Quantos filmes românticos vi ao longo da minha vida? Perdi a conta. A maioria não ficou para a História, nem sequer para a minha história pessoal, mas cumpriu a sua função que foi a de ficcionar o amor, oferecendo-me matéria-prima para os meus sonhos de rapariguinha e mais tarde para as minhas evasões de mulher adulta.
Nesta relação que estabeleci para a vida a realidade também tem o seu papel, que é o de ficar sempre à minha espera, à saída da sala, mesmo a tempo de me levar de volta às minhas rotinas. Creio que a primeira vez que ela não ficou à porta foi há dias, quando fui ver José e Pilar. Neste caso não fazia sentido. Afinal não se tratava de ficção mas do documentário de Miguel Gonçalves Mendes sobre José Saramago e Pilar del Rio.
Não vi beijos ardentes neste filme. O galã é octogenário, tem um rosto duro e uma voz seca, tão seca que até as suas maravilhosas declarações de amor a Pilar soam desajeitadas – “Se tivesse morrido antes de a conhecer morria mais velho do que serei quando chegar a minha hora”, “Eu tenho ideias para romances, ela tem ideias para a vida” – mas no final saí da sala emocionada.
Miguel Gonçalves Mendes combina gravações do casal em registo de reportagem, na intimidade e em público, a cumprir a frenética agenda do Nobel, com imagens estilizadas a servir de suporte aos pensamentos do escritor. Desta montagem arrojada resulta uma obra esteticamente irrepreensível, com o ritmo adequado ao pulsar dos seus protagonistas.
Filmado no período em que escreveu e lançou A Viagem do Elefante, seu penúltimo livro, Saramago assume desde logo como matéria de reflexão o tema da morte, incontornável na sua já avançada idade. O documentário abre com ele em grande plano a despedir-se: “encontramo-nos noutro sítio”. Depressa percebemos que é para Pilar que fala, não para nós.
Foi Saramago que disse um dia que “a nossa única defesa contra a morte é o amor”. Quando vemos José e Pilar expostos nas minudências do quotidiano, placidamente instalados um no outro, percebemos a dimensão desta frase. Percebemos igualmente porque sendo ele ateu, se sai com aquele repto: “Encontramo-nos noutro sítio”. Finalmente, entendemos também porque escolheu o escritor para morada aquela ilha espanhola tão inóspita. Quando Miguel Gonçalves Mendes nos mostra que o casal chamou à vivenda onde morava “a casa”, faz-se luz. Pessimista como era em relação à espécie humana, aquele lar com a envolvente era uma metáfora: o seu refúgio do mundo.
Que bela foi esta história de amor e que cativante era este Saramago apaixonado.
De braço dado com a realidade, desta vez ao sair da sala vi-me em grandes dificuldades para me desligar do filme.


Não vi esse filme nem vou ver, mas não gostei.
Pois, nesse caso faz bem em não ver. Seria uma perda de tempo.
Eu tenho sempre uma enorme dificuldade em desligar de um filme quando gosto dele, não há realidade à porta que me arranque daquele universo de repente. Fico lá durante horas (às vezes dias, já me aconteceu). Ainda não vi este filme-documentário, mas tenciono vê-lo em breve.
Não deixes passar muito tempo, Ana. Receio que saia em breve de cartaz.
Ontem ainda hesitei, mas acabei por escolher o italiano.
🙂
Ainda não vi, mas está nos planos. Acima de tudo pela história de amor, que mesmo vista de fora, soa diferente das outras. Vá lá saber-se o porquê…
Acho que sei porquê, Carla. É que histórias de amor como esta são mesmo diferentes das “outras”, que pelo seu carácter efémero estão num patamar bem mais perto do chão.
obrigado, Teresa.
apetece ver ao ler-te.
Obrigada eu, Luís.
Belíssimo documentário, que já vi também. E belíssimo texto o teu, Teresa. Recomendo este documentário a todos os nossos colegas de blogue, mesmo aos que nunca simpatizaram com Saramago.