Uma homenagem


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Hoje é o dia do enfermeiro oncológico. Os enfermeiros oncológicos têm uma associação própria – a AEOP. O pessoal da saúde que trabalha com doentes oncológicos é mais atreito do que os de outras áreas clínicas a cair em depressão devido à pressão em lidar com doentes incuráveis, em estado de grande ansiedade e/ou depressão, por conta de quadros clínicos complexos e muitas vezes fatais. Porém, os enfermeiros em particular são mais atingidos. O médico oncológico é quem decide do tratamento do doente e traça o seu plano, mas quem o implementa é o enfermeiro oncológico. 

Os enfermeiros oncológicos são parceiros essenciais que se ligam emocionalmente aos doentes -os tratamentos duram meses, às vezes anos- ajudam-nos a navegar nos complexos protocolos de tratamento e a gerir os sintomas e os efeitos secundários. Vi doentes a manifestar súbita alergia ao medicamento da quimioterapia, incapazes de respirar, por exemplo, e observei a rapidez e precisão com que os enfermeiros avaliam a situação, param imediatamente o tratamento e fazem o necessário para a recuperação; vi pessoas não aguentarem emocionalmente o tratamento e enfermeiros a conseguirem que a pessoa faça o tratamento; vi pessoas cheias de dores e enfermeiros a lidarem com elas; vi mulheres a passarem a mão no cabelo e ficarem com ele na mão e desatarem a chorar e enfermeiros a recuperarem emocionalmente a pessoa; vi pessoas desesperadas por ser a 3ª ou a 4ª vez que recidivam a apoiarem-se na força dos enfermeiros; vi pessoas perderem o controlo sobre o próprio corpo devido aos tratamentos (tentarem pôr-se em pé e caírem – as pernas desconjuntadas como efeito dos tratamentos) e enfermeiros a lidar com a situação e com o desespero da pessoa; tive enfermeiros radio-oncologistas a ajudarem-me numa altura em vacilei na vontade por ter ficado com uma grande queimadura e dores insuportáveis; vi enfermeiros lidarem com a perda de doentes que seguiam há muito tempo. O trabalho do enfermeiro oncológico é particularmente difícil.

Os enfermeiros oncológicos travam conhecimento com o acompanhante dos doentes, geralmente um familiar e estabelecem relação com essa pessoa também, para saber mais do doente e antecipar problemas. Por vezes também prestam suporte emocional aos familiares dos doentes, eles mesmos sob enorme pressão. Os enfermeiros antecipam as necessidades dos pacientes e dos cuidadores familiares e trabalham com os gestores dos casos e por vezes com os assistentes sociais para assegurar que os pacientes tenham apoio adequado e ajuda profissional nas suas casas e comunidades.

O tratamento de uma pessoa na luta contra o cancro passa por muitas fases e geralmente tem vários profissionais de diferentes especializações médicas dado os efeitos colaterais da doença e dos tratamentos. Muitas vezes, são os enfermeiros oncológicos que fornecem informação e orientação consistente ao longo do plano de tratamento. Têm formação para avaliar as necessidades médicas da pessoa. Os doentes oncológicos, com muita frequência sabem mais da sua doença do que médicos de outras especialidades não-oncológicas, aprendem muito jargão médico, aprendem a ler o resultado das análises e dos exames que têm de fazer, o que às vezes leva a juízos errados e só piora o seu estado de espírito e quem lida com isso tudo é principalmente o enfermeiro oncológico.

Os enfermeiros oncológicos têm sempre um sorriso calmo e uma palavra de empatia com os doentes -essa é a minha experiência de um ano e meio a frequentar o espaço da medicina nuclear e hospital de dia onde se fazem os tratamentos- e isso não tem preço. São pessoas por quem tenho grande respeito e deixo aqui o meu reconhecimento público a esses profissionais.

37 comentários em “Uma homenagem”

  1. devido à pressão em lidar com doentes incuráveis

    Muitos cancros atualmente são curáveis. Mesmo quando não o são na totalidade, o doente sobrevive ainda muitos anos.

      1. O cancro é incurável?! Como assim, montes de pessoas que já tiveram cancro estão vivas e de boa saúde dezenas de anos depois!
        Talvez seja incurável no muito longo prazo mas, no prazo de uma vida humana, montes de cancros são perfeitamente curáveis.
        Um colega meu que teve um linfoma há vinte anos está hoje vivo e de ótima saúde. Outro conhecido meu que teve cancro do testículo há mais ou menos esse tempo também está hoje ótimo.

        1. Incurável = não se conhece cura para essa doença. Na realidade sabe-se ainda muito pouco da formação da doença. Muito pouco. Até fazer o diagnóstico é geralmente difícil e é necessário fazer vários exames e cruzar/relacionar a informação desses exames para saber o que está ali. São inferências indirectas e por vezes passam seis meses a procurar (porque já se desconfia) e a não encontrar. Há cancros que só depois de abrir a pessoa é que se sabe ao certo o que lá está.

          Felizmente conhecem-se tratamentos e estes começaram a melhorar nos últimos anos, mas essas pessoas de que fala, ou tiveram a “sorte” de ter cancros daqueles que são logo detectáveis e portanto são apanhados num estadio precoce e/ou podem ser extraídos e, em cima disso, tiveram alguma sorte do tratamento resultar no seu organismo ou de ficar com células mas estas não se reactivarem, e por isso podem viver com o cancro muitos anos. Porém, com um cancro nunca há garantia e nenhum médico diz a um doente oncológico que está curado porque basta lá ficar uma celulazinha tumoral adormecida, para que de repente comece a replicar-se e a espalhar-se. Ninguém sabe porque não é possível detectá-la.

          A filha de uma colega teve uma leucemia. Tratou-se. Passados 17 anos teve uma recidiva na traqueia, resultado do tratamento de radio que fez para tratar a leucemia. Uma pessoa que conheço tinha um tumor no pulmão de tamanho ideal (entre 1 cm e 1.5 cm), tirou-o, fez tratamentos de químio e de rádio e andou bem 12 anos. Ao fim desse tempo apareceu-lhe um tumor na perna (consequência dos tratamentos). Tratou-o. Agora faz exames de 6 em 6 meses, à cautela. Um amigo tem um tumor na próstata. É demasiado pequeno para poderem tirá-lo. Se fazer radioterapia, como está ao pé de uma data de orgãos, arrisca-se afectá-los e desenvolver tumores nesses orgãos como resultado do tratamento. Operações dessas são muito complicadas e geralmente resultam em sair de lá com um saco para o resto da vida, ficar impotente e etc., de maneira que não vão tratá-lo. Vão esperar que cresça…
          Sabe-se muito pouco dessa doença. Muito pouco.

          1. O cancro não é curável. Ponto final parágrafo.
            É simples de ver porquê. O cancro é um desarranjo na multiplicação das células. Células doentes – neoplásicas e não sei se outras – multiplicam-se desordenadamente. Assim a cura do cancro consistiria em reajustar o mecanismo de reprodução dessas células, recuperando-as para a normalidade. Isso nem sequer se sabe como começar.
            O que a técnica – é técnica e não ciência – tem conseguido, é detectar as células doentes mais cedo e ser mais eficaz a eliminá-las. Exactamente como numa campanha militar como devia ser: eliminar o inimigo com o mínimo de danos colaterais.
            Há pesquisas em muitas direcções mas os tratamentos são apenas dois. Extrai-las ou matá-las. Em linguagem militar, as estratégias são apenas duas, as tácticas muito variadas.
            Creio que há uma linha de investigação para certos cancros, que vai no sentido de encapsular o tumor, ou seja, mais linguagem militar: aprisioná-lo. Mas haverá sempre risco de fuga…
            Noutros casos – é actualmente o meu caso – o tratamento retira um elemento necessário à reprodução desse tipo de células. Não as elimina nem as mata mas atrasa a sua progressão. Mas tal como numa campanha militar, mais tarde ou mais cedo o inimigo aprende a tornear essa dificuldade, isto é, torna-se independente à presença desse elemento. Quando acontecer – não é se acontecer a não ser que eu decida morrer primeiro doutra coisa qualquer – é preciso decidir outra táctica, desta vez, tal qual como numa campanha militar, já com menos opções disponíveis.
            Por isso, cara Beatriz, agradeço o cuidado mas, de facto, não é “teve um cancro” mas “tem um cancro”. Na última ronda de análises, controlado; na próxima ver-se-à.

          2. Eu sei que não é ’teve’, é ‘tem’, mas isso foi porque não estava à espera dessa notícia e fiquei um bocado em choque. Lamento muito que tenha esta doença terrível e que tenha tido que passar por esses tratamentos e por todo o processo interno de se adaptar mentalmente à doença e à ansiedade que a acompanha. Espero que corra sempre tudo pelo melhor. Essa metáfora que usou para explicar é excelente e diz tudo. Mas os tratamentos estão sempre a melhorar – por exemplo, quando fiz radioterapia (há 3 anos e tal) ainda não havia essa espécie de material que endurece com a forma do corpo para ajudar a fixar a posição da pessoa- de maneira que, se isso voltar a crescer, é muito provável que os tratamentos já tenham evoluído e sejam mais eficazes e menos agressivos. A política é sempre: ganhar tempo. Fazer o que é preciso para ganhar tempo. Há cada vez mais histórias positivas.

            Neste país trata-se mal as pessoas. O dinheiro existe mas é todo para consumido na corrupção e deixam os hospitais sem enfermeiros, sem médicos e sem equipamentos. Cortam os apoios aos doentes. O cancro é uma doença que nos sai caríssima, directa e indirectamente.

          3. quando fiz radioterapia (há 3 anos e tal) ainda não havia essa espécie de material que endurece com a forma do corpo para ajudar a fixar a posição da pessoa

            !!! Ainda não havia há três anos?! O meu filho fez radioterapia há mais de sete anos e havia esse material, já há muitíssimo tempo!

            (Fez a radioterapia na Suíça, com protões.)

          4. O cancro é uma doença que nos sai caríssima

            Depende.

            O meu filho mais novo teve cancro com 10 anos de idade.

            Fez a quimioterapia no hospital, para onde se deslocava a pé, na companhia da mãe. Ficava lá 3 dias por sessão (fez sete sessões), em regime de pensão completa. Depois fez uma sessão extra de quimioterapia de alta dose, em que ficou no hospital com a mãe fechado durante 19 dias. Também em pensão completa. Não nos saiu nada caro.

            Para a radioterapia poderia ter seguido o mesmo regime, mas eu preferi que a fizesse na Suíça com uma tecnologia mais avançada e mais segura. Isso sim, saiu-me caro em dinheiro. Se tivesse feito a radioterapia em Portugal, provavelmente sairia caro na saúde dele.

          5. Portugal tem um dos centros de investigação e pesquisa mais avançado no mundo. O tratamento do cancro é caríssimo, a não ser a quem tem a “sorte” de ter um tumor de fácil tratamento e onde tudo corre bem. Mas há cancros onde isso quase nunca acontece porque são profundos, quando se descobrem já estão muito avançados ou porque metastizam rapidamente, por exemplo. A quimioterapia é o mais barato que há. Custa cerca de mil euros.
            Já a radioterapia pode custar mil euros a sessão. A imunoterapia, por exemplo, sai a cerca de 7000 a 8000 euros a sessão e são precisas 30 a 60 sessões geralmente. Depois há os exames que é preciso fazer regularmente. Uma PET custa 1200 euros; uma TAC com contraste, 500 euros, um EBUS aí uns 1000 euros, uma ressonância com contraste 600 euros, etc. Depois os tratamentos deixam-nos com sequelas que necessitam consulta e tratamento em outros médicos com mais exames. É uma renda que se paga todos os meses.

          6. O tratamento do cancro é caríssimo, a não ser a quem tem a “sorte” de ter um tumor de fácil tratamento

            O tratamento do cancro é caríssimo, mas se fôr feito no hospital público (IPO) é à borla. O meu filho foi tratado (quimioterapia) no IPO, onde foi tratado segundo o protocolo internacionalmente aprovado para o cancro que teve, e não paguei um tostão.

            É claro que se uma pessoa quiser gastar dinheiro com um tratamento supostamente melhor, num hospital privado, pode gastar muito dinheiro (eu gastei, na radioterapia que fiz ao meu filho na Suíça), mas isso é uma opção dela, não tem nada que se queixar.

          7. Você é ignorante demais e nem sabe o que se passa nos hospitais e que tratamentos fazem e não fazem. E eu não paguei pelos tratamentos.

          8. a radioterapia pode custar mil euros a sessão

            O meu filho fez na Suíça 33 sessões de radioterapia com protões, que é uma técnica muitíssimo mais cara do que a radioterapia convencional com raios gama. Paguei menos de 30 mil euros.

          9. os tratamentos deixam-nos com sequelas que necessitam consulta e tratamento em outros médicos com mais exames

            Depende. O meu filho, que teve um cancro classificado como “agressivo” (daqueles em que não se pode demorar nem um dia a começar o tratamento, de tal forma eles se expandem rapidamente), fez uma quimioterapia absolutamente brutal e uma radioterapia também com a dose máxima. Desde que terminou esses tratamentos, nunca mais teve nada. Sequela nenhuma, saúde perfeita.

            A mim parece-me que é a Beatriz quem está a generalizar o caso dela e a pressupôr que todas as pessoas sofrem tanto como ela. Não é o caso, felizmente.

          10. você é um ignorante – há cancros de crescimento lento cuja terapia é mesmo esperar; há cancros agressivos mas que são primários e apanhados ainda cedo, sobretudo se são de superfície. E já lhe expliquei que o seu filho é uma pessoa. Uma unidade no meio de milhões de pessoas. Ainda bem que tudo lhe correu bem, mas os números e as estatísticas falam de milhões de pessoas e não de um caso particular. Uma pessoa pode ser um 4B e mesmo assim sobreviver e nunca mais ter problemas mas as probabilidades de isso acontecer são mínimas. Você é um ignorante e nem sequer aproveita oportunidades para se actualizar nas informações como é típico das pessoas com esse comportamento.

          11. Neste país trata-se mal as pessoas.

            Muito pelo contrário. O meu filho foi fantasticamente bem tratado. As instalações de pediatria do IPO em Lisboa eram excelentes e até tinha professora para prosseguir os estudos enquanto fazia as sessões de quimioterapia. Eu diria que, se há coisa em que este país se supera, é em tratamentos de saúde.

          12. Ainda bem que tudo correu bem ao seu filho, mas o seu filho é uma pessoa e não sefve para julgar toda a gente e se calhar foi há mais tempo. Nos dias de hoje o IPO recusa tratamentos porque não tem médicos ou enfermeiros ou dinheiro para os medicamentos. As pessoas que lá estão são óptimas mas o hospital é antigo, não tem condições e não tem o pessoal que necessita.

          13. Não, Francisco Almeida. Há cancros curáveis. Melhor, há pessoas cujos cancros são curáveis. O problema neste momento reside no facto de se pensar que a mesma estratégia resulta em cenários (corpos) diferentes. Poderia oferecer-lhe exemplos a este respeito que de todo não vejo como necessário, pois não estou para convencer quem quer que seja.
            Mas algo sabe-se em definitivo, a psique também contribui para a evolução ou regressão do fenómeno. O cancro e as demais doenças não podem ser tratado(a)s per si. Não existem doenças mas doentes.
            Abraço e melhoras

          14. Há também que ter em conta que muitos doentes oncológicos adotam comportamentos errados que não ajudam nada a sua cura. Alimentam-se de açúcar, por exemplo, e comem poucos ou nenhuns vegetais.
            Um canceroso a fazer os tratamentos tem que ter uma vida espartana, nomeadamente em termos de alimentação, comendo sobretudo vegetais, sempre que possível crus, e rejeitando totalmente alimentos com açúcar.

          15. Grande parte dos casos que você foca são cancros novos e diferentes, provocados pelos tratamentos. Não são o mesmo cancro, são cancros novos, que foram provocados pelos tratamentos tal como poderiam ter sido provocados por outra coisa qualquer.
            Repito, há muitas pessoas que se curam totalmente de cancros. Há umas que não se curam (uma prima minha, por exemplo, que teve um cancro de pele que recidivou passados poucos anos e acabou por falecer), mas há outras que ficam totalmente curadas.
            Aliás, os médicos de oncologia pediátrica dezem que é uma área gratificante da oncologia porque curam doentes que são crianças e que dezenas de anos mais tarde, como adultos, levam uma vida totalmente normal.

          16. A maioria dos tratamentos de cancro tem como efeito secundário provocarem outros cancros, mas a alternativa a não fazer os tratamentos é morrer. E não, não são cancros que podiam ter sido ‘apanhados por outra coisa’.

  2. Agora há dias para tudo e mais qualquer coisita.
    Acompanhei familiar com doença oncológica durante um tempo e nunca assisti a tanta coisa que escreve. O “enfermeiro” era eu, que o estimulava a perseverar na sua cura. O que aconteceu.
    Não significa isto que os enfermeiros, neste caso, tivessem funcionado mal na técnica. Para cuidar é necessário conhecer o doente e não só a doença. Os médicos e enfermeiros que conseguirem evoluir para esta dimensão compreenderão que o mais importante na cura e/ou tratamento de um doente é respeitarem a sua dimensão de pessoa e não só a doença, bem como as instruções de seus familiares. Coordenando com estes, familiares, o apoio que deve ser ministrado.
    Colocar nas mãos de profissionais o que pertence à família é nada mais nada menos que institucionalizar o doente/doença em detrimento da pessoa.
    Portugal em matéria de cuidados à pessoa doente sofre da arrogância pseudo-científica e pseudo-profissional que em várias situações conduz a um pouco efectivo bem-estar dos pacientes; e até mesmo frequentemente ao agravamento de sua condição.

    Mas a culpa está também no descarte que as famílias fazem de seus entes quando estes dependem.

  3. respeito os bons profissionais da saúde e estes com lugar destacado.
    tive sempre horror as degenerescências celulares: cancros e demências e o maior cuidado com os comportamentos pelos custos humanos e sociais.
    o estado podia fazer mais, mas prefere o abandono etc

  4. Não serão enfermeiros mas técnicos e, excluindo as dores e fases terminais, aplicam-se-lhes as estupendas “perfomances” enunciadas no “post”.
    Foi-me diagnosticado um cancro que, em circunstâncias normais me levaria ao IPO a custo zero. Mas, defeito meu, pesquisei tudo o que o podia – entendo-me bem com o inglês e utilizei os termos latinos dos relatórios nas buscas – e percebi que a radiologia era tanto mais eficaz quanto maior a radiação e a concentração. Muito mais importante, o feixe devia ser estreito, o menos cónico possível pois quanto maior a abertura, menor a quantidade incidente nas células neoplásicas e, sobretudo, maior o risco de danos colaterais quer na pele quer em orgãos internos adjacentes. Cedo percebi que as taxas de danos colaterais estavam relacionadas com a vetustez dos aparelhos – partes mecânicas ganham folgas ainda que micrométricas – e o quadro financeiro nacional, não permitia as renovações ideais, quer no IPO quer nos Hospitais Civis. De facto o IPO propôs-me um programa de 38 sessões enquanto na Fundação Champalimaud me propuseram 28 sessões com uma carga total mais elevada. Porque felizmente tenho um bom seguro de saúde e, com algum sacrifício, podia suportar a parte não coberta, optei pela Champalimaud.
    A sessão de preparação teve um momento surreal e justificava um comentário, mas adiante. Deitado sobre uma substância mais ou menos esponjosa, observava um estranhíssimo braço metálico que podia rodear-me em 360º sempre apontado à zona antes identificada. Na sala, um par de técnicos, uma sempre a mesma, outra ou outro variável e uma de duas jovens, estudantes de enfermagem, uma de Lisboa outra do Porto e que ali estagiavam em rotação. Atrás de uma parede – presumo que tipo centro de comando operacional – estaria uma médica que nunca vi nem nunca teve a amabilidade de se apresentar ou sequer, identificar
    De quando em quando, por, salvo erro, 8 vezes, acendia-se uma luz no braço mecânico e um dos técnicos marcava o ponto com um marcador comum que, no final, foi fixado com um ponto de tatuagem.
    Nas sessões seguintes, deitava-me sobre a tal substância que entretanto endurecera mantendo o formato do meu corpo, e depois a máquina lia as tatuagens. Era sempre necessário corrigir qualquer coisa, torcendo ligeiramente uma perna ou um braço para reflectir uma alteração no tronco, esticando aqui ou encolhendo ali ou mesmo provocando um movimento maior para encontrar outro ponto de equilíbrio. Quando finalmente a máquina lia correctamente todos os alvos, acabava-se a intervenção humana. A radiação era aplicada rotativamente, diminuindo quando atravessava orgãos sensíveis, tudo comandado pelo mesmo “software” que fizera as marcações iniciais.
    A preparação duraria as mais das vezes 3 a 5 minutos mas duas ou três vezes passou de 10, É imenso tempo e o profissionalismo dos técnicos, incluindo quando necessário, conversa mole para me ajudar a descontrair, era tão essencial quanto o automatismo do aparelho.

    1. Teve um cancro? Lamento imenso saber disso. Muito mesmo.

      Estava a falar de enfermeiros e não de técnicos, embora contactasse mais com os técnicos que foram quem me fez a TAC de preparação, tirou fotografias, tatuou os pontos de incidência do acelerador linear, me punha na máquina e etc. Eu fiz 25 sessões (o que é uma barbaridade porque o normal são 5 ou 7) e em cada semana tinha uma consulta com um enfermeiro oncológico do serviço, nomeadamente para saber de efeitos colaterais, dar-me conselhos, mostrar procedimentos, perceber se estava bem em termos de ânimo e animar se fosse preciso, etc. Os técnicos fazem um enorme esforço para estabelecer uma ligação connosco e manter-nos confiantes, mas aquilo é difícil.

      Isso da incidência do feixe depende dos tumores, do tamanho, onde está localizado, de ter metásteses, etc. É sempre preciso dar uma folga à volta do tumor para apanhar células que andem ali à volta, não identificadas. E o organismo pode não reagir como é esperado dada a tipificação do tumor ou tumores. Mas tenho a certeza que sabe isto tudo muito bem.

  5. Aproveito para partilhar também que sou testemunha de muito perto de 3 ou 4 casos de cancro de grau 4 e cujas pessoas estão cá, vivinhos da silva há 20 anos e mais até … graças a Deus.
    Quanto aos enfermeiros e médicos relacionados com oncologia, quase sentem a luta do doente como se fosse a deles e que a vitória do doente é um triunfo grande para eles todos, São, para além da especialidade que têm – psicólogos, psiquiatras e conselheiros do mais carinhoso e humano que se possa imaginar. Haverá de tudo, mas a maioria é dotada de grande humanidade e camaradagem. Põem-se , pode dizer-se, em igualdade com o doente. Portugal, nesse aspecto, está à frente…

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