Uma pedra no bolso


Luís Naves,

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O jornalismo político português está de tal forma habituado à mentira dos políticos que reagiu com uma pedra no bolso a um momento de sinceridade do ministro das Finanças, criticando o facto de Mário Centeno aceitar uma pergunta sobre o eventual segundo resgate ao país. Claro que evitar este segundo resgate é a prioridade do ministro, sendo evidente que este cenário nunca deixou de existir. Centeno limitou-se a dizer a verdade e não tem culpa dos títulos utilizados.

É bem mais preocupante para o país esta entrevista do ministro das finanças finlandês, Petteri Orpo, com criticas às instituições europeias por não haver sanções a Portugal. As duas entrevistas estão relacionadas. As sanções resultam do incumprimento das metas do défice, fracasso que no caso português é grave devido ao montante da dívida pública. Sem a disciplina das sanções, o euro não tem credibilidade. Além disso, Portugal já recusou medidas adicionais recomendadas pelos parceiros europeus, alegando que conseguirá atingir a meta de 2,5% de défice orçamental em 2016.

Se o Governo de António Costa conseguir uma execução orçamental brilhante, atingindo os objectivos europeus, cumprindo promessas eleitorais e o acordo com os partidos de esquerda, então a sua estratégia funcionou e o país evita um pedido de ajuda. Afinal, havia alternativa.

O falhanço atira-nos de cabeça na direcção do segundo resgate: as contas públicas ficavam mais longe do valor negociado para 2017, haveria exigência de medidas adicionais (cortes na despesa e impostos), provável conflito com a UE, sanções automáticas, desconfiança dos mercados, fim das compras do BCE, taxas de juro a subir, incapacidade de Portugal se financiar, degradação da notação da dívida, aflição nos bancos, num ciclo capaz de se auto-alimentar como uma bola de neve. Os partidos de esquerda não poderiam aceitar cortes de 2017 a que se somava a parcela da diferença, no orçamento anterior, entre metas e realidade. Contas erradas darão um primeiro trimestre de 2017 infernal, à semelhança do que aconteceu em 2011, mas esta nova crise teria um péssimo contexto, com o avanço de partidos de protesto em toda a Europa. Se o défice for muito superior a 2,5%, game over, pode ser necessário pedir ajuda externa.

0 comentários em “Uma pedra no bolso”

  1. O ministro limitou-se a dizer a verdade e não tem culpa dos títulos utilizados.

    Concordo consigo. Também me parece que o ministro disse a modos que uma trivialidade. Aliás, ele não a disse: o entevistador perguntou-lhe a trivialidade e o ministro limitou-se a assentir.

  2. Sem a disciplina das sanções, o euro não tem credibilidade.

    Com as sanções também não teria credibilidade, dado que as sanções somente piorariam a situação económica e/ou financeira dos países a que fossem aplicadas. Se Portugal (e a Espanha) fosse sancionado, os mercados constatariam que a sua situação económico-financeira estava pior e, pior ainda, que as autoridades europeias lhe estavam a tirar o tapete debaixo dos pés, o que tornaria toda a construção do euro ainda mais frágil.

  3. “Afinal, havia alternativa.”

    Alternativa? o Governo está fazer “austeridade” com cortes na despesa nos gastos apesar de estar orçamentado muito mais.

    E continuam delirantes a falar em segundo resgate. Para haver resgate é preciso que alguém nos queira resgatar.
    Parece que não entendem o que significa um segundo resgate.

  4. O que não teve credibilidade foram os constantes acertos nas metas do défice durante o governo da troika, com o consequente aumento da dívida, aliás muito aplaudido por quem hoje continua a pretender rigor nas contas que nunca foi capaz de alcançar sem os tais ajustes do alvo.

    A conversa sobre o resgate faz parte do universo político limitado que se vive em Portugal. Este país parece continuar a gostar de viver com uma espécie de sobrecarga melancólica, para fazer jus à tradição que dita que sem um bom chorinho a vida não tem sabor.
    Perdoem-me, mas carpideiras que choram sua própria morte nunca comoveram.

    Por último, espero que o défice este ano fique, pelo menos, nos 2,7%.

  5. Permita um acrescento a meu anterior comentário. As conversas dos resgates e outras mais colocam-se sempre em período de preparação do OE para o ano seguinte. Como a classe do contra já reparou não ter havido orçamento rectificativo, berra para mostrar que está viva.

    Por outro lado, as agências, mesmo as que desenvolveram a conversa da treta em torno do resgate português, sabem que a situação hoje é diferente e continuará a ser. Por isto mesmo também dizem isto:
    http://economico.sapo.pt/noticias/moodys-portugal-com-posicao-de-financiamento-confortavel-e-risco-de-segundo-resgate-baixo_256798.html

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