Um pouco mais perto da distopia totalitária


Paulo Sousa,

Na sequência do postal do Pedro Correia sobre a autoproclamada “conquista civilizacional” do governo espanhol, não pude deixar de recordar este excerto do clássico “1984” de Orwell.

“O acto sexual era encarado como uma operação desprovida de importância, vagamente repugnante, como um clister. (…) Havia até organizações como a Liga Juvenil Anti-Sexo, que defendiam o celibato total para ambos os sexos. Todas as crianças deveriam ser engendradas por inseminação artificial (insart, em novilíngua) e educadas em instituições públicas. Winston dava-se conta que ninguém levava esse projecto a sério, mas de certa forma quadrava bem com a ideologia geral do Partido. O Partido estava a tentar extinguir o instinto sexual ou, caso não fosse possível extingui-lo, pelo menos distorcê-lo e conspurcá-lo.”

12 comentários em “Um pouco mais perto da distopia totalitária”

  1. Na fronteira do Brasil, numa zona de aldeias índias dominadas por jesuítas, o sexo era apenas para fins reprodutivos e devia ser extirpado de toda a sensualidade possível. Assim ao meio-dia tocava o sino e era a hora dos casais copularem.
    Não seria a única medida limitativa do individualismo e teve um resultado catastrófico. Ao fim de algumas dezenas de anos a estupidificação era geral e ilustrada por deslocações de quilómetros para ir ouvir um fenómeno: um índio que sabia tocar flauta.
    Esta época negra dos jesuítas, foi objecto de um filme “A Missão”, admirável como cinema mas execrável como relato histórico.

    1. A capacidade de algumas almas em absorver convictamente certas ideologias explica muitos excessos. Se considerarmos que a religião corre na mesma rubrica, entendemos que o passado está condenado a repetir-se. Estas purgas anti-instintos soam a deja vu.

  2. O sexo é individualidade, é ainda uma escolha não feita pelo Estado. Logo tem de ser destruído pelo neo-Marxismo.

      1. Não é. O neo-marxismo é uma evolução do marxismo, de Gramsci até à “cancel culture” mas o neo-liberalismo, nasce ex-novo na segunda metade do séc. XX.
        Acho importante a destrinça porque a confusão é explorada pela esquerda que, a pretexto de algumas propostas do neoliberalismo, ataca todo o liberalismo.

        1. O neo-liberalismo relativamente ao liberalismo clássico tem uma maior preponderância da vertente económica naquilo que propõe, mas visa igualmente a um menor poder do estado e a uma maior liberdade do indivíduo e governar a sua vida. O chamado neo-marxismo é mais gramsciano, propõe uma mudança pelo enfraquecimento das instituições, mas com vista à eliminação dos tresmalhados do destino decidido pelos iluminados. É quase simétrico ao liberalismo.

          1. Tenho uma percepção não oposta mas algo diferente.
            O liberalismo pode ser político e/ou económico enquanto o neoliberalismo é apenas económico.
            O liberalismo aparece no séc. XVIII como oposição ao mercantilismo. O neoliberalismo aparece na segunda metade do séc. XX como oposição ao Keynesianismo.
            Mas a diferença principal é que o neoliberalismo está comprometido com a globalização: livre circulação de capitais estrangeiros, eliminação de pautas ou entraves ao comércio mundial, favorecimento de empresas multinacionais.
            Parece-me equilibrado dizer que o actual liberalismo em Portugal tem pouco de neoliberalismo, maioritariamente defende o liberalismo político e nasceu como reacção ao socialismo “grosso modo” entendido como estatismo (50% ou mais da economia nas mãos do Estado).
            Simplificadamente (muito) o liberalismo nasce com Adam Smith e tem como referências modernas a escola austríaca (Ludwig v. Mises e Friedrich v. Hayek) enquanto no neoliberalismo a referência é Milton Friedman e a escola de Chicago.

            Entendo que se pode ser liberal e não ser neoliberal. O neoliberalismo pode e muitas vezes é perverso. Por exemplo a aposta nas empresas multinacionais sem as defesas do liberalismo político que ignora, pode pôr e está a pôr em causa a própria liberdade. Veja-se o que está a acontecer com as grandes empresas digitais que sistematicamente violam direitos individuais. Pior ainda, a pretexto de justas tributações sobre essas empresas, os Estados estão a adquirir mais poder e esse maior poder vai necessariamente reduzir a liberdade individual.

            P.S.1 – Não estou a tentar polemizar nem a querer “dar uma aula” mas apenas a alertar que a propósito de algumas críticas justificadas ao neoliberalismo, os activistas (a vários níveis e até nas caixas de comentários) atacam o liberalismo e o próprio capitalismo.

            P.S.2 – Um adepto do liberalismo defende um estado forte como regulador mas não interveniente. Ora actualmente, sem aprovação democrática mesmo apesar de alguma reprovação expressa em referendos, a Europa passou do liberalismo da CEE para o globalismo da UE. Não há regulação económica no actual globalismo. A OMC tem a função de facilitar o comércio mundial mas não tem qualquer função reguladora. Como consequência deslocalizam-se produções à custa do ambiente (os 40 supercargueiros poluem mais do que toda a frota automóvel particular) e as questões dos migrantes económicos provocam os problemas que conhecemos e ainda não sabemos resolver.
            Que a extrema-esquerda explore estas questões – e são imensas oportunidades – não é novidade mas a direita (ou apenas os que se assustam com a perda da liberdade) ainda não reagiu a dois fenómenos que são novos e assustadores:
            – A esquerda moderada, os socialistas, aderiram ou deixaram dominar-se pela agenda da extrema-esquerda.
            – O grande capital, as dez maiores fortunas dos EUA, apenas com uma excepção, são hoje de esquerda.

      2. É uma evolução do Marxismo Agora todas as relações humanas são passíveis de serem exploradas pelo Marxismo, não só a classes sociais. Classes sexuais , classes raciais , e todas as classes que podem ser inventadas de modo a que o Marxista tenha outras frentes para ganhar poder aparentando defender os que parecem fracos contra o fortes. Basta você viver no 4ºandar e o seu vizinho no 3ºandar, ao neo-Marxista se julgar que consegue obter poder de um conflito criado, vai transformar um num explorador e o outro num explorado.

  3. Vêm-me à memória “by your command”, “ave, Caesar, morituri te salutant” e também fragmentos da letra de uma canção que rezava assim:
    “Bate certo, chegadinho, bate certo
    Bate certo, chegadinho, sem parar
    Bate certo, chegadinho, bate certo
    Manobra de cu pró ar.”

    Antes a bater certo, antes a saudar Caesar do que a dizer acefalamente “by your command”. Um dia destes ainda renasce nalguns o espírito do Manuel Buiça, cá deste lado da fronteira. E quase de certeza com mais propriedade. Do lado de lá nem sei o que se pode esperar, entre Badajoz e Guernica.

  4. Vem muito a propósito a citação do Orwell, Paulo.
    O que era anedota – ou nos parecia anedota – transforma-se em realidade, plasmada em lei. Com um manancial de interdições, como agora é norma.
    E o aplauso dos basbaques do costume.

    1. O que parecia uma anedota, torna-se todos os dias mais assustador, Pedro.
      Muitas outras passagens do livro merecem ser partilhadas e divulgadas. Depois de as lermos, entendemos melhor o caminho que estamos a levar.

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