Uma notável prova de ignorância


Pedro Correia,

 

Fui e sou leitor da Bíblia. Que não é um livro – são muitos livros. Há livros da Bíblia que merecem leitura permanente e são uma fonte inesgotável de sabedoria para além da fé pessoal de cada um. Livros como Rute, Job, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos, além dos quatro Evangelhos.

A Bíblia influenciou toda a arte ocidental, toda a literatura ocidental. Lemos autores tão diversos como Hemingway, Melville, Faulkner e Thomas Mann – e lá está, bem patente na obra deles, a marca bíblica. Vemos filmes de cineastas tão diferentes como Bergman, Ford, Fellini ou Dreyer – e lá deparamos, bem nítido, com o imaginário bíblico.

A Bíblia é fundamental até na nossa linguagem comum: muitas frases que usamos no quotidiano são de lá extraídas. Frases de cuja origem bíblica muitos de nós nem sequer suspeitamos, como "os últimos são os primeiros", "pela árvore se conhece o fruto", "a carne é fraca", "lobo com pele de cordeiro", "pedra sobre pedra" e tantas outras.

Concordo inteiramente com o que escrevem Daniel Oliveira, no Arrastão, e Bruno Sena Martins, no 5 Dias. Dizer, como disse José Saramago, que "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldades e do pior da natureza humana" é passar um auto-atestado de ignorância: ao falar assim, Saramago só demonstra que não sabe do que fala. Fica-lhe mal a ele, não à Igreja Católica. Mas é compreensível que a Igreja reaja e responda: nada mais natural numa sociedade aberta. Assim sucedeu, aliás com notável moderação. Foi quanto bastou para haver quem escrevesse que a Igreja pretende "atear novas fogueiras", o que é algo pelo menos tão disparatado como as opiniões de Saramago sobre a Bíblia e me faz lembrar este aforismo: "Viste alguém que se julgue sábio? Há mais a esperar do insensato que dele."

Encontramo-lo onde encontramos tanta coisa: na Bíblia (Provérbios, 26-27). Saramago devia lê-la.

 

ADENDA:

Ler este texto do Francisco José Viegas. E este de Fernando Penim Redondo.

40 comentários em “Uma notável prova de ignorância”

  1. Er… Pedro, está a “deslocalizar” o pomo da discórdia; lá porque as afirmações de Saramago aparentam ser enviesadas não quer dizer que não sejam tão verdadeiras como todos os aspectos que refere e que também o são, indubitavelmente. Na verdade, pode ler-se Melville, De Foe, Fausto, Dante e muitos outros, com prazer, sem nunca se ter lido a Bíblia, mas um dos referenciais de base estará sempre ausente da leitura e a experiência, julgo, não será aquilo que é.

    Contudo, o “pomo” da discórdia não me parece ser esse, parece-me tratar-se mais dum caso de liberdade de expressão: Saramago mandou umas bocas para promover o seu último livro (he goes with a bang, we need to admire that). O povo, profundamente católico, saiu a terreiro para a mais do que previsível novilhada; porreiro, como diria o José, mais «caims» vendidos por esse mundo fora, mais hábitos de leitura saramaguescos…

    1. Carlos, não tenho a mínima dúvida de que toda esta poeira no ar se deve, acima de tudo, a puro de ‘marketing’, em que Saramago e a sua editora são exímios. Também não é por acaso que o lançamento ocorre a poucas semanas do Natal: dá sempre jeito, mesmo a um autor ateu.

  2. Partilho, como já disse antes, que há duas ou três fundamentais para entendermos o nosso mundo. A Bíblia é a primeira. Espero reencontrar aqui os comentadores que tanto bramiram uns ‘posts’ abaixo. É sempre estimulante contar com eles.

    1. A bíblia é o que é, para uns muito, para outros muito pouco.

      Quais deles os mais “iluminados”? Respeitem-se as opiniões… por muito cruéis que possam parecer.

      PS: Alguém julga que Saramago ainda necessita de marketing para o que quer que seja?

  3. Eu acho que ele foi bastante diplomático e não quis ofender as pessoas, colocando o odioso no livro e não no uso que os crentes foram fazendo dele. O pessoal é que leva tudo a peito e não lhe serviu de nada.

    Quando afrontar ideias for igual a ofender pessoas, como ficou implícito e até explicito em muitas reacções o debate (e o combate) das ideias sai castrado. Cortês mas castrado.

    1. O que ele fez foi referir-se à Bíblia demonstrando não a ter lido, como aliás acontece com muita gente que fala dela sem nunca ter lido uma linha do que lá se escreve. É comum, aliás, isso acontecer em Portugal: não falta quem tenha em casa uma Bíblia que jamais abriu. Saramago ofendeu certamente muita gente – católicos, protestantes e judeus – o que aliás é uma especialidade dele desde os célebres editoriais de 1975, mas o meu ponto não era esse.

      1. Mas o meu ponto é que não falta quem a leia de ponta a ponta e pareça não a ter lido.

        Ou seja, que quase toda a gente faz uma leitura parcial da Biblia, seleccionando ou destacando o que sustenta a sua visão.
        Assim, pode-se invocar a biblia para amar o próximo ou para virar o pai contra o filho, conforme as conveniências. E isto só no novo testamento que é suposto ser o mais escorreito…

        Saramago fez a sua leitura parcial. Não terá esse direito? Ou será isso um exclusivo dos religiosos?

        De resto, para um escritor todos os livros deviam ser sagrados, mas isso colocaria a Biblia a par do Manual de Civilidade para Meninas, e suponho que os devotos da Biblia não iriam ficar mais felizes por isso.

        1. Saramago tem todo o direito de fazer uma leitura parcial da Bíblia ou mesmo de dizer que a leu sem a na verdade a ter lido. O que não pode é ser negado o direito à crítica aos seus detractores, sob a alegação de que quem ousa contestá-lo está a «atear fogueiras» da Inquisição. E quem o critica não são só católicos: são também judeus, baptistas, evangélicos, ortodoxos e testemunhas de Jeová.

          1. Desculpa meter a colherada, Pedro, mas se Saramago tivesse direito de fazer uma leitura parcial da Bíblia, a polémica não teria sido instalada com as afirmações que proferiu. A questão é o juízo de valor que ele fez sobre a Bíblia e acima de tudo está a fé e o facto de a Bíblia ser a palavra e um livro sagrado. Aí morrem os argumentos racionais. Parece-me a mim que a fé ultrapassa estes quesitos. Não é a mesma coisa dizer que, só a título de exemplo, que o Auto dos Danados do António Lobo Antunes está cheio de crueldades e a Bíblia é um “manual de maus costumes”. E ainda, há um outro livro do Moacyr Scliar , A Mulher que escreveu a Bíblia, cujo enredo gira em torno da teoria já levantada por Harold Bloom de que teria sido uma mulher que escreveu a Bíblia. Questionei-me, quando o li, como reagiria uma parte dos portugueses se Scliar fosse português e atribuísse a uma mulher feia e lasciva a escrita/registo da Bíblia. Bem sei que neste caso não é tanto Caim que está em questão mas lá virá.

          2. Leonor, não ignoro a componente não-racional destas discussões, que é sempre fortíssima. Judeus e cristãos de todos os matizes que se sintam ofendidos com as teses de Saramago têm todo o direito de reagir em conformidade, no plano das ideias. Considerar que cada uma destas críticas é uma ‘fogueira’ que se acende não faz qualquer sentido.
            Por mim, tentei colocar-me no plano racional – e é nesse plano que se insere a minha crítica ao Nobel: não faz sentido catalogar a Bíblia como um ‘manual de maus costumes’. Acho mesmo que isso é um enorme disparate. Satisfaz-me verificar que nisto sou acompanhado por ‘bloggers’ como o Francisco José Viegas, o Daniel Oliveira ou o Bruno Sena Martins.

      2. Isso não é inteiramente verdadeiro e, do meu ponto de vista, é desprezar o texto sagado com as suas múltiplas leituras. Claro que Saramago leu e “teorizou” interiormente a bíblia, Pedro. Obviamente que, sendo um homem “geneticamante comunista”, às portas da morte, rosto a rosto com Deus, haveria de resistir galhardamente à tentação de Maria, do espírito santo e de jesus. Tomara nós a mesma sorte quando nos calhar em fava igual destino, tomara.

    1. Não receie as fogueiras: a Inquisição terminou há muito. É verdade, no entanto, que ainda há quem defenda a queima de livros: o mais recente adepto desses actos-de-fé foi aquele ministro egípcio anti-judeu que felizmente não conseguiu ser eleito secretário-geral da Unesco – o que foi muito bem feito.
      Se algum dia sentir um impulso irresistível de ler a Bíblia, não o reprima. Verá que não perde o seu tempo. Como eu não perdi o meu.
      Cumprimentos

      1. Caro Pedro Correia,
        a maneira como se refere às «fogueiras» é sinal de que não compreendeu o meu texto. Faz-me até duvidar de que tenha lido o primeiro parêntesis da primeira frase.

        Quanto à Bíblia, li-a da capa à contracapa. E mais uma dúzia de encíclicas. Para não falar de textos islâmicos, budistas, hindus, da cientologia, etc. É por a compreender tão bem que a acho perigosa. Se acha que o mito de Abraão é edificante, recomende-o para os seus amigos lerem aos filhos. Eu nunca o farei – porque acho o mito de Abraão abjecto.

        1. Caro Ricardo,

          Há uma coisa que não compreendo de todo no que escreve. Depois de ter lido a Bíblia da capa à contracapa aquilo que sublinha do que leu são os capítulos sobre Abraão? Quer dizer que não conseguiu encontrar nada de positivo, nada que considerasse inspirador?

          1. Caro Pedro Correia,
            tendo lido a Bíblia na íntegra, e muita da literatura adjacente, e reflectido sobre religião de variadas formas, tenho-me esforçado por compreender o que é o essencial e o que é o acessório. E o essencial não são os Salmos, ou o Ecclesiastes, ou o Cântico dos Cânticos, ou o Tobite, ou sequer as narrativas da conquista da zona Israel/Palestina que se estendem durante centenas de anos.
            O essencial – e já sei que vou ser criticado por dizer isto de forma tão clara e aberta – é Abraão, Moisés, os evangelhos e as epístolas. O Apocalipse é só para lunáticos com insónias, as aventuras do rei David para amadores de curiosidades históricas, e a maior parte dos outros livros poderiam não estar lá que o cristianismo seria essencialmente o mesmo.

          2. De facto, Ricardo, você nem aflora o que eu considero essencial. Mas não quero ir agora por aí para não me desviar mais do meu ponto. Cada um tem a sua perspectiva – e longe de mim pretender que a minha possa ser superior à sua.
            Este é, aliás, um aspecto notável da Bíblia: pode ser encarada sob diversos pontos de vista – todos igualmente válidos. Pode até servir de matéria de trabalho a quem dela diz ser “um manual de maus costumes” e resistir incólume a todas as investidas de quem a considera «um catálogo de crueldades», como agora se confirma.
            O meu ponto, sublinho, é este: não se pode amar os livros sem se amar a Bíblia, que é de algum modo um livro fundacional. Serviu de veículo de alfabetização a sucessivas gerações de pessoas, na Europa e não só, e serviu de inspiração aos mais diversos talentos artísticos nas mais diversas épocas. De tal maneira que grande parte da arte ocidental – seja na música, na pintura, na escultura, na arquitectura, na literatura e até no cinema – não é entendível sem as coordenadas que os livros da Bíblia nos transmitem, sejamos crentes ou não.

          3. Pedro Correia,
            qualquer objecto cultural pode ser encarado sob diversos pontos de vista, «igualmente válidos». Muitos artistas tentaram fugir a esse espartilho, regra geral sem ganhar muito com isso (o que se ganha em objectividade perde-se em ambiguidade, etc).
            O fundamental nesta discussão toda – que devemos a Saramago – é podermos decidir se a partir de agora, século 21, vamos continuar a atribuir à Bíblia – e ao cristianismo – um papel central na nossa cultura. Ou se, pelo contrário, assumimos que aquilo que mais nos importa hoje (coisinhas como a liberdade de expressão e de consciência, a ciência, a igualdade entre homens e mulheres, a democracia, a laicidade), não vieram, pelo contrário, de fora da religião e, em boa medida, contra a religião (sobretudo a abraâmica). É para esse patamar do debate que temos de subir.
            Quanto aos mitos, há muitos. Eu gosto de Prometeu e de Sísifo, para nem falar de Homero…

          4. Ricardo,
            A questão, ao contrário do que diz, não é se vamos continuar a atribuir à Bíblia – e ao cristianismo – um papel central na nossa cultura. Queira você ou não, vivemos na civilização do Livro, que tantos livros nos deu. Esse papel central da Bíblia no mundo cristão e no mundo judaico é inapagável. Como referi no ‘post’, até nos nossos nomes e nas expressões que empregamos todos os dias a influência da Bíblia é óbvia, muito para além dos aspectos religiosos. E essa matriz cultural faz toda a diferença. Se você se chamasse Ahmed ou Rashid, em vez de Ricardo, não seria a mesma pessoa, naturalmente.

          5. Pedro Correia,
            quer queira quer não, quase tudo o que valorizamos hoje em dia é pós-cristão. A democracia, a laicidade, a liberdade de expressão, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, são exemplos de conquistas que se fizeram à revelia do cristianismo ou mesmo contra o cristianismo.
            O pós-cristianismo já começou há uns 200 anos. Mesmo assim, há quem não tenha dado por isso.

          6. Ricardo, há 250 anos que isso se ouve no Ocidente. Não se iluda. Parafraseando Mark Twain, as notícias da morte do cristianismo são muito exageradas.

  4. 1) A Bíblia só perpassa a arte ocidental em países de tradição protestante. Em países de tradição católica como Portugal quase ninguém lê a Bíblia.

    2) O Pedro omitiu referir aqueles livros da Bíblia que incontestavelmente são manuais de maus costumes, como por exemplo o Deuteronómio.

    1. 1. A Bíblia tem um papel fundamental no mundo cristão. Ponto final.
      2. Referi alguns dos livros da Bíblia que me parecem mais inspiradores e de modo algum «manuais de maus costumes». Você responde com a tal frase de Saramago, limitando-se assim a reconduzir a conversa ao ponto inicial. Há pessoas para quem os livros de Saramago são novas ‘bíblias’. Não sei se é o seu caso. O meu não é.

  5. Pedro, também eu achei o comentário despropositado, mas não o acho totalmente errado. Note que Saramago é ateu, como tal não vê ali qualquer centelha de divino. Assim sendo só pode conceber a Bíblia como uma obra (ou várias, como diz o Pedro e muito bem) de ficção e escrita(s) por outros homens.

    Neste contexto, todas as partes violentas (no Antigo Testamento, por exemplo) vêm da mente humana. Dessa forma não é deslocado olhar para a Bíblia como um manual do pior da natureza humana. É-o (neste contexto) porque foi imaginada por humanos (segundo Saramago). E mesmo que não tenha sido imaginada por humanos e seja literal (o outro extremo nas opiniões), não deixa de ser o tal manual de pior da natureza humana, uma vez que seria documental e falaria das piores coisas que os humanos são capazes de fazer.

    A Bíblia é sem dúvida um dos grandes textos da humanidade, uma grande obra literária, humana e até histórica. Mas também é, e aí concordo com Saramago, um manual do pior da natureza humana. Tal como muitas outras obras do património cultural da humanidade.

    1. “A Bíblia é sem dúvida um dos grandes textos da humanidade, uma grande obra literária, humana e até histórica.” Ora o meu ponto era precisamente esse. Não posso, pois, estar mais de acordo.

  6. Se me permite a repetição de um comentário a um post de João Carvalho (se não, não faz mal), porque é um tema relevante da nossa actualidade, aqui fica:

    Neste golpe publicitário
    de puro oportunismo,
    um pensamento sectário
    carregado de cinismo.

    A confusão instalada
    entre credo e instituição,
    uma leitura assolada
    por tamanha aberração.

    A verborreia parcial
    e a falta de dignidade,
    num acto demencial
    de abjecta publicidade.

    Muita história sonegada
    na defesa do humanismo,
    uma verbiagem carregada
    de ignóbil adesionismo.

  7. No blogue Speaker’s Corner Liberal Social há hoje um post com algumas citações explícitas da Bíblia que eu consideraria serem, de forma muito explícita, “maus costumes”. Para não dizer mesmo selvajarias.

  8. hum… e quem não se rege pela biblia? também a deve ver linda e perfeita?
    e o Saramago não pode ter a opinião dele?
    agora vão-lhe incutir que adore a biblia só porque é nobel da literatura? a sério… tanta coisa mais importante no mundo…

    1. O Saramago não pode ter a opinião dele? Claro que pode. Mais que isso: por estes dias, o Saramago não faz mais nada senão emitir opiniões. Se ainda lhe parece pouco, insista com ele para emitir ainda mais. Quanto ao resto, concordo consigo: tanta coisa mais importante no mundo…

  9. Pedro Correia,

    Eu ainda não li o livro e desejo lê-lo. Sei da polémica à volta do Evangelho e o que lhe posso dizer é que se trata de um grande texto. Que o Saramago debateu com D. José Policarpo na RTP.
    Eu estou à vontade, porque não sendo católico, nem tendo qualquer religião, acabo os dias a ler textos de uma das minhas bíblias.
    De um livro que sairá para a semana, consta uma citação do Eclesiastes: ” Não semeará o que olhar o vento, não segará o que olhar a nuvem”. Creio não ter falhado. E no entanto, não sou tão peremptório contra Saramago. A quem não devo nada para além de alguns nacos de grande prosa. Veja o começo do Memorial.
    Eu sei que V. tem contas velhas (acho que já falámos disso) com o Saramago, mas deixe lá o homem e não alinhe com aquele senhor do PE (Mário David?), um obscuro português, que quer sair da obscuridade através do Saramago e lançar Portugal nas trevas.
    Não podemos viver em guerra civil. Somos ou não somos todos portugueses?

    1. Senhor Manuel da Mata,

      Tenho muito gosto em vê-lo por cá.

      Peço-lhe que não me ofenda ao comparar-me, sem qualquer justificação, com esse senhor que menciona no seu comentário.

      Os meus cumprimentos.

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