
Cristo Crucificado, de Pablo Picasso (1897)
Ouço com frequência opiniões negativas sobre o ensino das religiões – e da religião cristã em particular. São opiniões que fazem tábua rasa de dois mil anos de história da Humanidade: levadas à letra, conduziriam ao desconhecimento generalizado de uma das nossas bases civilizacionais. A história da pintura, da escultura, da arquitectura e de parte significativa da música ocidental torna-se incompreensível a quem ignora os fundamentos do cristianismo e as inúmeras personagens dos livros da Bíblia.
Isto nada tem a ver com crença — tem a ver com cultura, no sentido mais lato, profundo e nobre do termo.
A ignorância das religiões, em nome do princípio da laicidade levado ao extremo, conduz à incompreensão e à irrelevância até de boa parte dos maiores autores ateus, agnósticos e anticristãos — de Voltaire a Nietzsche.
Leio, de momento, uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx: está cheia de alusões bíblicas, provavelmente ininteligíveis para os apóstolos da “indiferença”, que fogem da religião como o diabo da cruz em vez de procurarem entender a importância da religiosidade e da espiritualidade como parte integrante da condição humana, da criação artística e do pensamento filosófico através de todas as épocas. Incluindo a nossa.
O Moisés, de Miguel Ângelo, a Última Ceia, de Leonardo, a Paixão Segundo São Mateus, de Bach, as catedrais de Chartres ou de Brasília (esta criada pelo ateu Óscar Niemeyer), para serem devidamente apreciadas enquanto veículos de fruição artística e emanações do melhor da nossa cultura, necessitam de referências que só o conhecimento das religiões (neste caso a religião cristã) proporciona.
Isto vale também, como é óbvio, para a Mesquita Azul de Istambul, o Buda Reclinado de Banguecoque, Machu Picchu ou Angkor Wat.
Ao criticarem o estudo das religiões, os arautos desta tese fazem, no fundo, a apologia da ignorância. Assumi-la em nome da “laicidade” é ainda mais grave. Por constituir uma perversão da genuína laicidade – a que vem expressa nos Evangelhos pela voz de Cristo: «Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»
É uma frase muito antiga — e tão “moderna” como se tivesse sido impressa no jornal desta manhã. Conhecê-la — e saber por que foi proferida e os efeitos devastadores que causou numa concepção teocrática do poder político — ultrapassa em muito o reduto da fé. É um acto de cultura. Da mesma forma que alguém sem o menor conhecimento bíblico é incapaz de interpretar esta extraordinária frase, contida num dos romances de Graham Greene: «Prefiro ter sangue nas mãos do que água como Pilatos.»
Religião também é isto: uma chave para decifrar o mundo, uma pista para descobrirmos novos mundos.
Às vezes longínquos, outras vezes situados muito perto de nós.

O que está a ler, Pedro?
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.
É um texto muito intenso, muito animado, não é? Para lá da análise, parece estarmos a assistir aos factos históricos descritos, como numa espécie de relato ao vivo – tinha boa costela de jornalista, o Marx, há que reconhecê-lo.
Também acabei hoje de navegar em águas “vermelhas”, estive a ler uma “Pequena Antologia do Anarquismo” com textos extremamente interessantes (Stirner, Bakounine, Kropotkine, Proudhon,…) – e tradução num português primoroso.
Os métodos não acompanhavam, mas não há dúvida de que se pensava muito e profundamente nesses tempos revolucionários no mais forte sentido do termo. Aconteceu-me encontrar ideias idênticas, e até expressas de maneira muito semelhante, ao ideário dos mais assanhados Liberais actuais… Coincidência de anseios, está visto, embora não propriamente de motivações. Aos ombros dos gigantes do passado muitos anões do presente se empoleiram, e sempre assim terá sido em todas as épocas.
“O homem só é verdadeiramente livre entre outros homens igualmente livres; e como só é livre a título humano, a escravidão de um só homem na terra, sendo uma ofensa contra o próprio princípio da humanidade, é uma negação da liberdade de todos.
A liberdade de cada um só é, portanto, realizável na igualdade de todos. A realização da liberdade na igualdade de direito e de facto é a justiça.
Não existe senão um só dogma, senão uma só lei, senão uma só base moral para os homens: a liberdade.
Respeitar a liberdade do próximo é o dever; amá-lo, ajudá-lo, servi-lo, é a virtude.”
Ora diga lá se não dava um belo pensamento pascal, mesmo sendo o Bakounine um ateu militante? Mas como dizia o saudoso Papa Francisco, mais vale um ateu sincero do que um crente hipócrita…
Alguns anarquistas da velha guarda escreviam muito bem, é inegável. Munidos de sólido saber clássico.
Deixaram poucos e fraquíssimos discípulos. Os alegados anarquistas actuais limitam-se a rabiscar frases de comício. Lêem pouco e escrevem mal – as duas coisas, aliás, vêm sempre associadas.
A história não pode ser negada nem ignorada. Mal vão os espíritos que o tentam – fogem de si e dela. As religiões fazem parte, são a face de uma das dimensões humanas e que, por bem e por mal, se insufla por dentro das outras. Muito a religião condicionou e condiciona passado e presente.
Bom dia
Assim é, Bea.
Ouço com frequência opiniões negativas sobre o ensino das religiões – e da religião cristã em particular.
Isto provém da “doença das comparações”, uma estratégia argumentativa marxista que contaminou quase todas as formas de raciocínio.
Marx foi grande leitor (e comentador) da Bíblia. Esses idiotas não fazem a menor ideia do que é o cristianismo. Aliás também ignoram o que seja o marxismo, mesmo que se intitulem apóstolos dessa fé.
Nem mais, é isso mesmo. Dedicam-se a odiar ou idolatrar autores, ideologias e crenças de que desconhecem as obras ou conceitos mínimos. É tudo por ouvir dizer ou súmulas de pacote, ou tradição familiar ou ódio de estimação – o que não os impede de se tornarem “divulgadores” das suas ignorâncias.
Gente que opina por “ouvir dizer”, em função do “parece que” e de achismos diversos. Com argumentos que têm a consistência da plasticina.
Sem lerem um livro, sem se informarem sobre coisa nenhuma e mesmo assim emitindo bitaites sobre quase tudo. Formam multidão nas redes digitais.
Epa! E não é que assino por baixo!
Um abraço
Páscoa verde e feliz – passe a redundância.
Santa Páscoa para si e todos os Seus.
era agnóstico até compreender que existe anticlericalismo disfarçado de laicismo.
Agradeço e retribuo.
O Coelhinho da Páscoa estava sentado num banco de jardim, a tentar ler o Manifesto Comunista enquanto enfiava ovos de chocolate em folha de alumínio dourada, quando foi abordado por um jovem de barba cuidada e t-shirt a dizer “Ciência acima de tudo”.
“Ó Coelho, desculpa lá, mas isso que estás a celebrar é um anacronismo institucionalizado”_ disse o jovem, com a autoridade de quem acabou de ver um vídeo de três minutos sobre laicidade no TikTok. — “Não achas que a religião é o ópio dos coelhos?”
O Coelho suspira. Se os coelhos tivessem dedos médios, de certeza que o mundo estaria mais esclarecido.
“Olha aqui, ó génio da lâmpada,” começou o Coelho. “Tu achas que a laicidade é ser-se cego. Para ti, o Moisés do Miguel Ângelo é só um gajo com cornos que precisa de um conselheiro matrimonial e a Mesquita Azul é um problema de humidade nas paredes, não é?”
O jovem tentou intervir, mas o Coelho já estava em modo automático.
“Tu bates no peito a dizer que és ateu graças ao Voltaire, mas se leres o Voltaire sem saber o que é o Antigo Testamento, o gajo parece só um francês mal-disposto com o sistema de esgotos. É como tentares perceber o Padrinho sem saber o que é a Máfia.”
“Dizes que queres o Estado laico, mas se eu te disser que prefiro ter sangue nas patas do que água como Pilatos, ficas a olhar para mim sem saber quem é o Pilatos. Ainda achas que é o gajo que inventou o método de ginástica para as gordinhas do ginásio.”
“O problema não é não acreditares no gajo lá de cima; o problema é não perceberes as piadas que o Nietzsche fazia sobre ele porque nunca abriste o Génesis.”
E foi-se embora, a saltitar, mas com um desprezo intelectual que daria para encher uma catedral. Ou um museu. Coisas que, lá está, o jovem não saberia distinguir.
“Como físico e, portanto, como homem que passou toda a sua vida ao serviço da ciência mais prática, nomeadamente à exploração da matéria, ninguém me vai tomar por um sonhador de olhos postos nas estrelas. Depois de toda a minha exploração do átomo, deixem-me dizer-lhes isto: não existe matéria enquanto tal. Toda a matéria surge e existe apenas em virtude de uma força que faz oscilar as partículas atómicas e as mantém unidas nesse minúsculo sistema solar… devemos supor, por trás desta força, um espírito consciente e inteligente. Este espírito é a origem última da matéria.” – Max Planck, A Natureza da Matéria
Muito a propósito, essa excelente citação.
Totalmente de acordo com o que escreveu, Pedro.
Subscrevo inteiramente: “Isto nada tem a ver com crença – tem a ver com cultura, no sentido mais lato, profundo e nobre do termo.”
E da ignorância nunca nada de bom nasceu, só joio daninho.
Boa Páscoa, renovação da esperança!
Dizia o insuspeito Nietzsche que para ele não havia imagem mais surpreendente e arrebatadora do que a de Cristo crucificado.
Páscoa feliz, Zebra.