Uma pequena frase


Sérgio de Almeida Correia,

carlos-costa-c180mch-c8a4.jpg(Hugo Correia, Reuters)

 

A Comissão de Inquérito ao caso BES ainda agora começou a funcionar, mas pela passadeira de inocuidades e vaidades que por estes dias desfila em S. Bento, há pequenas notas que vão sendo respigadas, aqui e ali, que revelam muito mais do que tudo aquilo que se possa imaginar para se compreender por que razão se chegou até hoje da forma como chegámos. Não me refiro à intrigalhada familiar exposta em praça pública, reveladora do baixo nível, e que não é por razões de extracção social, de alguns dos seus membros, nem aos desmentidos que já começaram a aparecer, como foi aquele que o Banco de Portugal sentiu necessidade de fazer face ao depoimento prestado por Ricardo Salgado. Tudo isso é do domínio do cómico, do novelesco, e está de acordo com a forma como o País foi gerido politica, económica e financeiramente pelas suas “elites” nas últimas décadas. Com o tempo que o espectáculo vai durar muita coisa haverá para acompanhar e ir comentando no virar dos dias. Por agora, registo que os senhores deputados parecem ter aprendido a lição de anteriores comissões, percebendo que é do interesse de todos esclarecer devidamente o que se passou, retirando as ilações necessárias para uma correcção de práticas e modelos, enfim, esforçando-se por cumprirem bem o seu papel. Aqui será justo realçar o conhecimento e a preparação que a jovem deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, tem revelado.

Mas aquele que para mim foi o momento mais marcante até agora de tudo o que se passou, tem muito pouco de técnico. É mais do domínio do conhecimento da natureza humana, sendo importante para se perceber quem depõe, a forma como pensa e como age. E sobre isto recorde-se o momento em que Ricardo Salgado esclarece que tendo sido sugerido ao Banco de Portugal o nome “do Amílcar” [Morais Pires] para dirigir o BES, Carlos Costa lhe pede dois dias para pensar. De acordo com o relato de Ricardo Salgado, dois dias depois o senhor governador do Banco de Portugal telefona-lhe e diz-lhe: “Será quem o Sr. Presidente quiser”.

Que um banqueiro afectado se refira a quem fora proposto lhe suceder em termos que não são aqueles em que se refere a outros membros da sua própria família que integravam a administração do BES, e a quem provavelmente conhece há mais tempo, ao fim e ao cabo vincando a diferença social e o modo de ascensão “do Amílcar”, não é de estranhar. Amílcar Morais Pires fizera um percurso diferente, não era do meio, não exibia os mesmo pergaminhos. Era um homem da casa que trabalhava há muito na instituição, subira a pulso, conhecia os cantos e, digo eu, era suficientemente grato para fazer o que lhe mandassem.

Mas o que para mim é mais penoso é ver que da mesma forma altiva e sobranceira com que Ricardo Salgado se refere a Amílcar Morais Pires, verificamos que o governador do Banco Portugal exibe o respeitinho parolo e subserviente que é a marca de toda uma geração, de que com razão se queixava O’Neill e que quarenta anos depois do 25 de Abril continua a marcar os dias. Repare-se que, nas palavras de Ricardo Salgado, Carlos Costa não o trata pelo nome próprio, nem por “dr.”, como é típico nos meios nacionais. Para Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, Ricardo Salgado era (é?) o “Sr. Presidente”! E, quer se queira quer não, foi desta forma que o regulador Banco de Portugal sempre se comportou em relação a quem manda nos bancos.

Fosse agora no caso do BES, ou tivesse sido no caso do BPN, do BPP ou do BCP, esta forma acanhada e subserviente de lidar com quem tem o poder do dinheiro, que neste pequena frase se revela, é afinal a mesma que se encontra no modo como, por exemplo, jornalistas falam com presidentes de clubes de futebol ou com políticos. Bem sei que alguns, de presidentes de juntas de freguesia a presidentes de filiais de empresas, tal como antes acontecia com alguns governadores civis, ficam de “trombas” (a culpa é de Mário Soares) quando os tratam pelo nome ou pelo convencional “dr.”, em vez de a eles se dirigirem pelo título do cargo que ocupam. Porém, esse será um problema deles decorrente da sua errada percepção das coisas, da sua própria falta de noção do ridículo.

No país de Boliqueime, “Será quem o Sr. Presidente quiser” é uma frase que é também um espelho do modo como alguns exercem o poder. Mesmo que o “Sr. Presidente” seja um qualquer pantomineiro de boas famílias, que foge ao fisco e bate na mulher, ele será sempre o “Sr. Presidente”. E é também um reflexo da susceptibilidade de alguns que exercem o poder numa sociedade democrática se deixarem influenciar por atavismos pouco consentâneos com as regras de uma república democrática em que os cidadãos são todos iguais perante a lei. É esta maneira de estar na vida, de uns serem “o Amílcar” ou a Irene do leite-creme e outros o “Sr. Presidente”, é este estado de espírito, esta mentalidade, que nos separa e faz a diferença entre uma nação civilizada e uma sociedade moldada no preconceito e no paroquialismo, incapaz de sair de si para se elevar. Das coisas mais corriqueiras às que têm que ver com o nosso destino colectivo, como é a supervisão bancária e a forma como o Banco de Portugal exerce as funções que lhe foram legamente cometidas. “Será o que o Sr. Presidente quiser” é hoje a nossa imagem. No BES, na Presidência da República, em S. Bento, nos Tribunais, no Estádio do SLB ou do Dragão, na Junta de Freguesia da Mexilhoeira ou até no caso dos “vistos gold”. Por aqui se vê o espelho da nossa desgraça. Da nossa miséria. E de como estão errados os modelos sociais e educacionais que se têm vindo a cultivar. Até nisto conseguimos falhar.

 

16 comentários em “Uma pequena frase”

  1. Descobriram a pólvora? Mas desde quando é que o “respeitinho parolo e subserviente” não faz parte integrante da sociedade portuguesa? Em todas as instituições onde se encontre um português, é obrigatório o uso da subserviência bacoca e saloia. Faz parte do ADN português e há muita gente que faz questão é manter a tradição. Assim se ocupam lugares cimeiros nas instituições.

  2. Bem observado. Estes pequenos detalhes são muito reveladores. É preciso persistir, estas relações sociais demoram imenso tempo a transformar. Havia uns filmes italianos onde estes detalhes eram mostrados, lembro-me dum Vittorio Gassman cardeal a “meter na ordem” uma paróquia por onde passara por acaso.

  3. Tão longo post àcerca de uma coisa que não se sabe se é verdade ou se foi mesmo assim. Salgado diz que Costa o tratou por “Senhor Presidente”; mas terá mesmo tratado? E tratá-lo-ia sempre assim? O autor do post não sabe, tal como eu também não sei, se aquilo que Salgado disse é literalmente verdade.

  4. São os títulos nobiliárquicos.

    Esqueceu-se das Universidades onde nos tempos modernos boa parte disto começa.

  5. Em cheio! Eu próprio sofri na pele as consequências por essa falta de subserviência, mas dei a volta por cima e cheguei aonde muitos dos que se dobraram não chegaram. Não esqueço os que me ajudaram.

    A minha geração nasceu no meio de um caldo de competição, os lugares não estão garantidos como estiveram para os de 1950/60. Um canudo é o início de um processo, não um fim. Espero que isso conduza à mudança necessária.

  6. Parabéns. Completamente de acordo.
    É muito difícil para alguns viver nesta
    “coisa”a que convém a uma determinada casta chamar País. Só esses senhores feudais beneficiam. Só há amos se houver submissos.

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