
Clint Eastwood é o último dos realizadores clássicos americanos, herdeiro de um tempo em que no cinema se contava uma história simples e cativante, com heróis que ficavam para sempre na nossa memória. Hoje o mainstream do cinema americano são os blockbusters, que entretêm, mas se esquecem ao fim de um minuto depois de sair da sala. É por isso com grande satisfação que se vê um filme como Sully, em Portugal (mal) traduzido para Milagre no rio Hudson. É um facto que os portugueses não conseguiriam identificar a referência ao comandante Chesley Sullenberger que em 15 de Janeiro de 2009 salvou 155 passageiros ao fazer aterrar de emergência no rio Hudson um avião que tinha perdido os dois motores. Mas o filme não conta a história de milagre algum, mas antes de uma decisão humana, demasiado humana, tomada em segundos perante uma situação crítica. O título brasileiro O herói do rio Hudson é por isso mais apropriado.
Sully é efectivamente um herói, um piloto de avião que perde dois motores a baixa altitude e consegue perceber que a única possibilidade que tem de salvamento é o rio, enquanto que na torre de controlo lhe pedem insistentemente que dirija o avião sem motores para qualquer aeroporto nas proximidades. E que sabe que a decisão sobre o destino daquele avião é apenas sua, não perdendo tempo a dizer aos passageiros nada mais do que algo que ninguém quer ouvir dentro de um avião: “preparem-se para o impacto“. E, depois do impacto, assume a posição do comandante, que não abandona o barco antes de os passageiros se salvarem, sendo o último a abandonar o avião.
Mas esse herói americano tem depois que lutar contra o sistema, composto de burocratas, de comissões de avaliação, e de seguradoras, que avaliam a sua decisão através de computadores ou pilotos num simulador, e que sustentam que um avião naquelas condições chegaria calmamente a qualquer aeroporto. O sistema não permite heróis, já que só tem espaço para autómatos obedientes. E nessa altura Sully, um homem simples, sofre profundamente, vendo que a sua carreira de 40 anos nada vale perante os 208 segundos da sua decisão crítica. Mas, tal como Dirty Harry enfrentava o sistema para fazer a sua justiça, Sully defende brilhantemente a sua decisão perante o painel de avaliadores. A certa altura perante as suas respostas, parece que estamos a ouvir Dirty Harry: “Go ahead, make my day!“.

Uma palavra para Tom Hanks, talvez ele próprio também o último dos actores clássicos americanos, que faz um Sully extraordinário. Quase nos faz esquecer a imagem do verdadeiro Sully, que só voltamos a recordar quando o vemos surgir no filme em pessoa.
Recentemente Clint Eastwood deu polémica ao declarar o seu apoio a Donald Trump. Confesso que a polémica me espanta. Donald Trump é efectivamente um misógino e racista, que só um suicídio do Partido Republicano conseguiu transformar em candidato presidencial, mas sinceramente alguém estava à espera que Clint Eastwood fosse apoiar Hillary Clinton? Hillary Clinton representa o establishment político actual e Clint Eastwood já demonstrou que odeia profundamente o sistema. Dirty Harry, o veterano Walt Kowalski ou o sniper americano Chris Kile que o digam. E, perante os últimos avanços de Trump nas sondagens, Clint Eastwood até pode perguntar: “Do you feel lucky?“.

“é efectivamente um misógino e racista”
Patético, quando a história do tipo é o contrário. Assim se vê a manipulação.
O problema de Trump é que é um narcisista.
Ultimamente tenho andado desiludido com Eastwood, que me começou a aborrecer com os seus filmes pós Gran Torino. É como se tivesse finalmente encerrado os seus grandes temas e tivesse começado a entrar no território dos “simples” interesses. Eastwood continua a não ser capaz de fazer maus filmes, mas já não têm a força do passado.
Comecei a notar isso com Hereafter, depois com J. Edgar e até American Sniper me pareceu ocasionalmente quase em piloto automático, como se em território incerto. A ver vamos com este Sully.
Quanto aos inquéritos, não sei como estão dramatizados, mas na realidade aconteceram como tinham de acontecer. É facilitista considerar o capitão um herói por ter pousado o avião no rio, um acto de habilidade que é extremamente difícil de conseguir (pelo que li). Aquilo que foi questionado foi a sua decisão de pousar no rio. Isso foi feito e correctamente, porque mesmo se o resultado foi feliz, deixar que no futuro outros pilotos optem por essa possibilidade sem esgotar as alternativas poderia ser perigoso.
É sempre necessário definir se as decisões em casos como este foram as correctas. Como se vê (provavelmente no filme e certamente na realidade), o capitão tomou as decisões correctas. Estas são agora parte dos manuais e casos de estudo nas instruções a pilotos. É este tipo de inquéritos que tornou a aviação imensamente mais segura que qualquer viagem de automóvel ou até de autocarro. Criticar os inquéritos pode parecer bonito quando o alvo é um herói, mas se o é, invariavelmente os inquéritos provam-no.
Donald Trump é misógino e racista
Um homem que tem uma mulher (a sua filha) a gerir a sua campanha presidencial, e que é casado, pode ser misógino? Não me parece. Um misógino, que eu saiba, é um homem que despreza as mulheres, não lhes dá valor e não quer contactar com elas. Trump, que eu saiba, não é nada disso.
Que eu saiba, Trump também não é racista. Não quer mexicanos a entrar nos EUA, mas não por questões raciais (aliás, muitos mexicanos são branquíssimos). Ser contra a imigração não significa ser racista.
Uma obra-quase-nula, comparada com o verdadeiro filme a ver: nno
https://www.youtube.com/watch?v=pbULDhHW
Se fosse “camone” abstinha-me.
Entre estafermo e sandeu, venha o diabo e escolha.
A nave dos loucos.