Um tipo (que escreve em blogues)


escafandro,

Um tipo coloca no blogue um post que, directamente ou por derivações inesperadas, gera debate aceso na caixa de comentários. Um tipo afadiga-se a tentar responder aos comentários: recolhe e compila dados para suportar as afirmações que fez, alinhava respostas longas que, ainda assim, parecem ficar sempre aquém do objectivo. Um tipo fica cansado e, para piorar as coisas, a azáfama impede-o de congeminar novos posts, quanto mais de os elaborar. Afinal, o dia é composto por um número limitado de horas, algumas têm que ser dedicadas à actividade denominada emprego, menos entusiasmante do que espicaçar concidadãos num blogue mas mais importante para a prosaica questão da sobrevivência diária, um par de outras a deslocações e refeições (e um tipo gosta de comer) e ainda há que responder à necessidade fisiológica de dormir (e um tipo também gosta de dormir sendo que, ao contrário do professor Marcelo, precisa de sete ou – de preferência – oito horas diárias para carburar razoavelmente). Para mais, um tipo gostaria igualmente de reservar algum tempo para ler, ouvir música e ver coisas na televisão (filmes, episódios de séries, óperas, o Federer a tentar vencer os efeitos da idade e a Julia Goerges a tentar dominar a inércia das mamas). Um tipo pergunta-se: e agora? Será melhor fazer uma pausa? É que um tipo até podia entrar nos sites dos jornais, onde sem dificuldade encontraria assunto para mais um post curto, no estilo alfinetada ou desabafo. Podia analisar a entrada no governo do homem da Super Bock, que deixou dry o homem do Canadá, renegado desde o início por empresários do regime e respectivas associações, habituados uns e outras a possuírem controlo quase total sobre o ministério da Economia. Podia ir ver que privilégio absurdo reivindicam hoje os funcionários das empresas públicas de transportes. Podia gozar com a dupla Semedo & Martins, Olhares e Sorrisos Tristes, SA. Podia tentar perceber (e certamente falhar, como Pedro Lino fez anteontem no Económico) o sentido de algumas propostas de António José Seguro. Podia questionar se a expressão mais usada actualmente pelo Partido Comunista, «pacto de agressão», não deveria ser ‘acordificada’ à força (como anda a acontecer aos ‘contatos’ e aos ‘fatos’) e tornar-se «pato de agressão» (caso em que seria conveniente alterá-la para «patos agredidos», com os portugueses – ou, de forma a excluir banqueiros e administradores de várias empresas ex-públicas, o «povo português» – no lugar dos patos). Mas e se, publicado o texto, volta a gerar-se uma polémica na caixa de comentários, obrigando um tipo a afadigar-se novamente em pesquisas e alinhavamento de respostas, do que resultaria, para além de nova subida do nível de stress, pouco tempo para pensar e alinhavar posts sobre assuntos mais interessantes, tais como a Nova Vaga do cinema checo na década de sessenta do século passado, as três mil e quinhentas páginas que o escritor norueguês Karl Ove Knausgaard publicou em pouco mais de dois anos versando os acontecimentos dos seus (dele, Knausgaard) quarenta anos de vida, ou as diferenças (expressas através de fotografias) entre parapeitos de janelas de vários países europeus? Dilemas, dilemas. Um tipo acaba por decidir tirar pelo menos umas horas de pausa e decidir mais tarde. O blogue passará bem sem ele. Um tipo só é importante na própria cabeça.

19 comentários em “Um tipo (que escreve em blogues)”

  1. Eu gostava (gosto) do Álvaro. Um tipo que não arranjou cursos ao domingo nem por equivalência, que quis ser tratado por Álvaro e não por engenheiro ou doutor sem o ser, sem passado nem pinta de jotinha, que (tanto quanto foi dito, que eu não o conheço) trocou uma universidade do Canadá por um lugar de ministro de um ministério mastodôntico (coisa que ao fim deste tempo todo o sr PPC acabou por ter de perceber), coisa para que não tinha experiência nem peso político, mas qualquer outro andaria à nora no lugar dele. E afrontou alguns lobis, o que duvido que o sr da Centralcer, embora com outra tarimba política, vá fazer.

    Não pretendo que perca tempo a responder, só queria deixar mesmo um “bem haja” ao Álvaro. E felicidades.

    1. Eu também gosto do Álvaro, precisamente por essas razões. Em alguns países, seria considerado uma lufada de ar fresco. Por cá, apesar de clamarmos contra a ‘profissionalização’ e hipocrisia dos políticos, foi comido vivo.

      1. Grato pela resposta. E o caso Álvaro irá, por certo, funcionar como “vacina” para outros (poucos) que estivessem eventualmente dispostos a fazer o mesmo.

  2. Já que se fala nele, eu também gostava do Álvaro, era “boa-onda”, fazia-me lembrar o esquilo de olhos esbugalhados da Idade do gelo atrás da avelã. Por falar nisso, qual seria mesmo a avelã do Álvaro…?

    1. Se não me engano, o esquilo chama-se Scrat. A mim, o Álvaro (é um bocadinho cruel escrever isto depois de afirmar – sinceramente – que gosto dele) lembra-me o cientista dos Marretas que até nem tinha olhos. Provavelmente por causa da cara redonda e do optimismo:
      http://www.youtube.com/watch?v=FnblmZdTbYs

      Quanto à avelã (motivação) dele, acho que era mesmo vontade de ajudar. Mas certamente terá outras: talvez os Vancouver Canucks e panquecas com maple syrup…

        1. 🙂 Mas o francês do Delicatessen (que por acaso revi há um par de meses) não se parece fisicamente com o Álvaro.
          Porém, talvez se pareça um pouco com o Scrat, da Idade do Gelo…

          (Não percebo como é possível que os meus colegas que andam a fazer a série das cenas favoritas de filmes ainda não tenham usado esta…)

    1. Yep, mais divertido do que o clip dos Marretas que linkei acima. Mas a genuína falta de pose sempre funcionou mal por cá. E uso “genuína” porque, especialmente em tempos de campanha eleitoral, há quem a procure encenar.

    1. Obrigado, Ana. Se contássemos o número de mulheres que tu (e talvez as outras colaboradoras do Delito) já apelidaram de minha musa… A Goerges nem será a minha tenista preferida.(*) É uma rapariga com um ténis tão inconstante quanto a posição das mamas que, refira-se, ultimamente já ficam mais no sítio; a Nike, que a equipa, deve ter-lhe fornecido soutiens da linha que fornece à Serena Williams. E ainda bem, porque vê-la jogar era-me fisicamente desconfortável. As mamas dela, que são grandotas, eram atiradas para todos os lados, muitas vezes em movimentos rotacionais. A curto, médio ou longo prazo, aquilo ia fazer mal à rapariga. Se até a gravidade basta para ir causando alguns efeitos…
      E, sim, eu vira que ela andou a treinar em Portugal. Mas obrigado na mesma pelo alerta.

      (*) Como poderás constatar no post que linko abaixo, eu era fã da Dementieva mas ela já abandonou e, de momento, não torço claramente por ninguém.
      http://escafandro.blogs.sapo.pt/74312.html


  3. Por outro lado, está candidato ao livro de recordes semanais do Pedro Correia… eh eh!

    Quanto ao Álvaro, já tinha dito nesse post que era um cromo imprescindível na equipa.
    Já alguém dissertou sobre o triunfo dos porcos:
    http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5539163.html
    O que dizer?

    … à saúde do Álvaro!

    1. Eu ainda hei-de ir lá abaixo ao outro post. Preciso é de arranjar duas horas livres para ler tudo o que vocês lá andaram a colocar.

      E, sim, brindemos à saúde do Álvaro – que, de resto, só pode melhorar (governar em tempos de crise sem interesses ocultos não faz bem a ninguém), mesmo que ele regresse às temperaturas negativas de Vancouver durante o Inverno.

  4. Já sinto saudades do Álvaro. Homem às direitas, de cara lavada: de pão-pão, queijo-queijo ; ali não havia lugar a disfarces ou dissimulações e, claro está, com o Álvaro a idiotice do ‘politicamente correcto’ nunca se safava.

  5. pacto de agressão — pato de agressão — pato agressivo — pato que anda à bulha — pato bulhão — bulhão pato

    está calor, que tal umas ameijoas? eu levo a cerveja

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