Uma noite no Teatro


joaomsandre,

Há um par de meses fiz algo que há muito não fazia: fui ao teatro. Infelizmente há poucas oportunidades nas zonas onde tenho vivido para ir ao teatro e as poucas que têm existido têm-me, de uma forma ou de outra – frequentemente por culpa própria – escapado. Fui então ao teatro, dizia, ver O Misantropo, de Molière. Conhecia a história mas nunca tinha assistido a nada de Molière. A encenação pretendia-se moderna, com a acção a ter lugar nos nossos tempos e com adaptação das personagens aos estereótipos actuais. O grande senão da coisa (para mim): eu não falo a língua usada na peça.

 

Não deixa de ser curioso: depois de tanto tempo com possibilidade – mesmo que esporádica – de assistir a peças em línguas que domino suficientemente (alemão ou holandês), acabei a ver uma peça numa língua da qual vou entendendo pedaços mas sem a conseguir acompanhar (servo-croata). Foi no entanto um capricho: queria ver teatro, algo que há muito não fazia. Quis ver uma peça mais clássica, com uma acção simples, sem experimentalismos que me obrigassem a revolver a cabeça em busca do simbolismo utilizado.

 

O resultado foi extremamente agradável. A representação foi suficientemente boa – especialmente as personagens de Alceste, Célimène e Oronte – para seguir a acção sem entender o texto. A encenação, usando portas japonesas para separar as divisões e actualizando as personagens como políticos, homens de negócio e artistas e introduzindo habilmente telemóveis e internet para fazer avançar a acção. Contaram-me depois que a tradução foi também actualizada, introduzindo referências a factos modernos (com fait-divers recentes a serem usados) e colocando alguns termos e expressões mais modernos, os quais tiveram um impacto algo misto (alguns foram bem recebidos mas outros vistos como desadequados).

 

Foi a minha experiência do género e confesso que a recomendo. Convém naturalmente que se assista a uma peça cuja história seja conhecida, de forma a que não nos percamos, mas a falta de compreensão das palavras permite que nos detenhamos na linguagem corporal, nos tons de voz, na interacção entre as personagens e na encenação e cenografia. É algo de diferente e, em certos momentos, é uma experiência mais rica que o habitual. Não algo para repetir frequentemente, mas servirá para refrescar de tempos a tempos.

4 comentários em “Uma noite no Teatro”

    1. Nesse aspecto eu terei tido (um pouco) mais sorte: ainda vou percebendo um poucochinho de servo-croata. Por outro lado, tentar entender sem o conseguir é capaz de ser pior que saber desde o início que não se irá entender nada.

  1. O João André fez-me lembrar agora de uma alemã a quem dei aulas de português. Já lá vão uns quinze anos. Custava-lhe muito aprender a nossa língua. Mas adorava Lisboa. E adorava ir ao teatro em Lisboa! «Mas não entende quase nada», disse-lhe eu. «Pois não», disse ela, «mas quando não se entende a língua, repara-se noutras coisas. É uma experiência muito gratificante».

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