Uma memória de Sá Carneiro


Pedro Correia,

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Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

 

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, a partir de uma sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto poderia vir a ser vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, tragédia que lhe amputou a história e engrandeceu o mito.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa tornou-se mais sólida.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

 

Francisco Sá Carneiro (1934-1980) faria hoje 82 anos.

0 comentários em “Uma memória de Sá Carneiro”

  1. “Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.
    Graças a ele, a democracia portuguesa tornou-se mais sólida.
    Ficámos todos a dever-lhe isso.”
    .
    é uma democracia bastante sólida que a única coisa que faz é transferir soberania de Portugal para entidades e externa e promove a destruição de activos estratégicos nacionais, transferindo-os para estados estrangeiros ( Judeus, Mecca, China )…é uma democracia bastante sólida…

    1. MIRN era um proto-partido de extrema-direita, liderado pelo general ultra Kaúlza de Arriaga, que nunca foi a votos.
      PDC foi um partido que nunca teve representação parlamentar.

      Se a sua tese estivesse correcta, a esquerda teria 100% nesses anos do Portugal pós-25 de Abril: algo semelhante às votações de Saddam ou de Ceaucescu.
      Mas não está. Se estivesse, seria um paradoxo: a prova viva de que o Portugal democrático não era afinal uma democracia.
      Essa visão de um Sá Carneiro “de esquerda”, como se o centro e a direita fossem um buraco negro, é uma história da carochinha que o historiador Pacheco Pereira tem alimentado, instrumentalizando o passado para intervir no debate interno do PSD actual. Não resiste a dois minutos de análise séria.
      História da carochinha desmentida aliás por quem se recorda do que foi toda a actuação do Executivo da AD em 1980, onde figurava um tal Cavaco Silva como ministro das Finanças – seria Cavaco também de “esquerda”?

      Sá Carneiro era um liberal clássico portuense, um conservador moderado, muito influenciado pela doutrina social da Igreja, que conduziu o centro-direita às duas primeiras vitórias em eleições legislativas livres em Portugal, em 1979 e 1980. E com isso cumpriu a sua missão histórica.
      Foi também uma das figuras mais odiadas em Portugal.
      Recordo que nesses anos o PCP encheu muros e paredes em Portugal inteiro com expressões de ódio contra ele enquanto paradigma da “direita reaccionária”, o jornal comunista ‘o diário’ transformou-o em alvo n.º 1 em sucessivas manchetes transbordantes de rancor primário e o próprio Soares fez alusões muito infelizes à ligação sentimental entre Sá Carneiro e Snu Abecasis.

      Chamaram-lhe “fascista” milhares de vezes. Entre eles, talvez, alguns dos que hoje juram que Sá Carneiro sempre foi de esquerda.

      1. MIRN nas legislativas de 1980: https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_legislativas_portuguesas_de_1980. Insisto que em termos programáticos o CDS seria no máximo o centro/direita. O PPD era um partido social/democrata como posteriormente se passou a chamar. Nos últimos 30/35 anos os posicionamentos ideológicos tenderam a alterações acompanhados de novos programas.

        1. Se você considera que essa tal aliança PDC-MIRN-PDP – que concorreu em 1980 e obteve 0,40%, obviamente sem representação parlamentar – representava a direita, enquanto a AD de Sá Carneiro era de “esquerda”, conclui que 99,6% dos eleitores portugueses eram de esquerda.
          Tese absurda.
          Não vale a pena gastar mais espaço a insistir nisso.

          Se analisarmos a ideologia dos partidos em função dos nomes, o único que mantém fidelidade absoluta às bases ideológicas é o PCTP. Comunismo puro e duro.

          O PCP nada tem a ver hoje com um partido revolucionário. É um partido burguês e reformista. Comunista só de nome.

          O PS meteu o socialismo na gaveta, para usar a célebre expressão de Mário Soares. Já o tinha lá metido quando se assumiu como vanguarda anticomunista no PREC. É um partido social-democrata clássico. Socialista só de nome.

          O PSD foi sempre um partido reformista, liberal, com matizes populistas. Não por acaso pertence desde 1997 à família política do Partido Popular Europeu (que agrupa a CDU alemã e o PP espanhol). Social-democrata só de nome.

          O CDS é desde a fundação um partido democrata-cristão, conservador clássico. Centrista só de nome.

  2. E, curiosamente, sem qualquer relação familiar próxima a Mário de Sá Carneiro, tema do post anterior.

    Se a vida de ambos foi consumida rapidamente, a persistência em não querer esclarecer o atentado de Camarate, mostra bem como o passado é ainda um fantasma que ensombra o presente.

    1. Há coincidências espantosas. Só ontem à noite verifiquei que tinha programado há vários dias a excelente colectânea de Mário de Sá Carneiro precisamente para esta terça-feira, sem me lembrar da coincidência onomástica e cronológica.

  3. “Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, a partir de uma sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. “

    Na altura eu estava mais preocupado com bonecos de plástico dos Aristogatos , mas custa-me a acreditar nisso: a ideia que tenho é que quase não havia interseção geográfica entre as zonas de influência do PPD /PSD e do PCP, sendo raríssimos os sítios em que o PPD /PSD e o PCP fossem os dois maiores partidos, em concorrência direta um com o outro (no sul a disputa seria entre o PCP e o PS, no norte entre o PPD /PSD e o PS).

    Ou o Pedro Correia está-se a referir, não tanto às disputas eleitorais, mas às lutas à volta das comissões administrativas em 75?

    De qualquer maneira (e indo agora para o outro assunto discutido nos comentários), tenho memória suficiente de ver as paredes escritas com “Queres o fascismo? Então vota AD ” (acho que até seria mais fácil criticar as credenciais de esquerda do PS – que nas suas raízes até seria mais parecido com os Radicais franceses ou os Republicanos italianos do que com a maior dos socialistas europeus – do que as de direita do PPD /PSD – que suspeito até tenha sido mais popular entre a base do salazarismo puro e duro do que o CDS)

    1. Miguel, o PSD afirmou-se como concorrente directo do PCP na afirmação como partido de forte implantação autárquica – esta característica foi um elemento essencial da sua identidade. Desde a primeira eleição local.
      O PS era um partido também forte nas autarquias, mas a principal mais-valia socialista situava-se ao nível do poder central. Os comunistas tinham os seus fortes bastiões sindicais e também atribuíram prioridade ao terreno autárquico desde o início.
      Sem possibilidade de concorrer com o PS ao nível do poder central, o PPD/PSD tinha como alternativa afirmar-se nos terrenos alternativos e complementares – como força regional, tornando-se hegemónico na Madeira e nos Açores, e como força autárquica, onde procurou desalojar – em muitos casos com sucesso – as comissões administrativas que o PCP e os seus ‘compagnons de route’ do MDP/CDE se tinham apressado a dominar no período 1974/75.

  4. Bastante desiludida com o não-democrático PS (totalitário e repressivo, como só sabe quem esteve “lá dentro”), deixei de acreditar em políticos pseudo democratas. Este homem restaurou a minha fé em Portugal como país livre. Identifiquei-me com ele e com o partido que representava.
    Não voltei a identificar-me nunca mais com ideologias partidárias, porque os partidos são também pessoas, e todas perdiam por comparação.
    Grávida de 6 meses, mantive-me em fila respeitosa empunhando uma vela acesa, simbolo da luz que nos trouxe, prestando-lhe em morte, junto a tantos outros milhares de portugueses, a homenagem que lhe foi negada em vida. Nunca Belém foi tão pequena.
    Se teria sido diferente ? Acredito que sim.
    Obrigada por este texto.

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