Chamar-lhe-ia, em honra das notas sobre o jovem facultativo, “a consulta da antropóloga inquieta”.
Saúdo o teu regresso, Teresa, e com um texto de tanta qualidade. Que só confirma aquilo que já sabíamos: o sistema até pode ser excelente, mas o factor humano pode torná-lo péssimo. O factor humano faz toda a diferença – para o bem ou para o mal.
Mas o essencial é que esta tenha sido uma história com final feliz.
O auditório já estava a ficar inquieto.
Ainda bem que estás de volta, Teresa.
Há médicos muito arrogantes e este podia ser um deles, ou podia simplesmente descarregar na Teresa a frustração de já ter atendido na Urgência muitos casos não urgentes.
Por outro lado, a urgência não é a mesma na perspectiva do paciente que se inquieta por uma “coisa” que não lhe é familiar e o incomoda, e na do médico que já viu muitas “coisas” daquelas e sabe a importância que (não) têm.
Idealmente, compete ao médico pôr-se no lugar do doente, que está em posição mais vulnerável, mas nem sempre é fácil.
Uma pergunta: é possível que o clínico geral tenha dito – ou pensado dizer – “que o melhor era ser vista com urgência em dermatologia” e não exactamente “que o melhor era ser vista numa urgência de dermatologia”?
Muitas vezes, os médicos nem se apercebem de quanto tempo os doentes esperam por uma consulta.
Eu nem sabia que havia urgências de Dermatologia, Gi. Foi essa médica que me informou. Não houve confusão.
Tem que se lhe diga, esta coisa de escrever. Muito, mesmo. Há quem tenha jeitinho, quem seja competente, quem faça brilharetes e quem seja brilhante, quem se esforce por ser genial e quem não consiga evitá-lo, ponto. Há quem construa laboriosamente os raciocínios e quem apenas se limite a registar o que jorra, ditado pelo coração.
Há de tudo, nesta arte de desenhar sons para que os outros possam ler-nos o pensamento, a tal ‘coisa de escrever’… que aqui nem por isso tem que se lhe diga por aí além, Teresa, pois que por lá ficou bem exposta a evidência, o segredo da comunicação: simplicidade. Simples, não? Mais que jeitinho ou competência, o teu brilhantismo esteve na simplicidade que puseste na ‘coisa’, o sem-se-ver que confere a textos como este o toque inconfundível da genialidade. Plim, puro cristal.
cumprimentos, caríssima
rvn
(p.s.: Imbatível na subtileza do comentário, caro Luis Lavoura… uma sensibilidade notável. 😉
Exagero teu, Rui. Obrigada 🙂
Obrigada, Pedro e Sérgio. Já estava com muitas saudades do Delito.
Não conhecendo o médico em causa não sei se o que vou dizer se aplica ou não. Mas o que é facto é que se sente muitas vezes que falta aos médicos a componente humana que se pensaria ser indispensável para exercer medicina. E isso, parece-me, agrava-se com as altíssimas notas necessárias para entrar nas faculdades. Não posso generalizar, claro, mas os candidatos a médicos serão alunos brilhantes nas matérias obrigatórias para poderem lá chegar mas falta-lhes a empatia que lhes permite comunicar com quem está à sua frente numa consulta, sempre numa situação de fragilidade. Claro que nós queremos médicos que saibam verdadeiramente o que fazem e para isso têm que ser estudantes exemplares. E também sabemos que, para sua sanidade mental, têm de manter alguma distância relativamente aos pacientes. Não é preciso serem Fernandos Namora. Mas lembrarem-se que têm à sua frente pessoas e não conjuntos de ossos, músculos, pele, etc., não seria mau.
Vários médicos meus conhecidos assumiram como trágica a fixação de médias estupidamente altas para entrar em Medicina, pois não duvidam de que foram responsáveis pelo afastamento de milhares de vocações. Concordo, Ana, quando dizes que a um médico exige-se muito mais que uma mente brilhante. E quando este assunto vem à baila, lembro-me sempre da história que uma das minhas médicas de estimação me contou, há uns anos: “No meu curso o melhor aluno tinha um problema: examinar as pessoas metia-lhe nojo. Felizmente decidiu prosseguir a sua carreira num laboratório. Se tivesse optado pela clínica, de certeza que seria um mau médico”.
Infelizmente nem todos os que não têm paciência, humanismo, estômago e disponibilidade mental para tratar de gente revelam a mesma sensatez.