Um regime sequestrado


Sérgio de Almeida Correia,

O haver "empresas do regime" não é só por si grave. Bom mesmo seria que todas as empresas fossem do regime, já que esse seria um sinal de abertura, inclusão e transparência. Todos os regimes têm os seus homens, as suas empresas, os seus jornais, as suas televisões. Isso é e sempre foi assim.

O problema só começa quando o regime se confunde com alguns homens, com algumas empresas, com alguns jornais e com algumas televisões. Ou se torna propriedade de meia dúzia de luminárias.

A utilização de recursos públicos em benefício próprio, a existência de processos destinados a contornar a norma, a opção por processos que privilegiem amigos, afilhados e sobrinhos, são desvios mais velhos do que o mundo. A história da ascensão e queda de Roma ou a destruição da democracia ateniense também passou por aí.

Mas a democracia, ou melhor, a república sempre encontrou maneira de sem pôr em causa a sua legitimidade e a sua autoridade se livrar dos corpos espúrios,  restabelecendo a confiança dos cidadãos no regime e nas suas instituições.

Aquilo que em cada dia que passa se vê entre nós é que começam a falecer os mecanismos de controlo e de restabelecimento da paz pública. Contar hoje com a Procuradoria-Geral da República, com os tribunais, com a superestrutura do regime começa a ser demasiado problemático. Tardio.

O polvo foi sendo alimentado, cresceu, engordou, ocupou todo o espaço livre do regime. Enquanto isso aconteceu todos acharam piada, fecharam os olhos, assobiaram para o lado. O polvo sorria e sendo grande o desperdício sempre havia alguém que aproveitava as sobras para também ir engordando. Mas ao mesmo tempo que o polvo crescia as paredes do regime tornavam-se mais frágeis, a pressão que o polvo exercia para se acomodar no espaço livre tornou-se cada vez maior. Quem o alimentou esqueceu-se de que à medida que o polvo fosse aumentando de volume menos espaço ficaria para os que o alimentavam e para os que impotentes o viam crescer, antecipando o que aí vinha. As paredes do regime não se fortaleceram à medida que o polvo crescia. Agora o desequilíbrio é evidente. O risco iminente.

E não vale a pena continuar a criticar a promiscuidade deste ou daquele, do poder político ou empresarial, dos interesses, das corporações e dos sindicatos ou ir atirando pazadas de lama para as pás da ventoinha. O polvo sequestrou o regime e os seus actores. Mesmo que não se queira ver isso é impossível deixar de percebê-lo, até nos gestos mais anódinos, gestos que noutra altura não teriam qualquer significado, mas que hoje não podem ser dissociados, mesmo que não se queira, da imagem do regime, das companhias dos Césares e da suas mulheres.

Este país vai ter que dar um passo doloroso se quiser sobreviver, se não quiser ficar eternamente refém do polvo. Agarrar em meia dúzia de facas e começar a cortar-lhe os tentáculos e as ventosas é a única solução. Antes que as paredes do regime rebentem e tudo fique em fanicos. E se para isso for necessário fazer sangue que se faça. Com a gente que temos, que não podemos arranjar outra dentro das paredes onde estamos. E que façam o sangue jorrar às golfadas, até que nem mais uma gota jorre, até o polvo deixar de se mexer.

O regime pode estar sequestrado. Os partidos podem ser apenas as ventosas de alguns tentáculos. Mas a república não poderá continuar a tolerar esta situação por mais tempo.       

Um comentário em “Um regime sequestrado”

  1. Só não digo que subscrevo integralmente o seu post porque o penúltimo parágrafo é muito ‘enigmático’ – pelo menos, para mim. Se um dia destes estiver para aí virado, terei muito interesse em ler a concretização dessa linguagem metafórica.

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