Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos. Os jovens são cada vez mais empurrados para a periferia, tornando o centro da capital um domínio praticamente exclusivo de gente idosa, que quase nem sai à rua e se limita a espreitar o mundo pelo ecrã da televisão ou por um olhar furtivo à janela. Entre os recenseamentos de 1981 e 2001, Lisboa perdeu 20 por cento da sua população fixa. Há ruas onde não mora ninguém. E tudo isto, que devia ser tema de intenso debate público, parece não espantar ninguém. “On s’ habitue, c’est tout”, cantava Jacques Brel numa das suas mais belas canções. É isso mesmo: vamo-nos habituando à invasão do insólito no nosso quotidiano e já não estranhamos rigorosamente nada.Uma cidade roída pela solidão
Pedro Correia,
Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos. Os jovens são cada vez mais empurrados para a periferia, tornando o centro da capital um domínio praticamente exclusivo de gente idosa, que quase nem sai à rua e se limita a espreitar o mundo pelo ecrã da televisão ou por um olhar furtivo à janela. Entre os recenseamentos de 1981 e 2001, Lisboa perdeu 20 por cento da sua população fixa. Há ruas onde não mora ninguém. E tudo isto, que devia ser tema de intenso debate público, parece não espantar ninguém. “On s’ habitue, c’est tout”, cantava Jacques Brel numa das suas mais belas canções. É isso mesmo: vamo-nos habituando à invasão do insólito no nosso quotidiano e já não estranhamos rigorosamente nada.
Não poderia ter melhor “sucessora”.
Hum. Parece-me um comentário para o andar aqui de baixo, João. Mas fica registado à mesma. Com agrado.
Abraço.
“Ne me quitte pas” grita Lisboa, mas ninguém ouve. Incluindo os dirigentes camarários. É pena.
Cumprimentos, Pedro.
É pena, Observador. De facto.
Cumprimentos retribuídos.
Boa cogitação. Aplicável a tantos centros urbanos. E grande invocação musical, completamente a propósito. “On oublie rien de rien. On s’habitue, c’est tout”. Claro, esquecidos mesmo são os que ficaram. Concluo que a raça humana é de uma assombrosa resistência. E tb de uma ingratidão sem limites. (Pois, já sabíamos).
Pois, Laura. O problema não se circunscreve a Lisboa. Mas por cá ganha uma dimensão maior e ainda mais evidente. E ainda mais chocante.
Por mim, não me habituo. Apesar de adorar a canção do Brel.
Claro, a “isto aqui” eu tb não me habituo. Non plus!
(já a outras inúmeras coisas de que o ‘rebélgien’ falava, estou com ele: on s’habitue. C’est la survivance… 🙂
Se há reforma urgente em Portugal é esta: a reabilitação urbana. Que só é possível com uma profunda alteração da lei do arrendamento. Se tudo permanecer na mesma, continuaremos a ver os centros das nossas cidades a definhar, agonizar e morrer.
Essa aí – lei do arrendamento – já estava praticamente pronta para sair do forno, substancialmente alterada. Responsabilização dos locadores pelo estado dos prédios e liberalização das rendas indexadas ao mercado de há 40 e 50 anos. Agora, espero que saia reforçada. Mas, como sempre, estes não são os melhores tempos para uma reforma com esse alcance.
O problema de muitas leis em Portugal, Laura, é não chegarem a sair da gaveta. Ou serem aplicadas de forma deficiente.
Isso é uma história do passado.
Entre 2001 e 2011, de acordo com dados preliminares do último censo já divulgados pelo INE, Lisboa já só perdeu 3% da população.
E eu estou em crer, de facto, que, nestes últimos anos, Lisboa já estará a voltar a ganhar população.
A tendência de perda foi causada pelo baixo preço dos carburantes e pela tragédia do congelamento das rendas. Agora que as carburantes estão caros, já há muito mais gente a querer vir viver para Lisboa do que gente a querer ir para a periferia.
Você contradiz-se a todo o passo, Luís Lavoura. Pelas suas próprias palavras Lisboa “só” perdeu 3% de habitantes nos últimos dez anos, depois de ter perdido 20% na década anterior. Ou seja, entre 1991 e 2011 – dados oficiais – Lisboa perdeu cerca de um quarto da sua população. Você chuta isto para canto, dizendo “estar em crer” que a cidade “já estar
a voltar a ganhar população”. Típico “achismo” lusitano.
Mas o melhor mesmo é o remate: na sua opinião as pessoas vivem na periferia porque “querem”. Não percebeu que as pessoas foram literalmente empurradas para a periferia enquanto muitos bairros de Lisboa se transformavam em desertos devido à absurda lei do arrendamento urbano que se mantém em vigor?
A lei do arrendamento é apenas uma das faces do dado, nem sequer da moeda, porque acho (com todo o achismo que me permitir) que o problema é ainda mais complexo.
A lei dos solos incentivou a construção em novo, nas perriferias urbanas, ajudada pelo crédito barato que incentivou a compra.
Por outro lado, houve anos de bolha imobiliária. Muitos proprietários preferem (preferiram?) ter um prédio a cair no centro de Lisboa, à espera de uma oferta de compra do que investir minimamente na manutenção dos imóveis. Agora esssas ofertas talvez se tornem mais raras, e essa espera menos compensadora.
Devia haver leis de expropriação de predios devolutos ao fim de x anos nos centros urbanos. Não sei como isso funciona actualmente mas parece não funcionar. Muitos estão assim devido a problemas de partilhas, disputas de propriedade etc. A Cidade é que sofre com isso, e por isso deveria poder defender-se. A bem de todos.
A lei dos arrendamentos poderá ajudar um pouco, mas o mal que está feito precisa de mais, acho.
Subscrevo, L. Rodrigues.
Correcto, mas existe muita gente que prefere COMPRAR fora de Lisboa com todos os “luxos” associados, isto é a aspiração central, garagem e claro, ser novo. Isto tudo é preferivel num sitio dormitorio do que sentir o pulso à cidade, arrendando ou até comprando um imovel em Lisboa. Muitos não estão para viver numa casa “velha” sem garagem, nem sem os supostos luxos, ignorando as enormes e interessantes vantagens de se viver em Lisboa, já para não falar de que a grande maioria das casas “velhas” têm melhor isolamento acustico e térmico que as mais modernas. Eu vivo à 11 anos em Lisboa, e garanto que se se procurar bem, existem preços bastante razoaveis, que até podem ser rentabilizados na proximidade do Local de trabalho e comercio.
PS: tive que ignorar a correcção ortografica porque estou no telemovel, as minhas desculpas.
Devo reconhecer que nos últimos anos bastante se tem feito no campo da reabilitação urbana em Lisboa. Mas o nível de degradação a que se chegou foi de tal maneira elevado que é necessário acelerar essa reabilitação, sob pena de continuarmos a ver edifícios a ruir, como tem acontecido um pouco por todo o lado na cidade. A dinamização do mercado de arrendamento é também essencial. Para fixar jovens na cidade e fomentar a mobilidade social. Portugal é um dos países da Europa com menor mobilidade social precisamente devido à drástica redução do mercado de arrendamento. Nos últimos 20 anos, grande parte da população portuguesa ficou amarrada a hipotecas, endividando-se a níveis muito acima dos seus rendimentos para “comprar” um apartamento – que em muitos casos nunca deixará de ser propriedade do banco.
Esta questão diz-me muito. Infelizmente não tenho muito tempo aqui. Também vi dados do INE, dos resultados preliminares dos censos e, basicamente, parece-me que continuamos a ter razões para nos preocuparmos. É verdade que a perda de população em Lisboa tem vindo a diminuir (-3,4%) [No Porto essa perda foi de -9,7%]. Mas esse resultado tem a ver com o crescimento do número de residentes em freguesias como Lumiar, Marvila, Olivais, Ameixoeira. As freguesias do centro da cidade continuam a perder muita gente e nem são só os bairros históricos, tradicionalmente mais envelhecidos.
Exactamente, Ana. Quanto mais no centro da cidade, maior é o deserto. O que aliás não sucede só em Lisboa: no Porto, por exemplo, passa-se o mesmo. Qualquer política urbanística digna desse nome deve considerar prioritário este combate.