Sabia que a senhora Séneca tinha uma escrava-palhaço? (Escrava-palhaço! Imagine a pressão que ela sentia no trabalho.) Chamava-se Harpaste e a responsabilidade de a manter coubera aos Sénecas em herança. Um aborrecimento para o filósofo, que deixou claro, numa carta ao amiguinho Lucílio, o que sentia pelo género: “Quando me apetecer o sarcasmo de um tolo, não preciso de o procurar longe: posso rir de mim próprio”.
E no entanto, veja se Harpaste não era uma humorista refinada: tendo ficado cega, nunca admitiu o facto e passou o resto da sua vida a pedir para a mudarem de aposentos porque os que tinha eram “muito escuros”.
Séneca, que aproveitou o episódio para doutrinar Lucílio quanto à necessidade de percebermos quando estamos parvos, não chegou nunca a perceber a piada.

Errare humanum est…
… sed in errare perseverare diabolicum.
Que é como quem diz, errar é humano, mas querer manter o erro é diabólico.
É persistente ensinar a primeira parte da frase de Séneca, omitindo a segunda.
A frase completa explica a razão.
Não sabia que havia escravos-palhaços, mas ao ousar pedir melhores condições de vida, parecia mais livre do que muitos trabalhadores dos nossos dias.
Bem lembrado, da Maia. Harpaste, como outros escravos-palhaços em Roma, na Grécia ou no Egipto, era provavelmente demente e/ou deformada. E apesar de eu aqui me meter com o Séneca, tenho de dizer que é um dos meus heróis e que o facto de ele não gostar de ‘freak shows’ só atesta a seu favor. Abraço