Tudo o que se passou no Reino Unido em virtude do Brexit demonstra bem o que é uma democracia a sério. Em primeiro lugar, há que louvar a atitude de David Cameron que, confrontado com o crescimento das posições eurocépticas no seu país, resolveu a questão como se impunha: convocou um referendo e decidiu ouvir o povo. Nesse referendo, batalhou pela permanência, mas admitiu perfeitamente que membros do seu partido, e até do seu governo, estivessem do lado contrário. Que diferença para Portugal em que os partidos parecem unipessoais e não se conhecem posições divergentes nos governos sobre coisa nenhuma.
Confrontado com a derrota, David Cameron fez o que tinha a fazer: demitiu-se. É manifesto que não poderia ser ele a liderar o processo. Mais uma vez é abissal a diferença para com Portugal, em que os governantes não se demitem por razão nenhuma, agarrando-se ao poder como lapas. Guterres foi estrondosamente derrotado num referendo sobre a regionalização e limitou-se a dizer que afinal ia tratar da descentralização.
Saindo David Cameron da liderança, a regra no Reino Unido é que outro membro do partido deve assumir a chefia do governo. O chefe do governo é naturalmente escolhido pelos deputados, que livremente decidiram escolher Theresa May. Mais uma vez uma diferença colossal para Portugal, em que Durão Barroso, que entretanto se converteu de político em actual cherne-man da Goldman Sachs, saiu mas impôs ao país Santana Lopes, tendo todos os deputados apoiado pacificamente essa decisão. O resultado foi o que se sabe, abrindo as portas de par em par para o que se seguiu. No Reino Unido isso nunca sucederia, porque os deputados são eleitos em círculos uninominais, e prestam contas aos seus eleitores, não dependendo da inclusão de um nome pelo líder do partido em listas que os eleitores ignoram.
A nova primeira-ministra, Theresa May, tinha sido uma apoiante do Bremain, mas nem por um momento pôs em causa a escolha do seu povo. Tanto assim que já indicou Boris Johnson, principal figura do Brexit, para Ministro dos Negócios Estrangeiros, mandando iniciar o processo de saída. Que diferença para outros países, onde se repetem referendos até darem a reposta que os eurocratas de Bruxelas desejam. E noutros casos nem sequer se fazem referendos absolutamente nenhuns, como é o caso de Portugal, onde ninguém quer saber o que pensa o seu povo sobre os desmandos a que tem vindo a ser sujeito nesta União.
Os profetas da desgraça em torno da decisão soberana do Reino Unido vão ver todas as suas profecias cair como um castelo de cartas. Não vai haver nenhum colapso económico do Reino Unido, uma vez que se alguém está mal é precisamente o resto da Europa, onde até a banca italiana ameaça colapsar. O Reino Unido não se vai desfazer, porque a Escócia, depois da queda do preço do petróleo, não tem hoje quaisquer condições económicas para ser independente. E mesmo que as tivesse, nunca entraria na União Europeia, uma vez que a Espanha se oporia sempre, já tendo Rajoy declarado que, se o Reino Unido sai, a Escócia também sai. A saída do Reino Unido do desastre que é hoje a União Europeia, com os seus ridículos processos de decisão, incluindo sobre sanções, vai confrontar os restantes povos europeus com um povo que não se rende nem se submete. Desde Churchill que todos na Europa deveriam saber que do outro lado da Mancha é assim.

Não é a democracia que ali é a sério. É o povo. Eles são protestantes, liberais e de linhagem. Nós somos católicos, sindical-socialistas e estamos infestados de tropicalismo parasitário. Além disso temos também João Galamba, o que é mais do que suficiente para tornar qualquer democracia numa paródia absurda.
Senhor L. M. Leitão:
«há que louvar a atitude de David Cameron que, confrontado com o crescimento das posições eurocépticas no seu país, resolveu a questão como se impunha:
Pois, meteu o RU num bom molho de brócolos. E a UE também.
Fosse ele trabalhista e diria o mesmo?
Ou não seria uma decisão completamente irresponsável e populista?
Tentar resolver uma posição pessoal no partido jogando o futuro do país, que corre sérios riscos de desagregação.
«Que diferença para Portugal em que os partidos parecem unipessoais e não se conhecem posições divergentes nos governos sobre coisa nenhuma.»
É isso mesmo, o António Galamba, por exemplo, tem uma coluna semanal no jornal i onde diz do António Costa e do PS o que Maomé não disse do toucinho.
E o Francisco Assis tem presença frequente no Público onde não é nada meigo também.
Quanto aos governos, o ministro Luís Campos e Cunha saiu aos 6 meses em rota de colisão com o tresloucado do 1.º ministro por divergências de política económica.
Nem vale a pena citar outros, pois não?
«Tanto assim que já indicou Boris Johnson, principal figura do Brexit, para Ministro dos Negócios Estrangeiros, mandando iniciar o processo de saída. »
Pôr esta figura exótica como cartão de visita do RU no exterior é, para começar, um mau augúrio sobre a competência da senhora.
Mas veremos, como diz o cego.
«A Escócia … nunca entraria na União Europeia, uma vez que a Espanha se oporia sempre».
Tal como a Eslováquia não entrou.
Quanto às outras profecias, será melhor seguir a máxima do João Pinto (do FCP): prognósticos só depois do jogo.
Que diferença para Portugal em que os partidos parecem unipessoais e não se conhecem posições divergentes nos governos sobre coisa nenhuma.
Isso não me parece verdade. Tanto no PS como no PSD, costuma haver vozes dissonantes. Pelo menos quando esses partidos estão na oposição. Lembremos Rui Rio, Santana Lopes, Manuel Alegre, Henrique Neto, muitos outros.
Confrontado com a derrota, David Cameron fez o que tinha a fazer: demitiu-se.
Discordo. A função de um executivo é executar. Cameron deveria executar as instruções do povo, mesmo discordando delas. Aliás, o que se constata agora é que elas vão ser executadas por outra pessoa, T.May, que também foi a favor do Bremain. May faz o que tem a fazer um chefe de governo: executar. O governo é o poder executivo e tem a obrigação de executar, não de fugir.
A nova primeira-ministra, Theresa May, tinha sido uma apoiante do Bremain, mas nem por um momento pôs em causa a escolha do seu povo. Tanto assim que já indicou Boris Johnson, principal figura do Brexit, para Ministro dos Negócios Estrangeiros, mandando iniciar o processo de saída.
Aquilo que May está a fazer poderia e deveria ter sido feito por Cameron.
Muito bem.
Concordo com (quase) tudo… excepto que não me agrada a ideia dos círculos uninominais, que traz uma bipolarização permanente.
No Titanic europeu, já se percebeu que o maior iceberg é o Deutsche Bank, e o comandante Schauble prepara uma almofada (financeira) para o embate, obviamente feita de penas, sancionando os estados “em dificuldades”.
E que jeito dariam novos resgates, para injectar liquidez, com aumentos das dívidas soberanas.
http://sol.sapo.pt/artigo/516289/-alerta-v ermelho-deutsche-bank-pede-plano-semelha nte-ao-do-lehman-brothers
Mas é claro, as dalilas locais, continuam a prontas para fazer jeitinhos e alinhar na narrativa, dizendo que o mar está calmo, nós é que metemos água, e a Finlândia nem está a afundar, nem nada.
“Guterres foi estrondosamente derrotado num referendo sobre a regionalização e limitou-se” e, mais tarde, demitiu-se sem grande razão.
Subscrevo… quase completamente. 😉
Sobre o papel de Cameron, creio que o Luís reflecte mais a sua veia romântica sobre os acontecimentos que propriamente a realidade da convocação do referendo.
1 – A Europa que conhecemos enquanto União também é a Europa de Winston Churchill, Harold Macmillan, Edward Heath, Margaret Thatcher e John Major;
2 . Confrontado com as pressões da ala eurocéptica de seu próprio partido, Cameron avança com a arma do referendo para levar a UE a ceder a suas exigências;
3 – As razões do referendo colocam-se mais por medida táctica que democrática;
4 – Conclui-se que Cameron usa uma deriva desesperada para manter uma posição no partido que acaba por perder.
Significa esta minha introdução que o seu texto pretende somente ser crítico à política portuguesa e aos personagens que nele reflecte, usando um mau exemplo comparativo.
Completamente de acordo. Não tenho qualquer dúvida de que os profetas da desgraça, da saída do Reino Unido da UE, vão ter um grande amargo de boca quando virem que afinal as más repercussões não se vislumbrarão. Também não tenho dúvidas que se a UE, continuar a mando da Alemanha e da França, tem os dias contados.
Uma lider que nem foi eleita, defende a permanencia na UE e vai liderar o país, nas negociações para ….sair da UE,Mais brilhante que isto? Os que decidiram mudar radicalmente o país(sempre se prevêm maiorias, para isso, de 2/3, mal ?), vai ser feita com uma maioria simples num referendo, baseado, como podemos ver na comparação feita, por mentiras descaradas, é….brilhante; foram todos tratar das suas vidas.
Naõ vale a pena correr ou saltar que a justeza da decisão vai começar a verificar-se dentro de seis meses e durar, durar vários anos; depois falamos, entretanto espero sentado.
Quer queiram quer não, o sistema politico britânico deu 10 a zero no nosso semi presidencialismo, que não é absolutamente nada. Em todas as eleições a taxa de abstenção sobe, e a nossa elite assobia para o lado, com medo de aproximar o vulgar cidadão com o sistema politico. PS, PSD,CDS , PCP E BE, NÃO QUEREM OUVIR O POVO. SÓ SERVIMOS PARA DE 4 EM 4 ANOS, AVALIZAR OS PROVEITOS FINANCEIROS PARA OS PARTIDOS.
DE RESTO, NADA SE REFORMA E MODERNIZA, e depois acham que o Brexit é mau.
HIPOCRISIA.
Não sei se a atitude de David Cameron seja necessariamente de “louvar“. Fico com a ideia de que o principal motivo para que o referendo fosse realizado não passou de uma mera jogada de política partidária para apaziguar alguns dos MPs mais eurocépticos que poderiam causar instablidade no Parlamento, para o PM.
Por outro lado, talvez seja ainda um pouco prematuro considerar que todas as “profecias vão cair como castelos de cartas“, da mesma forma que também algumas dessas profecias sejam um pouco catastrofistas.
A verdade é que o grau de incerteza e de instabilidade que a decisão veio introduzir e as repercussões (negativas, diga-se) que a saída pode ter para o Reino Unido, numa variedade de sectores aqui no RU são ainda desconhecidos e foram pouco ou nada estudados/equacionados, especialmente durante uma campanha trouxe muito pouca elevação para o debate político aqui por estes lados.