Uma cápsula do tempo


Paulo Sousa,

Tudo começou por um pedido de ajuda para limpar um quintal algures em Lisboa.

Noutros tempos, aquele espaço terá pertencido à imensidão das construções abarracadas que compunham parte significativa da área da capital, mas perante a actual pressão urbanística justifica ser recuperado. Aviso de imediato que o propósito do presente postal não é falar sobre especulação imobiliária nem sobre o plano ortopédico-ideológico, feito com os pés e com a cartilha, que o governo anunciou para a habitação.

O referido espaço deixou de ser habitado há várias décadas e, por isso, acabou por se revelar numa espécie de cápsula do tempo. Além dos objectos que ali reencontrei doutros tempos da minha infância, muitos outros são anteriores a isso e, das várias vezes que ali fui, não houve nenhuma em que não tenha sido surpreendido.

Um dos capítulos destas descobertas surgiu quando a limpeza do espaço chegou ao pé de um monte de telhas de barro. O formato é o habitualmente designado como telha tipo “marselha”. Trata-se de uma telha plana que conheço bem. Aqui perto de mim já foram fabricadas milhões delas. A tradição e o conhecimento não se perdeu e na actualidade a CS – Coelho da Silva é a única fábrica de telha da região que sobreviveu e é o maior empregador do concelho de Porto de Mós.

Desde há muito tempo que as reservas de barro existentes no lado norte na EN8, entre a Cumeira de Cima e o Chão da Feira, justificaram que aquele troço de estrada fosse ladeado por inúmeras chaminés com várias dezenas de metros de altura. A temperatura para as cozeduras era conseguida a partir da lenha retirada dos pinhais ali existentes e que, também por isso, estavam sempre limpos de mato, a mão-de-obra era suficiente e barata e a procura alimentava toda aquela cadeia de criação de valor.

Há dias, na conversa com um vizinho meu, já octogenário, ele lembrou que quando era miúdo, criança mesmo, trabalhou numa fábrica a fazer tijolo burro onde tinha a tarefa de, com os próprios dedos, alisar as face dos tijolos. “Com as luvas que a minha mãe me deu”, terminou ele o relato, a sorrir, e com as duas mãos abertas.

A dinâmica industrial aqui criada permitiu que muita gente tenha vivido com ofícios muitos específicos e especializados, como é o exemplo dos construtores de fornos e chaminés que, residindo aqui, eram requisitados por todo o país. À volta da cerâmica dirigida à construção civil, assim como da faiança utilitária e decorativa, criaram-se também algumas empresas de camionagem. Já ouvi relatos de ter havido uma camioneta, ainda a gasogénio, a ir levar telha e tijolo, a trinta, e às vezes a quarenta à hora, pela estrada antiga, Rio Maior, Alcoentre, Alenquer, Vila Franca até Lisboa. E uma vez foram ao Porto.

Mas, regressando à surpresa, no referido espaço encontrei várias telhas tipo “marselha” fabricadas na zona de Lisboa.

Fábrica de Palença

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A Fábrica de Palença localizava-se na margem sul, perto de Almada e, sobre ela, encontrei no blog Almada virtual um postal com informação detalhada e bem interessante.

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Companhia da Fabrica Ceramica Luzitania

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Imagem da face exterior da telha
“Telha Ibérica Sem Rival”

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A Companhia da Fábrica Cerâmica Luzitania existiu na Rua Saraiva de Carvalho, no Bairro de Campo de Ourique. Encontrei no blog Restos de Colecção um postal com fotos e várias imagens relativas a esta fábrica.

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Ceramica Luzitania Sylvain Bessiere

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Pelo que encontrei no já referido postal do blog Restos de Colecção, neste documento dos Cadernos do Arquivo Municipal de Lisboa e neste artigo da publicação municipal “A mensagem” esta fábrica foi fundada em 1890 por Sylvain Bessiere, nos “arredores do matadouro de Picoas, entre a Rua Engenheiro Vieira da Silva, Av. Fontes Pereira de Melo e a Praça José Fontana”. Após o falecimento do seu fundador, foi adquirida pela Companhia da Fábrica Cerâmica Luzitania, que para ali transferiu os seus escritórios. A chaminé do seu forno principal foi preservada e ainda pode ser vista nos jardins do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos. Interessante é também a explicação dada à localização da cerâmica nesta zona. Naqueles terrenos existia barro e a fábrica conseguira o fecho da encomenda para o fornecimento de tijolo para a construção da Praça de Touros do Campo Pequeno.

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Ceramica Dias Coelho

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Sobre esta cerâmica não encontrei qualquer referência na internet. Chamo a atenção à data da telha que na fotografia que ficou debaixo desta: 1911.

Esta Lisboa onde se extraía barro e que o transformava em telha e tijolo de construção, com operários e chaminés a fumegar, é uma Lisboa totalmente diferente da actual. Estas peças são testemunhos desse tempo.

Termino este postal acrescentando apenas que, na sequência desta descoberta, o Museu de Lisboa foi contactado e, por ter considerado de interesse, procedeu à recolha de uma amostra de cada uma das diferentes variedades que ali encontrámos.

30 comentários em “Uma cápsula do tempo”

  1. É muito curioso. Tal como na terra do Paulo Sousa houve em tempos muitas fábricas cerâmicas e atualmente somente subsiste uma, também na terra do meu pai (na Bairrada, região rica em barro, tal como o seu nome afirma) se passa (passou) exatamente a mesma coisa. Quando eu era pequeno havia lá múltiplas fábricas cerâmicas a produzir telha e tijolo, atualmente somente subsistem muito poucas cerâmicas – a maioria a produzir produtos de muito maior valor acrescentado, e frequentemente com matéria-prima importada, já não com o barro da região.

    1. A automatização e a sofisticação tecnológica em geral exige investimentos incomportáveis para muitas das fabriquetas que conseguiam sobreviver no tempo de antigamente.
      Durante muitos anos a fraca competitividade das melhores, raramente suportava custos de transporte que lhes permitissem vender para Espanha. Actualmente, pela excelência do que produzem, exportam para várias continentes.

    2. Já agora, convém acrescentar que a multiplicidade de fábricas de telha e tijolo conduziu a fortes ineficiências na construção civil portuguesa, dado que cada fábrica produzia telhas com dimensões e sistemas de encaixe diferentes e incompatíveis.

      Ainda hoje, quando é preciso substituir telhas desse tempo, o pessoal vê-se à nora para encontrar telhas novas compatíveis com as antigas, cada uma do seu modelo.

    1. No carnaval de Alcobaça havia sempre um fulano que passava a quadra festiva com uma telha de canudo amarrada à cabeça. A explicação era essa. Estava com a telha.

    2. Sim, essa é uma expressão muito popular e frequentemente usada. Só não fica esclarecido o porquê da ligação do sentimento de irritação à telha … e isso seria o interessante.

  2. o propósito do presente postal não é falar sobre especulação imobiliária

    Mas tem alguma ligação.

    Tal como em 1911 havia em Lisboa diversas fábricas cerâmicas que depois desapareceram, em parte porque se tornou demasiadamente caro mantê-las a laborar na capital, também hoje há em Lisboa diversas repartições, universidades e outros serviços que no futuro desaparecerão, porque se tornará demasiadamente caro mantê-los a funcionar na Disneylândia para turistas em que Lisboa se está a transformar.

    1. “…porque se tornou demasiadamente caro mantê-las a laborar na capital…”

      !?
      O que aconteceu foi que os terrenos onde estavam as fábricas valorizaram tanto que valia a pena vendê-los e ir para outro lado. As industrias fizeram um belo dinheiro.

      1. A Caixa Geral de Depósitos tornou-se dona do terreno por falência da Fábrica. Este tipo de industria não tinha condições para se manter a funcionar sem elevados investimentos, além de que as cidades também evoluíram.

      2. os terrenos onde estavam as fábricas valorizaram tanto que valia a pena vendê-los e ir para outro lado

        Sim. Da mesma forma, se o Estado decidisse vender, por exemplo, os terrenos da Cidade Universitária de Lisboa, embolsaria suficiente dinheiro para poder construir uma nova universidade, por exemplo, em Portalegre.

  3. Na minha freguesia, mais ou menos a três quilómetros, também existia uma cerâmica; e da estrada nacional que vai para a Serra de Monchique ainda é possível ver de onde se retirava barro. Tenho uma vaga memória de infância de ir em visita de estudo à cerâmica, e de fazermos tijolinhos.

    Foi abandonada há pelo menos 30 anos. Lembro-me de no Secundário ir lá com colegas de Ciências à procura de regurgitações de corujas-das-torres, pois eles estavam a tentar provar que uma espécie de ratinho, o Rato de Cabrera, também existia na região – como existe.

    Julgo que recentemente houve lá algumas obras e fizeram lá qualquer coisa, mas não sei o quê. Espero que não tenham afugentado as corujas.

    1. Atualmente o país está cheio das ruínas de antigas cerâmicas, que são uma tristeza de observar. Uma das mais evidentes e pungentes situa-se mesmo ao lado da estação de caminho de ferro da Pampilhosa – a cerâmica Progresso da Pampilhosa, atualmente uma triste ruína.

    2. Agradam-me os locais onde se pode encontrar arqueologia industrial, João. E provavelmente alguns dos meus vizinhos, construtores de chaminés, tiveram a mão nessa estrutura. Já todos partiram e com eles perdeu-se o saber construir chaminés, com várias dezenas de metros, pelo seu interior e sem precisar de grua. Uma arte que se perdeu.

      1. É como as casas de taipa na minha zona. Já são poucos os que as sabem fazer. Até entendo que assim seja, mas quando penso na qualidade da construção lá da zona… belas paredes de taipa, é o que é.

        Quando voltar com tempo à terra a ver se descubro que destino foi dado à ruína da cerâmica.

          1. Se tiver sido para isso, mais valia que tivessem deixado as corujas sossegadas. Sempre tratavam dos ratos, e é sempre especial ter a oportunidade de ver uma.

  4. “Aviso de imediato que o propósito do presente postal não é falar sobre especulação imobiliária nem sobre o plano ortopédico-ideológico, feito com os pés com a cartilha, que o governo anunciou para a habitação.”
    Tá bem, então entra as mãos da censura para azular comentários

    1. Estava para fazer um comentário relativo ao que aqui tentou descarregar e que entendi chutar para canto, mas ainda bem que voltou a postar.
      Como o assunto do postal não era o assunto que hoje lhe colocaram como tema do dia, e sobre qual será remunerado, preferi apagar. Mas só depois processei como é que aqui vem um anónimo, replicar o que disse António Costa no debate.
      O dec. lei que aqui veio descarregar é um sound bite tirado ontem da cartola, e sobre o qual lhe recomendo ouvir o Contra-Corrente de hoje.
      Recomendo-lhe por isso que vá lá descarregar copy+past a toque de caixa, para outra freguesia.

  5. Notável post. Permita acrescentar que a FC Luzitania, também forneceu o tijolo vidrado dos paramentos exteriores da vizinha Casa da Moeda

  6. Outras fábricas de tijolos/telhas que desapareceram

    Torres Vedras
    Arganil
    Padrão (Lousã)

    Portugal já teve as suas regiões mais equilibradas do que tem hoje. E era menos macrocéfalo antes do 25 de A.

    1. Recordo-me de vários destes meus vizinhos irem uma temporada para o Fundão (Alcaria) tratar de uma chaminé de uma fábrica. Nas idas e vindas, até se forjou um casamento.

    2. Continua haver necessidade de telhas para casas e agora até há mais casas que em 24 de Z (antes de 24 de A), provavelmente haverá fábricas de maior dimensão e as mais pequenas não sobreviveram.
      A Fábrica Luzitana, junto do Campo Pequeno-Lisboa, agora a CGD, não poderia laborar junto daquele aglomerado de prédios que foram “crescendo”, e muito tempo laborou paredes meias com o Bairro Social do Arco Cego.

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