
Há muito tempo que acho que estas convulsões em torno da Catalunha, que não há meio de cessarem, demonstram a profunda crise que atinge a monarquia espanhola. Na verdade, é paradoxal que um chefe de Estado vitalício e não eleito venha discursar a dar lições de democracia ao povo catalão, quando o Estado espanhol obriga à prisão ou ao exílio aqueles que o povo elegeu, nem sequer permitindo que um parlamento democrático eleja quem entende para governar o povo que representa.
Deparei, porém, agora com esta notícia de que Filipe VI vai impor a mais alta condecoração da Coroa Espanhola à sua própria filha, que a recebeu com apenas 10 anos de idade. Que há a dizer de um país em que o chefe de Estado condecora a sua filha, ainda uma criança, com uma alta condecoração do Estado, enquanto que os representantes do povo catalão estão na prisão e no exílio por delitos políticos? Depois disto não me admira nada que os catalães queiram ser republicanos.

Exactamente, a macaquear os ridículos, apalhaçados e politicamente cavernícolas britânicos…
JSP
De facto nem todas as tradições, costumes ou requisitos protocolares ligados a uma monarquia serão por estes tempos facilmente explicáveis. Ou aceites por um cidadão-comum que, independentemente das suas ideias (tendo-as) vai sendo tão menos dado ao significado histórico, memorialista, dos gestos, quanto mais fluente se torna na consentida e desejada devassa e medíocre superficialidade em que vive. E gosta.
Não sei se a Constituição espanhola interdita o puro e simples suscitar da questão da forma de Estado, como a nossa – não sei com que má consciência – faz.
Sei que o grupo de gente, tão estremecidamente republicana, que tão desinteressadamente se dedica em democrática alternância (ainda que não exactamente equitativa) à penosíssima tarefa de nos pastorear, nas mais de quatro décadas de exemplar gestão da coisa pública, com que temos dado magníficas lições de probidade ao mundo, distribui entre si rendas, sinecuras, prebendas e favores com já nem mais do que uma muito ténue capa de decoro. Se alguma ainda restar.
Sei que por cá se condecora com republicana solenidade e por feitos de excelência em gestão, gente que acaba envolvida em histórias de esbulho de milhões, com danos perenes para a economia de um país. De todos nós que não integramos esse grupo. Gente que não tinha dez anitos, quando condecorada ou agraciada com qualquer outro “favor”. Gente a quem a noção de dolo não pode ser estranha.
De modo que leio este “post” e, por mim, que seja a menina condecorada. Para os monárquicos terá o valor, o simbolismo, que tiver que ter. E essa função cumprir-se-á. Os republicanos, sendo-lhes isso repugnante para lá do tolerável, actuem como a legalidade lhes permitir. E não consta que essa legalidade lhes aplique mordaças.
Nós, visto o que por cá deixámos instalar, em arrogante impunidade, sob a bandeira do republicanismo e da laicidade, é que não temos qualquer autoridade para o criticar.
Costa
Muito bem.
“E não consta que essa legalidade lhes aplique mordaças.” _la_Corona_(España)
Ai não?
https://es.wikipedia.org/wiki/Injurias_a
Na REPÚBLICA Portuguesa não se prende pessoas por dizerem mal do presidente.
25 de Abril e República sempre. Fascismo e Monarquia nunca mais.
Tristíssima argumentação a sua (é de quem vive em 1917, enfim; em paroxismos de fanatismo bolchevique). A injúria, a calúnia, a difamação, são crimes em qualquer estado minimamente digno desse nome. Pratiquem-se sobre o estado, seus símbolos, instituições e representantes, ou sobre um qualquer cidadão (se a justiça estará à altura de, de facto, proteger este último, essa é outra questão; e também aqui que lições poderemos pretender dar?).
Faça um esforço por pensar (custa, não é acto bem-vindo, porque contra-revolucionário, lá nesses países que você aprecia ou apreciou, mas vale a pena): uma coisa é dizer mal, coisa a que todos felizmente temos direito – embora não nos infalíveis regimes de socialismo científico que o parecem iluminar-, outra bem diferente é injuriar. E experimente fazê-lo pública e notoriamente, quanto ao republicaníssimo estado português, seus simbolos e representantes.
Costa
O Costa parece ter pesadelos com o Estaline todas as noites pois não sei onde é que ele foi buscar “1917”, “bolchevique” e “socialismo científico” ao meu comentário.
Ao defender que se prenda pessoas por “ofenderem” instituições, revela bem os seus tiques autoritários e que se calhar até tem muito mais em comum com o Estaline do que pensa.
Nos EUA o Trump tem sido alvo de críticas pela sua aversão à liberdade de expressão e por querer processar meios de comunicação por não dizerem bem dele. No Estado Espanhol qualquer dia nem um traque se pode dar sob o risco de se “ofender” alguém.
Sabe onde é crime “ofender” instituições ou criticar o chefe de Estado? Na Coreia do Norte. Convido-o a emigrar para lá.
PS: Existe um partido português chamado “Partido Popular Monárquico”, que inclusive já fez alianças com o PSD e o CDS. Apesar de Portugal ser uma república, tolera monárquicos. Não minta.
E onde escrevi eu que em Portugal se não toleram monárquicos? Sendo certo que usar essa palavra – “tolera” (essa e o “apesar”, empregue a propósito de ser Portugal uma república) – já revela, de sua parte, toda uma agenda não propriamente muito democrática; condescendente na melhor hipótese. Você é traído pelas suas palavras.
Quanto a defender eu que se prenda pessoas por ofensa a instituições, essa é uma sua presunção assaz frágil. Um seu tiquezinho autoritário, parece-me, bem coerente com o seu favor de “tolerar” monárquicos (desde que não incomodem muito, suponho), esse de desqualificar liminarmente o opositor.
Mas aplique-se a lei, originada em fontes democraticamente legitimadas e dentro do bom senso (separando-se, desde que não se confundam inaceitavelmente, o que é judicial e o que é político). E se dela se discorda, da lei democraticamente legitimada, promova-se a sua alteração sob idênticos pressupostos. Isso toma o seu tempo, mas – querendo-o o eleitor – faz-se. É tudo.
Eu, pesadelos, não os tenho. Não pela razão que invoca. Mas essa fórmula primária, redutora e maniqueísta que você usa: “25 de Abril e República sempre. Fascismo e Monarquia nunca mais”, é linguagem (e orgulhosamente, creio) de megafone, berrada rua abaixo, apropriada reiteradamente por certa agremiação política para quem Estaline e o bolchevismo integram o sol do mundo e a Coreia do Norte até poderá ser uma democracia. De modo que há legitimidade – tenha paciência – no que escrevi.
Quanto ao mais, esse seu exemplo do traque é, enfim, admitirá (fará esse favor), de duvidoso gosto. Ora se gostos não se discutem, lamentam-se. E, bem vê, se “dado” em público um traque será sempre francamente censurável. Nem são precisas leis para tanto, ou mentalidades repressivas. Basta (deveria bastar) simples boa educação.
Ou será isto um meu tique autocrático?
(E vamos ficar por aqui, ou continuar a abusar da paciência do autor deste “post”?)
Costa
Chapeau, caro Costa !!
Chapeau, caro Costa !!
Fernando Antolin
Muito boa a sua resposta.
Muito bom.
WW
Isto não lhe parece uma argumentação perfeitamente demagógica? A mim parece. Além de esta condecoração ser uma etapa da formação de um futuro monarca — o que está em causa é um regime com regras diferentes e momentos diferentes daqueles que dependem do sufrágio popular e comparar duas coisas perfeitamente distintas não faz sentido nenhum (a saber, comparar uma efeméride de um organismo político com um problema político e constitucional que erradamente teve uma deriva judicial).
Há cegueira que nem os médicos conseguem curar. O fanatismo é um deles. O pretendente da Catalunha mais parece uma criança birrenta que não respeita regras, pq se as conhecesse teria muito mais aceitação.Diz-se – levar a água ao moínho.
As regras são que já existe uma pretendente com direito a ser chefe de estado, tendo neste momento 13 anos de idade. Lá chegará a sua vez, por muito que o povo vote em sentido contrário.
Duarte Lima
Comendador da Ordem do Mérito, por atribuição do Presidente da República Italiana.
2014, Zeinal Bava, Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial
1989, Valentim Loureiro, Comendador da Ordem do Mérito
2007, Hélder Bataglia, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique
2005, Armando Vara, Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
2006, Macário Correia, Grande-Oficial da Ordem do Mérito
http://www.sabado.pt/portugal/politica/d etalhe/foram-condecorados-no-10-de-junho-e-c airam-em-desgraca
“Mais quero um asno que me carregue do que cavalo que me derrube”
Sr. Costa
Parabéns pela excelente comentário.
É natural que tenha atribuído o Tosão de Ouro à Infanta: é uma condecoração que por norma só se atribui a soberanos ou futuros soberanos, salvo casos exepcioniais. O próprio Carlos o Temerário, último Duque da Borgonha (de quem os Reis de Espanha reclamam o título honorífico como seus herdeiros), recebeu-a ainda no berço. E Filipe VI tomou-a com 13 anos. Se há quem seja republicano por causa disto bem pode esperar sentado.
Não sou monárquico, Graças a Deus, mas esta resposta termina de maneira exemplar com uma discussão, em que alguns (eu próprio) não sabiam (a agora sabem) algumas regras sobre esta condecoração.
Filipe VI, a Coroa Espanhola, iniciaram um operação de Relações Públicas.
As sina da menina, tal como a do pai e do avô, e a de todas as famílias reais, gerações atráz de gerações, não tem nada de pessoal.
A Coroa Espanhola terá percebido que a forma de revalidar e aumentar o (tão necessário) poder é (feliz ou infelizmente) a exposição pública.
Mesmo que ostentatória. Mesmo que pura exibição. Afinal o povo tem necessidade de ver e adorar. A exposição pública do Poder. A Raínha trajada a seda, coberta de jóias. A atenção, exibida nas TVs, por Diana aos doentinhos. O quotidiano, nas TVs, dos beijinhos, selfies e abraços … São tudo jogos do Poder.
O problema é como se usa o (constitucional e informal) poder que se tem ou se obtém. Como julgo sugerir LML, veremos o que fará a Coroa Espanhola -com um possívelmente re-adquirido poder- na causa Catalã. Exitem excelentes exemplos de uma decisiva acção política de um Rei espanhol.
Uma atitude correcta, na causa Catalã, poderá ser uma vitória Real, um lindo Tosão de Ouro, que a menina herdará. Esperemos que sim.
O único exemplo que eu conheço foi o 23-F. Do resto não reza a história.