Uma galeria de horrores


Sérgio de Almeida Correia,

1.-tdm-1.webp(créditos: Carmo Correia/LUSA, vendo-se na imagem colonos com complexo de suserano a manifestarem-se pela liberdade de imprensa)

 

1. Os jornalistas portugueses da emissora pública de televisão e rádio de Macau (TDM) são “convidados” pelas suas chefias a estarem presentes numa reunião onde lhes são comunicadas novas directivas;

2. Na sequência dessa reunião, seis jornalistas apresentaram a sua demissão;

3. A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau, que congrega a esmagadora maioria dos jornalistas de língua portuguesa e inglesa da Região, emite um comunicado pelo qual “manifesta enorme preocupação pela gravidade das implicações de alguns aspectos referidos na mesma reunião no que diz respeito ao livre exercício do jornalismo e às condições dos jornalistas para exercerem a sua actividade com profissionalismo e dignidade“;

4. Também a Associação de Jornalistas de Macau (a que diz que se confunde notícias com propaganda), que “representa repórteres dos ‘media’ de língua chinesa apelou (…) ao Governo para que proteja a liberdade de imprensa, consagrada na Lei Básica, reiterando “que a liberdade de imprensa e de expressão de Macau não deve ser restringida” e que “os jornalistas não são meros instrumentos de propaganda de meios políticos”, afirmando que o “Governo da RAEM deve reconhecer a sua contribuição, e comprometer-se a proteger a liberdade de imprensa como ordenada na Lei Básica”;

5. Sucedem-se múltiplas reacções ao que se passou, incluindo em Portugal, designadamente por parte do Sindicato dos Jornalistas e de muitos profissionais que exerceram a profissão em Macau e conhecem as contingências do seu exercício;

6. Dias depois da tal reunião, a “Teledifusão de Macau (TDM) emitiu um comunicado no qual declara que “não alterou a sua actual política editorial de informação e está empenhada no cumprimento da responsabilidade social dos meios de comunicação, com a prestação do serviço público de radiodifusão, sob o princípio de amor à Pátria e à RAEM, e a difusão de notícias de acordo com a verdade”;

7. Na referida reunião estiveram presentes João Francisco Pinto e Gilberto Lopes, “director e director-adjunto de Informação e Programas Portugueses da estação“, respectivamente, que até hoje nada disseram sobre o que aconteceu, sendo no mínimo estranho tal silêncio, em especial depois da Administração da TDM ter vindo desmentir o que nessa ocasião foi transmitido a dezenas de profissionais pela suas chefias;

8. Este último ponto levanta aliás a questão de saber se alguém dessas chefias se excedeu no que transmitiu, se o que ali foi dito partiu da sua alta recriação – o que seria manifestamente grave –, nada lhes tendo sido anteriormente pedido pela Administração que fosse necessário comunicar aos jornalistas, ou se a Administração da TDM faltou à verdade quando disse que não tinha dado nenhumas instruções para alteração da linha editorial e os tais pontos divulgados e anotados por quem lá esteve foram fruto de uma alucinação colectiva das dezenas de profissionais presentes na reunião;

9. Junte-se a todo este imbróglio o saber-se que João Francisco Pinto é o presidente da Mesa da Assembleia Geral da referida Associação de Jornalistas da Imprensa em Português e Inglês de Macau, e que Gilberto Lopes é o vice-presidente da Direcção, para se ficar sem perceber se estes também subscrevem o comunicado emitido pela associação a que pertencem, se se revêem nele, ou não, tanto mais que o comunicado da TDM que nega a existência de quaisquer alterações à linha editorial os coloca em xeque, não constando que até agora se tenham demitido ou mostrado solidariedade pública com os que se demitiram, embora surjam aparentemente como vítimas da uma renovação por apenas seis meses das suas comissões de serviço;

10. Perante este cenário, já de si assustador pelo à-vontade com que ocorreu, ficámos hoje a saber por uma notícia da LUSA que a Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República esteve a discutir a “situação alegadamente vivida em Macau”. Alegadamente, bem visto. Ou seja, naquela comissão há quem tenha sérias dúvidas se o que aconteceu efectivamente existiu, colocando dessa forma em causa a sanidade mental das quatro dezenas de profissionais que estiveram na referida reunião e a dos dirigentes das associações de jornalistas, em língua chinesa, portuguesa e inglesa, que manifestaram preocupação e apreensão pelo sucedido, no que não deixa de ser estranho para quem se queixou de estalinismo na Juventude Socialista (talvez haja um estalinismo bom quando nos dão importância e um outro mau quando nos tiram da fotografia);

11. Diz um outro, o senhor Pisco, o mesmo que também publica umas coisas amiúde na Tribuna de Macau, que “não vale a pena estar a criar um problema onde ele não existe“, que terá havido “excesso de zelo de alguém da Administração” (de quem?), frases que me pareceram “sopradas” por um conhecido decano, acrescentando o senhor Cesário, o tal do Licor Beirão, do alto da sua sapiência, que deve continuar a ser aconselhado pelo senhor Vitório, o que representa o PSD nas manifestações do Chega e dirige a Companhia Oriental Portugueza (com “z” de “sangue azul”), que “a China financia vários órgãos de comunicação social em língua portuguesa sem interferir nas questões editoriais” (não há nada como os almoços grátis do altruísmo socialista);

12. Do PCP não seria de esperar outra posição que não uma declaração a dizer que em causa está uma “tentativa de desestabilização da situação em Macau, com transposição da situação de Hong Kong e alguma mimetização de processos e expedientes“, que é mais ou menos a posição da propaganda oficial chinesa e do seu órgão oficioso em Macau, dirigido por um conhecido campeão da liberdade de imprensa que assimilou na perfeição a cartilha dos controleiros comunistas;

13. Também desconheço quais sejam as fontes em Macau dos membros da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, mas desconfio que não será nenhuma das que esteve na tal reunião, e que se continuarem a ser as que eu suspeito, aqueles com quem confraternizam de cada vez que vêm fazer turismo, ou, eventualmente, tratar de negócios, só terão, na melhor das hipóteses, uns lamirés da informação relevante sobre este caso; 

14. O que me leva a concluir, compungido e pela enésima vez, o que muito lamento, que há uns perus na galeria que não perdem a oportunidade de dar nas vistas e de botarem faladura, sem pensarem primeiro e ainda que seja para não dizerem nada (aproveitando para desvalorizarem a acção daqueles que ainda pugnam pela defesa da sua dignidade profissional e que para tal colocam em risco o seu sustento e as suas jovens carreiras), expondo-se alegremente ao ridículo e justificando sempre que podem a irrelevância das funções que desempenham. Uns verdadeiros cromos dos partidos que representam e do regime que há décadas lhes paga as mesadas com que vão colorindo as penas no intervalo dos croquetes.

9 comentários em “Uma galeria de horrores”

  1. Não sendo as liberdades chinesas matéria recomendável, estou certo que qualquer apelo ao patriotismo dos jornalistas também cá seria tido como atentado à liberdade de tão egrégias entidades.
    Sempre tenho por não esclarecido se jornalismo é tão só o relato com verdade de acontecimentos e suas circunstâncias e se exprimir opinião não será área de cronista reservada a quem claramente se declare como crente em princípios definidores.

  2. Caro SAC, eu preocupo-me DE FACTO com o que se passa em Macau e não só porque, interesseiramente, até dependo mensalmente da quantia da aposentação que ganhei legalmente após 35 anos de trabalho, sacrifícios e trapalhadas diversas a que me sujeitei, como funcionário público, mas porque foi aí que, com 23 anos, fui parar no verão de 1984. Eu não fui experienciar o Oriente: ele foi a única alternativa que me restou.
    Preocupo-me também, como sempre me preocupei, com esse bem precioso que é a liberdade de expressão dos Média, algo que, em Macau, nunca foi muito consensual (se não acredita em mim, pergunte ao seu amigo PC!) – alguns de nós, dos “extremistas de esquerda” que conheço, secreta mas relutantemente até admitem que, para a maioria da população de Macau, o único período histórico em que existiu liberdade de expressão nos Média, foi durante o “fachismo”: como nenhum português tinha acesso ao que, por exemplo, os jornais chineses escreviam sobre o colonialismo e o regime, ou a administração (consentida, logo, não colonial) de Macau.
    Li, como julgo que a maioria de todos nós, sobre a polémica em torno da obrigação de “patriotismo” dos jornalistas da TDM-Canal Português, através do Público a partir de uma peça da Lusa. Nela, a “coisa” era apontada como “a China vira-se para Macau depois de silenciar HK”.
    Um dia depois, como costume meu, fui até à página da TDM e acabei por descobrir uma peça sobre HK (https://port.tdm.com.mo/c_tv/index.php?id=14053) que julgo que (só pode deixar de ser que) é até mesmo nada patriótica. Mas essa até poderia ser uma excepção no garrote aplicado aos jornalistas da TDM que até gerou esta manifestação de solidariedade, conforme esta notícia da “sufocada” TDM, Canal Português, o demonstra: https://port.tdm.com.mo/c_tv/index.php?id=14053
    Aparentemente, todo este “imbróglio” (e a expressão é sua!) é um perfeito exemplo de “não dar a bota com a perdigota” (um Média “silenciado” à vontade política da China a transmitir notícias anti-patrióticas) e a única coisa que me preocupa nesta altura é, para além de tudo mais saber quais os “jornalistas” que, de acordo com o seu ponto 2, até «apresentaram a sua demissão» – os seus nomes deveriam ser revelados, quanto mais não seja, por serem verdadeiros/convictos apóstolos da liberdade de expressão “supostamente” ameaçada em Macau. Porque os manter no segredo dos deuses… e assim fazer “o jogo da China”? Espero que não me venha dizer, como a Lusa, que é para os “proteger” – na volta, até vamos acabar por descobrir que nem a direcção da TDM (a China!!!) sabe que eles se demitiram!?! Sim, pode acontecer que os demissionários até só notificaram a Lusa!
    Aqui há uns dias, quando começou toda esta polémica mandei uma mensagem a um amigo meu que ainda reside em Macau. O que ele me respondeu foi que tudo isso foi apenas uma farsa destinada a provar que até somos europeus: não precisamos falar de HK porque, graças ao deus do passado, até temos Macau! E a melhor imagem que me vem à cabeça disso é a que os 2 “traidores” nesta historieta são, ao mesmo tempo os seus heróis! E que o silêncio continua a ser de ouro…

    1. Caro António Vaz,
      A propósito do que escreveu (“para além de tudo mais saber quais os “jornalistas” que, de acordo com o seu ponto 2, até «apresentaram a sua demissão» – os seus nomes deveriam ser revelados”), posso dizer-lhe que os nomes são perfeitamente conhecidos.
      Foram seis jornalistas, cinco da rádio (S., S., M, D. e F.), uma da televisão (I.), e nesta houve um chefe de departamento que também se demitiu, regressando ao lugar de origem. Gente com as suas vidas, famílias, alguns com filhos, encargos.
      Tenho impressão de que esse seu amigo que o “informa” não deve ter tempo para acompanhar a actualidade. Depois informa-o mal. É pena.

      1. Caro SAC,

        Agradecido pelo seu esclarecimento de «que os nomes são perfeitamente conhecidos» – admito que sim mas não no “exterior” (que até é onde estamos a gravitar), pois nunca os vi revelados!

        Não pretendo incomodar-me, por aí além, com a sua observação de que o meu amigo «não deve ter tempo para acompanhar a actualidade (e) Depois informa-(me) mal»: ele apenas, para além da parte que reproduzi («tudo isso foi apenas uma farsa destinada a provar que até somos europeus» – que não mereceu qualquer comentário seu) apenas me disse que não sabia quais os nomes dos tais 6 jornalistas. Informar-me mal teria sido dizer-me que eles afinal eram o X., Y., W., Z. e o N.!

        Claro, graças à sua intervenção (ao contrário da do meu amigo), até fiquei esclarecido sobre quem eles eram: «cinco da rádio (S., S., M, D. e F.), uma da televisão (I.), e nesta houve um chefe de departamento que também se demitiu, regressando ao lugar de origem» – o elemento X? Mas “prontos”, confesso que até fiquei aliviado: por dias temi que fossem os (meus conhecidos) T., A., B., E. e M. «Gente com as suas vidas, famílias, alguns com filhos, encargos.» – por isso é que os considero como heróis (embora, graças ao “bicharoco”, para já até nem têm de se preocupar com as férias na Tailândia ou Maldivas! Ou seja, Querido, vamos ter de apertar as despesas encontro não descubro algo para fazer…).

        SAC, algum dos dessas letras é solteiro?
        PS. Clicou nalguma das ligações que aqui disponibilizei?

        1. Caro António Vaz,

          Sei que há pelo menos dois casados/as (ou unidos de facto, não faço ideia, com famílias cá, se quiser), mas não costumo privar habitualmente com os demissionários/as, nem tenho por hábito andar a bisbilhotar a vida dos outros.
          Também sei o que foi divulgado e me foi transmitido com quem falei e por alguns colegas deles, e o que me chegou aos ouvidos de fontes que reputo sérias que contactaram com os envolvidos.
          De qualquer modo, embora não me pareça ser essa a questão essencial, talvez possa pedir os esclarecimentos que não lhe posso dar e de que tanto necessita directamente à própria estação de rádio e televisão, ou, eventualmente, aqui: https://www.aipim.org.mo/contact
          Certamente que estarão mais habilitados do que eu.
          Quanto aos links que colocou, vão ter directamente ao último Telejornal que estiver no site, o que não acrescentou nada às explicações que me quis dar. Em todo o caso, agradeço-lhe o esforço.

    2. Ainda bem que alguém aponta as contradições entre a narrativa que está a ser imposta por um pequeno grupo de pessoas e a realidade em Macau.

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