Um triunfo do 3D


joaomsandre,

Desde que vi o meu primeiro filme da nova vaga de 3D (Avatar, precisamente aquele que começou a moda) que ainda nenhum filme me tinha convencido do uso dessa tecnologia. Já aqui tinha escrito sobre o assunto com uma queixa acerca desta mania no cinema e não mudo muito ao que disse na altura, mas no fim de semana passado vi o primeiro filme em que o uso de 3D me convenceu: Gravity, de Alfonso Cuarón.

 

A história é simples (quem a quiser saber pode ir ler as sinopses) e o trabalho de actores competente sem ser brilhante. Não é isso que atrai. O que atrai são as imagens e os sons. Primeiro através de uma banda sonora que complementa o som de fundo e se substitui a ele quando o som está ausente (estamos a falar de uma correcta representação do som no espaço). Os efeitos sonoros são também brilhantes pela sua ausência (a forma como o som desaparece quando subitamente uma porta se abre para o espaço) e pela sua subtileza (a condução de sons através das roupas dos astronautas, dos instrumentos usados ou das estruturas existentes.

 

Depois há a imagem. Nesta representação do espaço o constrangimento causado pela baixa luminosidade do 3D é menor, uma vez que os contrastes são fortes (fundos escuros vs luz reflectida pela Terra) e o 3D cumpre uma função fundamental: dar a perspectiva de vertigem e impressionar com as imensas distâncias no espaço. A Terra e o espaço enchem o nosso campo de visão e o 3D mostra-nos a distância dos objectos. Também há momentos em que o 3D nos oferece perspectivas diferentes em simples gestos, como a tentativa de agarrar um objecto que flutuou para longe em gravidade zero (eu tinha referido que para mim este seria um dos usos potencialmente mais interessantes do 3D). O 3D tem por fim uma função e não é alegórico. O filme será talvez também eficaz em 2D, mas é o primeiro que eu vejo e que sinto que perderia quase tudo da experiência sem o 3D.

 

Tal como muitos outros, penso que o final é algo fraco. Compreendo a ideia de do renascimento a ele subjacente, mas creio que seria desnecessária. Quando chegámos aos últimos 10 minutos já o filme valeu o bilhete e marcou lugar na história do cinema. Para mim, vinda a temporada de óscares, há 5 categorias que deveriam estar já entregues ao filme de Cuarón: Montagem de Efeitos Sonoros, Mistura de Som, Banda Sonora Original, Fotografia, e Efeitos Visuais. infelizmente é improvável que isto venha a suceder. Seja como for, a minha recomendação é simples: vão ver este filme.

13 comentários em “Um triunfo do 3D”

  1. Sobre «efeitos “espaciais”»:

    – Não parece haver estrelas neste filme “Gravity”. Ver imagem:
    http://www.wibc.com/news/story.aspx?ID=2059729

    – Desde a “ida à Lua” que a NASA tem problemas em colocar estrelas nas imagens:
    http://www.huffingtonpost.com/2013/06/04/spacewalk-photos-images-astronauts-space_n_3380175.html

    – No tempo da URSS, na primeira tímida saída de Leonov havia estrelas:
    http://claudelafleur.qc.ca/images/Leonov-emerg.jpg
    http://content.time.com/time/specials/2007/article/0,28804,1664897_1664899_1666060,00.html

    Portanto, quando se realiza um filme sobre astronautas não se devem colocar estrelas, porque “estrelas são os actores”.
    Já se fosse um filme sobre cosmonautas, era imprescindível colocá-las…
    Digo eu, ofuscado pelo brilho de tais proezas ilusionistas.

    De qualquer forma, até posso ir ver um filme que se assume como tal.
    A sua descrição aguçou-me a curiosidade.
    Obrigado.

    1. Tem razão, caro da maia, as estrelas não são, regra geral, visíveis na maior parte das imagens do filme que envolvem os “passeios espaciais” com a Terra por baixo. Há no entanto alguns momentos em que são perfeitamente visíveis, especialmente quando a personagem de Bullock olha apeas e só para “cima” e lhe seguimos o olhar. Não sei como será em 2D, mas em 3D há ainda o problema da baixa luminosidade da imagem.

      A história das estrelas é velha de décadas. A explicação mais frequentemente apresentada é a questão da fotografia: numa fotografia com um tempo muito curto de exposição (por causa do brilho vindo da Terra) as estrelas acabam ofuscadas. A olho nu são visíveis (especialmente sem uma atmosfera para lhes reduzir o brilho) mas nas fotografias sê-lo-ão menos. No caso das fotografias da URSS, o tipo de fotografia (e os ajustes) poderiam ser diferentes e ter permitido às estrelas aparecer.

      Há muita gente que usa o argumento da falta de estrelas nas fotografias para defender que o Homem nunca foi à Lua. Normalmente só me dá vontade de lhes dizer que se as fotografias fossem fabricadas que ninguém se esqueceria das estrelas.

      Quanto ao filme em si, penso que as estrelas acabam por se notar pouco. O espaço acaba por ser, para mim, a grande estrela do filme. Há erros, de facto, mas serão menores e podemos ignorá-los em busca de prazer no filme. Espero que goste.

  2. Também já vi o filme. E recomendo-o. Hora e meia de excelente cinema, capaz de nos surpreender. Por aqui passa quase tudo quanto há de essencial: morte, vida, sobrevivência, relações humanas, origem, destino, mundo, espaço, universo, Deus. Um pouco de tudo. Com o mais belo dos cenários sempre diante dos nossos olhos espantados e quase virginais.
    Mas há que vê-lo exactamente como referes: em 3D. Evitar vê-lo sem óculos ou em salas sem projecção adequada para o efeito.

    1. Pedro, juro que quando acabou o filme fiquei a pensar: já?!? Tinha a sensação que o filme ia mais ou menos a meio. O tempo acabou tão depressa que é difícil acreditar. Uma preciosidade quando tantos filmes hoje em dia ultrapassam as duas horas de duração sem qualquer necessidade. Os 3 Hobbit e os dois últimos Harry Potter são puros exemplos de tentar expremer o osso para além do tutano à custa da paciência dos espectadores.

      Só achei desnecessário o final exactamente como foi feito. Compreendi o conceito do renascimento, mas não me encheu as medidas como o resto do filme. Mas passa. Os 80 minutos anteriores foram pura e simplesmente grande cinema.

      1. Estamos de acordo, João. Quanto aos filmes desnecessariamente longos, destinados ao maior consumo de baldes de pipocas. E também quanto à apreciação global sobre este excelente filme de Alfonso Cuarón. Discordamos apenas na leitura da cena final, que para mim está à altura do resto. E mais não digo para não estragar o efeito surpresa aos leitores que ainda não viram ‘Gravidade’.
        Chamo especial atenção para o longo plano-sequência, superior a 10 minutos, que abre o filme. Um virtuosismo técnico que iguala ou supera mesmo outras experiências antológicas do género, com destaque para ‘A Sede do Mal’ (1958), de Orson Welles, e ‘O Jogador’ (1992), de Robert Altman.
        É um filme que vale a pena rever. Uma vez não basta.

    1. Em condições normais eu concordaria. Dá-me de facto dor de cabeça ver aquelas cenas de acção em 3D (especialmente se não nos sentarmos no meio da sala (lateral e verticalmente). Já neste caso não tive problemas, o filme vê-se fantasticamente.

  3. Em IMAX 3D é uma experiência formidável.

    Os longos planos contínuos do Alfonso Cuáron também fazem muito pela estética do filme. Algo que ele já tinha mostrado em 2006 no excelente “Children of Men” (aquela perseguição é formidável). Os primeiros 17 minutos são mesmo de cortar a respiração.

    Pessoalmente, porém, achei o final extraordinário – uma excelente conclusão para um drama pessoal e intimista que, misturado numa história de sobrevivência mais típica, me encheu as medidas. Com uma Sandra Bullock em grande, como nunca a tinha visto (apostamos a nomeação?). A passagem de uma Dr.ª Ryan Stone que só se sente confortável no vazio do espaço para uma Dr.ª Ryan Stone que faz o impossível para regressar é soberba, com uma série de imagens memoráveis.

    Quanto aos prémios técnicos, concordo com alguma pena. Este ano está a ser notável no que a efeitos especiais diz respeito. “Oblivion”, “Pacific Rim”, “Elysium”, “Ender’s Game” (e certamente “The Hobbit”, que está para estrear): num ano normal, qualquer um destes filmes seria um justíssimo vencedor na categoria (aliás, “Ender’s Game” tem cenas em gravidade zero que seriam notáveis se… não tivesse estreado dois meses depois de “Gravity”), mesmo que desta lista apenas um seja, na minha opinião, comparável em termos globais. Enfim, neste ano nem todos serão nomeados. De qualquer forma, e da parte que me toca, já deu para tirar a barriga de miséria daqueles longos anos sem ficção científica decente no cinema.

    1. Gostaria muito de o ter visto em IMAX, mas não havia nenhum por perto de mim (não tinha paciência para fazer 100 km para cada lado para ir ao cinema).

      Em relação aos efeitos visuais, concordo contigo: Pacific Rim e Oblivion foram bastante bons nesse aspecto (ainda não vi Ender’s Game nem Elysium). Ainda assim, até pela forma como foram enquadrados e por não estarem protegidos pela acção (como em Pacific Rim, por exemplo) parece-me que os efeitos de Gravity foram melhores.

      Children of Men foi outro filme fabuloso e totalmente hipnotizante. Gosto imenso de Cuarón, até mesmo so Harry Potter que realizou (que foi o único que me pareceu ser um filme aceitável).

      1. Concordo que os efeitos visuais em “Gravity” sejam melhores – daí dizer que, num ano normal, qualquer um dos outros filmes seria um justo vencedor.

        “Ender’s Game” é um filme sólido que melhora se não se tiver lido o livro (não foi o meu caso); já “Elysium”… bom. Depois de “District 9”, não esperava que o Neill Blomkamp fosse meter água daquela maneira. É deprimente ver a Jodie Foster em modo “comic-book villain” e o Sharlto Coopley a estrebuchar com diálogos pedestres. Enfim, salva-se a Alice Braga e a estética.

        1. Olá João. Só para dizer que vi Ender’s Game e achei fraquinho. As premissas parecem-me disparatadas e o filme mal cozinhado. Creio que o facto de teres lido o livro antes te deve permitido ter compreendido algumas coisas que são totalmente incompreensíveis apenas com o filme. Mesmo que te pareça pior por ter sido mal adaptado (talvez, não sei), a verdade é que com os olhos de alguém que nada sabia sobre a história, o filme não tem pés nem cabeça.

          Seja como for dou-te toda a razão numa coisa: os efeitos especiais estão excelentes. Talvez a única coisa (fora as tatuagens de Ben Kingsley) que merecem ser classificadas dessa forma.

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