Uma bofetada na justiça portuguesa


Pedro Correia,

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A nossa memória colectiva é frágil. Muitos já esqueceram aquele tempo em que meio país andava rendido a Rendeiro, prestando-lhe tributo e vassalagem. Bonzos da opinião mediática e sumidades da alta-roda social sucumbiram ao charme discreto do fundador do Banco Privado Português – entidade que se especializou a gerir grandes fortunas. Chamavam-lhe “o banqueiro dos ricos”.

Rezam as crónicas que o lisboeta João Manuel Oliveira Rendeiro, 69 anos, nasceu em família de classe média oriunda de Aveiro. Licenciado em Economia na capital e doutorado no Reino Unido, fundou o BPP em 1996. O país, governado por António Guterres, atravessava um ciclo de ilusória prosperidade, culminado na Expo-98 e encerrado com o Euro-2004. Em pano de fundo, a nossa adesão ao sistema monetário europeu. Não faltaram compatriotas a imaginar que, por feitiçaria financeira, passaríamos a ter salários à moda da Alemanha.

À frente do BPP, Rendeiro foi um eficaz gestor de ilusões. Reservando o essencial dessa eficácia em proveito próprio: durante anos terá amealhado mais de 21 milhões de euros numa offshore com sede nas selectas Ilhas Virgens onde flutua a bandeira britânica. O esquema durou até deflagrar a gigantesca crise financeira de 2008: sem liquidez para satisfazer a clientela acumulada, o BPP entrou em colapso no final desse ano. Viria a ser extinto em 2010.

A falência deu origem a uma profusão de queixas-crime, com a demora do costume entre nós. Um desses processos, em que o antigo banqueiro foi condenado a cinco anos e oito meses de pena de prisão efectiva por falsidade informática e falsidade de documentos, chegou há pouco ao fim, já sem recurso. Mas não houve detenção imediata, como nos filmes: Rendeiro tratou de fugir, aproveitando-se da extrema tolerância da nossa magistratura, incapaz até de lhe apreender o passaporte, e da inacreditável lentidão da burocracia responsável pela execução de penas.

A ministra da Justiça reagiu com um dos suaves eufemismos a que nos habituou, admitindo haver “desconforto social”. A juíza de primeira instância que noutro processo o condenou a dez anos de prisão por fraude fiscal confessa que não detectara nele “qualquer indício de que tencionava empreender a fuga agora concretizada”. Rendeiro beneficiava da medida de coacção mais ligeira – a do termo de identidade e residência. Mesmo nunca tendo pago as coimas a que fora condenado em processos anteriores, movidos pelos reguladores financeiros.

Algures onde se refugiou, diz agir “em legítima defesa” e recusa figurar como “bode expiatório do sistema financeiro nacional”. Por outras palavras: não está disposto a pagar pelos graves ilícitos que cometeu. Dando uma sonora bofetada na justiça portuguesa. Alimentando a fogueira do populismo à solta nas redes sociais. E tornando tristemente irónicas as palavras do Presidente da República, que neste 5 de Outubro exigiu um país “mais rico, mais inclusivo e mais justo”.

 

Texto publicado no semanário Novo

58 comentários em “Uma bofetada na justiça portuguesa”

  1. Já que o citas – e ainda que não fazendo do Presidente da República um “bode espiatório”, nas militantes palavras de um consagrado administrador não-executivo socratista – foi interessante ver como durante a recente entrevista final de Miguel Sousa Tavares o presidente Sousa, sempre de verve tão lesta, titubeou, até deambulando em registo de divagação, quando questionado sobre a situação da justiça. Foi lesto a sair das cordas, mas que se atrapalhou ai ísso atrapalhou-se

  2. Ainda o mais ridículo é quando deixam as obras de arte arrestadas, inocentemente e estupidamente à guarda da mulher… , nem dá para acreditar.

    1. Ninguém é assim tão ingénuo.
      Como o caso do roubo das jóias da Coroa Real Portuguesa, na Holanda.
      País (correcção: protectorado) de gente mansa e ingénua que docilmente se entrega à ruina e continua a votar em mais do mesmo.

    2. A mulher nem para guardar um quadros serve não admira ter-se pirado para Asia onde Elas são mais competentes.

  3. Celebra-se hoje a visita que a Senhora de Fátima fez a Portugal. Esta data alude também ao milagre do Sol, precisamente para nos recordar que há muito neste país se procura tapar o Sol com a peneira.
    A visita da Senhora contém um pedido de conversão: Rendeiro já se converteu, resta agora esperar que os políticos e a justiça façam o mesmo.

  4. O delito de ornamento continua com velhas caras de podre sistema, travestidas com novas roupagens e mais ídolos contrafeitos em vão de escada.

  5. Faltou ao Rendeiro citar o actual presidente da AR.

    A prova de que este país não sairá da cepa torta é a reacção a este caso; ao invés de se responsabilizar os envolvidos (o juíz totó, ou os burocratas), pede-se “mais legislação”.

        1. ***Newsflash*** (FakeNews)
          ***A CMTV emitiu uma reportagem em que entrevistou dois guardas da PSP-Covid que o interceptaram e que garantiram que o Rendeiro estava de máscara, respeitava a distância e tinha prova de vacinação e por isso não tinham razões para o autuar***

    1. “Mais um homem honesto que tem que sair de Portugal” Ai nos outros países é diferente? Onde? No paraíso? (Será nalgum paraíso fiscal?).

  6. Resta a pergunta que ninguém faz,,, e o passaporte do DDT? Sabendo-se da demência que invoca, qualquer dia a querer embarcar para Sardenha, vai parar ás Seycheles, just saying…

  7. Não sei porque é que é tanta polémica com a fuga de um corrupto, estão cá tantos à solta e ninguém os prende.
    Nos Panamá papers eram 250 que o expresso tinha prometido divulgar, até hoje, nada.
    Agora nos Pandora papers são milhares de folhas com nomes, descobriram três portugueses mas devem ser nomes falsos de certeza.
    Falando sério, alguém acredita que os quadros poderiam estar à guarda da mulher de um arguido?
    E alguém acredita que se os quadros fossem verdadeiros estavam lá este tempo todo?
    Socorro, tirem-me deste filme.

  8. Esta finta à Justiça, lembra-me uma outra passada há uns anos, mais pitoresca.
    Lembram-se do Palito?
    Andou por montes e vales a dar baile a todas as forças policiais, tendo sido aplaudido pela populaça aquando da sua captura.
    Tal aplauso reflecte o apreço que o povo tem pela justiça, que pela sua ineficácia acaba por ver glorificar um criminoso, que pela sua ruralidade, e por não ter passaporte, acabou atrás das grades.
    E o Rendeiro?
    O baile neste caso foi de gala, a nossa Justiça alvo de chacota mais uma vez, com Lady Rendeiro a trapacear obras de arte de que é fiel depositária, provavelmente para ganhar mais uns trocos para se juntar ao esposo (que duvido torne a pôr cá os pés).
    Tudo isto “a causar algum desconforto” à nossa Magistratura.
    Carlos Arnaut

  9. “A Grécia e a Irlanda têm problemas com os bancos, o problema de Portugal não está nos bancos que são sérios, seguros e confiáveis, está no número desmesurado de funcionários públicos e nos gastos do Estado, e no facto de os portugueses comprarem muitas televisões de plasma a crédito.”
    As vezes que se ouviu isto. Parece que afinal havia uns problemazitos nos bancos.

      1. E jornalistas e comentadores políticos ceguetas que estudaram em 2008 com muito cuidado a situação económica e não se apreceberam que os bancos estavam falidos.
        Ou foram coniventes com os bancos, ou são falsos especialistas que se apresentam como jornalistas para dar bitaites sem saber do que falaram, ou são tão burros que tinham as provas e interpertaram-nas ao contrário.
        O que não há dúvida é que vergonha não lhes falta. Nunca se ouviu uma explicação daquelas almas para as afirmações que fizeram.

        1. Um anónimo, de identidade oculta e face embuçada, aparecer aqui a falar da “falta de vergonha” de outros, seja a propósito de que tema for, dá-me sempre alguma vontade de rir.

  10. Mais uma vez vou “por o dedo na ferida”. “Uma bofetada na justiça portuguesa” e outra na comunicação social.

    Como sabe, nunca haverá “desconforto social” em relação ao que os media censuram. Ou seja o “desconforto social” não depende apenas do que acontece, mas também do que os media querem que seja do nosso conhecimento, a não ser que não possam/consigam “ocultar”.

    Estes assuntos que mexem com dinheiro são sensacionalistas pois alguns dos que comentam gostam tanto dele, como os visados nos assuntos.

    E os sistemas fechados sempre foram um problema.

    Também o Presidente da República eleito democraticamente, que diz que não comenta o que acontece noutro poder (temos um Estado dentro do Estado), vem agora dizer que quer um país “mais rico, mais inclusivo e mais justo”. Faltou dizer com mais transparência, mais responsabilização dos poderes, sem censura e onde a voz dos mais fracos são seja abafada pelos media que se mascaram de nossos protectores mas depois manipulam. O que seria de nós sem eles?

  11. Este fez pela vida com as oportunidades que lhe deram, apenas e só. Se é criminoso? Sem dúvida alguma, pois está condenado sem hipótese de recurso, pelo que só engana quem quiser ser enganado. O que preocupa são todos os outros que por aí andam, muitos deles sem nós sequer suspeitarmos quem são. Veja-se a famosa lista de avençados do BES que iria ser divulgada pelo Expresso, honorável membro incorrupto do consórcio de jornalistas, alguém a viu por aí? Claramente que o polvo está em todo o lado, nós é que preferimos assobiar para o lado e pensar que vivemos num país evoluído.

  12. Pois a gigantesca crise financeira de 2008, afinal !!
    E o Cotrim de Figueiredo calado e a passar pelos intervalos da chuva.

  13. O «populismo» tornou-se o refúgio sanitário do lixo legislativo e processual que os paladinos da liberdade e da legalidade que cuida que esta seja padrão de corrupção, nepotismo e geral tolerância à ofensa de valores, seguramente burgueses.

  14. Conhecem aquele concurso “JOKER” da RTP1?
    Vou sugerir ao intelectualoide que elabora as perguntas para os concorrentes que coloque aos mesmos a seguinte, mas para os 75.000,00 €.
    Pergunta: Onde está João Rendeiro?
    Respostas: 1 – Está no caralho; 2 – Está em Cú de Judas; 3 – Está perto; 4- Está longe.

        1. A sério? Não consigo acreditar completamente que este tipo de criaturas seja real e que, por exemplo, saibam escrever. Podiam muito bem ser só bonecos na TV e isto ser tudo inventado só para entreter o pagode, sendo que o pagode, na verdade, também é uma ficção.

    1. Abre a pestana estão todos feitos, come tudo da mesma panela, assaltam uma loja no Colombo e ninguém intercepta o bandido, nem a malta da central de segurança dá como suspeito um gajo entrar de capacete no centro comercial. Jovens Franceses agridem o jovem português com o desfecho conhecido e só um dos agressores fica preso, no Algarve jovens Ingleses agridem GNRs e deixam-nos sair do pais para Inglaterra sem problemas.
      Estes juízes e toda esta gente da política de qualquer partido sem excepção e todos os oportunistas que andam a gamar a letra grande são uma treta e não são dignos representantes de um país democrático. Portugal não pode ser uma anarquia!

      Luís Santos

  15. A Dna. Maria de Jesus mostrou ser tão empreendedora como o esposo, trocou as obras de arte valiosas, por quadros do menino da lágrima.

  16. Puseram a raposa a guardar o galinheiro e agora dizem que as obras foram falsificadas? Isto é de morrer a rir! Só falta porem o Salgado como guarda da reserva de ouro nacional e o Socras como ajudante!

  17. Diz o sábio povo: tão ladrão é o que vai ás uvas, como o que fica ao portão. Neste caso o ministério da justiça ficou ao portão. Não haverá investigações á conta bancária dos ministrados e dos seus mais chegados? é que o ficar ao portão tem preço.

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