Uma estadista


Pedro Correia,

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O ser humano é determinado pelas circunstâncias, como nos ensinou Ortega y Gasset. Penso nisto muitas vezes a propósito da política. Repare-se em Angela Merkel: há menos de dois anos era ridicularizada pelas bempensâncias de turno, que a caricaturavam como uma gauleiter cúpida e bronca. A esquerda radical chic pintava-a com bigodinho hitleriano e umas tantas sumidades chamavam-lhe “senhora Merkel”, com indisfarçável desdém misógino. “Seja mal-vinda a Portugal”, proclamaram em uníssono mais de cem figuras cá do burgo quando visitou Lisboa, em Outubro de 2012.

As circunstâncias operaram uma reviravolta nessa cascata de argumentos primários contra a chanceler alemã. Angela Merkel, que agora recebe Barack Obama em Berlim, emerge da endémica crise de identidade europeia como a única interlocutora válida do continente perante os restantes protagonistas da cena política mundial. Henry Kissinger – pioneiro na abertura da diplomacia norte-americana a outras latitudes – declarou em tempos que desconhecia “o número de telefone da Europa”, aludindo à falta de liderança no Velho Continente. Hoje não voltaria a repetir a frase.

 

Diziam com desprezo que ela só pensava em finanças públicas. Mas não vejo ninguém a conduzir a política com tanto acerto no espaço geográfico em que Portugal se insere.

A chanceler germânica deu uma exemplar lição de dignidade aos seus pares ao acolher generosamente em 2015 mais de um milhão de refugiados – grande parte dos quais fugidos das intermináveis guerra civis no Médio Oriente e no Norte de África – enquanto outros responsáveis políticos europeus, de Mariano Rajoy a Vladimir Putin, lhes fechavam as portas. Pôs a sua popularidade interna em risco, sujeitou-se às críticas da direita mais extremista, viu uma força xenófoba ganhar terreno eleitoral, mas não abdicou dos princípios humanitários em que acredita – moldados na genuína democracia-cristã que funcionou durante três décadas como um dos pilares doutrinários da construção europeia.

Já este ano, revelou idêntica dignidade ao enfrentar a gravíssima crise institucional provocada pelo referendo britânico, reafirmando a sua crença no projecto europeu e reforçando os elos de solidariedade com as economias periféricas da UE. E há dias, na mensagem de felicitações que dirigiu ao recém-eleito Presidente norte-americano, prometeu cooperação institucional a Donald Trump sem abdicar dos “valores da democracia, da liberdade, do respeito pela lei e pela dignidade das pessoas” que constituem conquistas civilizacionais sem recuo, como fez questão de sublinhar.

 

Quem lhe lançava farpas e a transformava em objecto de sarcasmo teve de procurar outros alvos.

Admirada por quem já a contestou, criticada por quem já a enalteceu, respeitada por quase todos. Poucos duvidam de que é uma das raras dirigentes contemporâneas com lugar garantido nos livros de História.

Uma estadista.

23 comentários em “Uma estadista”

  1. Caro Pedro Correia

    Desta vez, discordo de si.

    Parece-me de mau gosto a pretensão de Merkel de dar lições de democracia aos Estados Unidos e ao seu presidente eleito, como se porventura a eleição deste último fosse uma deriva antidemocrática ou um atropelo à legalidade constitucional norte-americana e não o triunfo máximo da vontade popular em consequência dessa mesma legalidade constitucional, uma vontade popular vezes demais desprezada na Europa e por membros de uma elite alienada da realidade – da qual Merkel é membro proeminente – e que parecem continuar a não aprender nada com as sucessivas lições que lhes têm vindo a ser dadas (“Brexit”, vitória de Trump e o mais que por aí virá).

    Quanto ao resto, se a Alemanha e a Europa são isso – ou ainda são isso – que Merkel afirma serem, em muitíssima boa parte devem-no ao esforço dos… Estados Unidos, nada mais nada menos do que isso.

    1. Caro José Lima: não vi Angela Merkel pretender dar “lições de democracia” a ninguém. Vi-a, isso sim, sublinhar princípios fundamentais do Estado de Direito e da democracia liberal.
      Nunca é de mais recordá-los. Porque por vezes andam muito esquecidos.

    2. Senhor J. Lima:
      A Democracia não se mede apenas pelo formalismo.
      Mussolini e Hitler também foram eleitos democraticamente.
      (Outros ditadores nem se deram e esse luxo, do formalismo, é verdade: Staline e sucedâneos soviéticos, Castro, a dinastia dos Kims, Franco, Salazar, etc.)
      A Democracia não dispensa o formalismo mas vai muito além dele.

      1. Senhor M. Silva

        Mussolini não foi eleito democraticamente, a menos que suponha a Marcha sobre Roma, em 1922, uma marcha eleitoral…

        Quanto ao resto, se bem leu o meu texto – e presumo que sim -, eu escrevi “como se porventura a eleição deste último [Trump] fosse uma deriva antidemocrática ou um atropelo à legalidade constitucional norte-americana”. Portanto, ao sair-se aqui com a falácia da “reductio ad Hitlerum”, V. está apenas a manifestar os mesmos preconceitos ideológicos que inspiraram a desastrosa campanha eleitoral dos apoiantes de Hillary Clinton, pois realisticamente falando nada permita inferir o absurdo de que, com a eleição de Trump, a democracia tenha passado a ser um mero pró-forma nos Estados Unidos.

  2. As pessoas não estão divididas em extrema esquerda (estúpida) e direita democrática (inteligente)
    A política económica que Merkel forçou na zona Euro é catastrófica. Falhou todos os objetivos, criou condições de recessão e humilhou países soberanos, Isto enquanto manifestava bastante ignorância e preconceito sobre o que se passava no terreno (lembra-se da afirmação de que os portugueses tinham férias a mais?).
    Já quanto aos refugiados, teve razão quando se manifestou contra o pensamento dominante.
    Claro que comentadores do estilo Sporting-Benfica, não conseguem compreender que alguém pode estar certo às vezes e errado outras. Tem de estar semprte certo ou sempre errado.

    1. A propósito de “comentadores do estilo Sporting-Benfica”: não tenho ouvido nem lido críticas recentes à chanceler Merkel por parte dos signatários da elegantíssima carta aberta “Seja mal-vinda a Portugal”.
      Hoje, que Merkel dá lições de acolhimento e hospitalidade à Europa inteira (Portugal incluído) e ao próprio mundo, à custa da sua popularidade política interna, esses signatários estão de viola bem guardada no saco.

      1. Não falo por eles porque não os conheço sequer, mas se calhar estão à espera que os defensores acríticos da Dona Merkel reconheçam que a política alemã par a UE está a arrastar a UE para o abismo.

  3. Absolutamente de acordo, Pedro Correia.

    Já tenho discordado por mais que uma vez da Merkel, mas não tenho a mínima dúvida que é a única estadista europeia de perfil e qualidade mundial. Em parte – e isso é assustador – é um indício da degenerescência das elites e da política na Europa.

    1. Viva, Carlos. Temos o costume de só atribuir o rótulo de “estadistas” a governantes que já morreram ou há muito deixaram de ser políticos no activo.
      Em regra, os que estão parecem-nos medíocres. Apenas enaltecemos os que ficaram para trás – esquecendo tantas vezes que à época lhes chamávamos medíocres também.
      Por vezes lembro-me dos políticos da década de 70, todos alvos de críticas duríssimas. Schmidt, Giscard, Wilson, Suárez, Andreotti, Palme. Toda essa geração foi reabilitada: agora os politólogos contemporâneos olham para esses tempos como uma era dourada na história da Europa.

      1. Completamente de acordo. Mas olhando para a actual “leva” de políticos europeus, há algum que considere que no futuro seja reabilitado? Se o Rajoy não estivesse enfiado até à ponta da barba nas escandaleiras de financiamento do PP, talvez – quanto ao resto (França, Reino Unido, Itália) sinceramente não vejo ninguém.

      2. Reforço o post do Pedro Correia e apoio 100% C. Duarte.
        Tenho a suspeita que os tudologos, mais os de estilo camões, adãozinhos e galamistas mostram uma completa incapacidade de relatarem o que se passa e não as predicas dos pastorinhos dos amanhãs que cantam. Rebobinando o filme dos relatos do Trump até agonia.

      1. Não se trata de indelicadeza, trata-se de que, sendo Merkel uma política no ativo, me pareceria adequado colocar uma fotografia dela agora e não uma fotografia dela vinte anos atrás.

  4. Merkel é, pelo menos, a menos má estadista desta Europa pandilha.
    Pena é que esteja no coração da política que empurra o nosso PS para uma dupla obscenidade, rigorosamente simétrica:
    1. pegou Domingues ao colo, menino caprichoso e pequeno ditador, e continua a embalá-lo num berço de ouro;
    2. resiste à exigência do PCP de um aumento de meia dúzia de euros para a reforma de cerca de 200 euros de um milhão de portugueses.
    – Tá justo! – diria um amigo meu.
    João de Brito

    1. um aumento de meia dúzia de euros para a reforma de cerca de 200 euros de um milhão de portugueses

      E essas pessoas precisam verdadeiramente dessa meia dúzia de euros a mais?

      Não é líquido que precisem. A maior parte dos pensionistas com baixas reformas tem outros rendimentos e não é pobre – pelo menos, é isso que demonstram os estudos feitos sobre o assunto.

      Dar mais meia dúzia de euros a quem deles não necessita, e que não descontou para eles, é injusto. É gozar com quem contribui para a Segurança Social.

  5. Aguarda-se alguma evolução do agora enunciado para qundo a filha aparecer lá em casa com o novo namorado, tipo guess who’s coming to dinner.

  6. Vcs são os ‘idiotas’ úteis referidos no corão. Cegos ideológicos sem conexão com a realidade. Já se perguntaram o porque de os países ricos árabes não acolherem um único refugiado. Já se perguntaram o porque de procurarem a Europa e não se diversificarem pelos países próximos e maioria muçulmana. Voltamos ao Libano, que na altura da guerra árabe-Israel foram o único país a acolher refugiados, abriram as portas como bons cristãos, ajudando o próximo… nenhum pais árabe, mesmo os envolvidos no conflito como a Jordania acolheram um só refugiado, foram todos postos a andar dali pra fora… Hipócritas, esgoto humano esta gente.

    Comem-vos a sapo na cabeça a riem-se na vossa cara. O muçulmano a única verdade que aceita é a referida no corão e hadifs, não aceitam nação, costumes, valores que não a da ‘nação’ muçulmana.. Vem com o manual de como vos comer a sopa na cabecinha… é-lhes permitido mentir, tem quatro formas distintas e complementares de mentira, para se protegerem e para avançar a causa islâmica. Quando em minoria, aceitam as regras impostas sobre si, enquanto tentando em números, ao levar parentes e familiares para o estado que os acolheu assim como através da natalidade e sempre na busca de converter adeptos á sua causa, ir aumentando os números dos seus aderentes e praticantes. Isto sempre sobre a doutrina de amizade com os infiéis através da palavra e acções mas nunca através do coração, da verdade.Quando já tem um numero relativo de pessoas no estado em questão começam a fazer reivindicações que vão contra os direitos humanos, como a segregação de géneros, imposição de mesquitas, numa palavra, a aplicação de Sharia. Para terminarem, quando são a maioria de retirar todo e qualquer direito humano reconhecido internacionalmente e a base da civilização ocidental. Muito mais poderia ser dito, mas fica este exemplo do quão idiotas úteis, tipo Angela Merkel, há por ai.

    Pedro

  7. Alguém está a ser mais papista que a própria papisa. Esta aliás até já reconheceu em público, de viva voz, o seu erro na questão da invasão islâmica, vulgo “refugiados/migrantes”.

    Reconheceu a tremenda asneira que cometeu, mais não seja porque já perdeu eleições -ficando em 3º lugar- sempre essa a melhor forma de por políticos a pensar um bocadinho. Definitivamente por ali cheira a fim de ciclo.

    Só mesmo Obama, outro “lame duck”, poderia aparecer na foto com a Sra. Consta que afinal apenas queria dar mais uma voltinha no Air Force one.

  8. Um louca perigosa, inconsciente é provavel que tenha sido ela a colocar um dos pregos mais importantes no caixão da União Europeia.

    Com tiques de tirana não tem problemas em perseguir humoristas turcos que gozam com Erdogan e em aceitar praticamente tudo o que o Sultão quer.

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