Um português imperial


Sérgio de Almeida Correia,

1227927773-kSGI-U3801041129623cWC-528x329@Gazzetta(Foto Gazzetta Motori)

 

A consagração de António Félix da Costa como campeão mundial de Fórmula-E, brilhantemente alcançada na pista do antigo Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, é o culminar de uma carreira construída a pulso, feita de muito esforço, muito trabalho e muita resiliência.

Sem nunca ter tido os apoios milionários que a maioria dos seus adversários usufruiu, com a instabilidade na carreira associada à falta de músculo financeiro que lhe permitiria ter outro impulso e aspirar chegar um dia à Fórmula 1, o jovem piloto de Cascais é hoje notícia nas televisões e jornais por esse mundo fora (Eurosport, BBC Sport, L’Équipe, AutoSprint, Mundo Deportivo, La Tercera, Redgol, The Sun, The Independent).

Depois de um início de carreira no karting e de ter vencido por duas vezes, em 2012 e 2016, o Grande Prémio de Macau, corrida onde só os melhores entre os melhores conseguem impor-se, conquistando a Taça do Mundo FIA de F3, e mostrando a quem tivesse dúvidas todo o seu talento e classe, aos 28 anos conquistou, finalmente, um título mundial de pista entrando para uma restrita galeria de pilotos.

E isso é tanto mais brilhante quanto foi conseguido de forma imperial e com uma condução irrepreensível a duas provas do final do campeonato. Apesar da paragem devido à Covid-19, tendo vencido no início do ano na prova de Marraquexe, Félix da Costa repetiu a vitória por mais duas vezes em Berlim, a que juntou um quarto lugar e, ontem, uma subida ao segundo lugar do pódio, colocando um ponto final na discussão do título deste ano.

Num país que vive de e para o futebol, e para as suas miseráveis discussões e negociatas de milhões, como se tudo o mais em matéria de desporto não existisse, em especial em modalidades onde temos conquistado o reconhecimento internacional e títulos olímpicos, europeus e mundiais (atletismo, judo e remo, por exemplo), sem que esses resultados obtenham a projecção merecida nos jornais, rádios e televisões, é reconfortante ver, e também sinal de esperança, António Félix da Costa cumprir o que prometeu e trazer para Portugal um título máximo da sua modalidade.

O que, aliás, acontece, convém referi-lo, no mesmo fim-de-semana em que Miguel Oliveira obteve a sua melhor classificação de sempre numa prova da categoria rainha do Mundial de Motociclismo, alcançado o sexto lugar no Grande Prémio da República Checa, e um outro piloto português, Filipe Albuquerque, tendo conquistado a pole position para a corrida, venceu de forma categórica as 4 horas de SPA-Francorchamps, segunda vitória consecutiva este ano numa prova a contar para o campeonato European Le Mans Series. 

Não será por falta de bons resultados e de exemplos vindos dos mais jovens, em modalidades tão competitivas a nível internacional, que os portugueses deixarão de ter o estímulo necessário para serem cada vez melhores e procurarem obter iguais resultados noutros planos da sua vida colectiva. Da política à economia, da educação à produtividade no trabalho. Basta serem capazes de a si próprios imporem alguma ética, disciplina, rigor e seriedade no que fazem. A superação e o reconhecimento virão por acréscimo.

4 comentários em “Um português imperial”

  1. Foi de facto um Domingo solarengo para o desporto motorizado tuga.
    Pena que não tenham dado o devido realce a começar pelo “Smart” Mendes, sempre tão farto em elogios a qualquer vencedor de bisca lambida em qualquer Merdaleja de Baixo, e ontem nem piou.
    Deve ter o mesmo asco e desprezo que o guru dele, o Marcelfie, tem ás modalidades com motor.
    Complexos e maus condutores? Deve ser isso.

  2. O Marcelo já partilhou uma bola com ele?

    Portugal vai fazendo umas coisas no desporto internacional. como noutras áreas. Mas se uma árvore cai e ninguém lá está, não faz barulho.
    Somente por aqui selecções participam em competições internacionais e nem se dignam em passar os jogos em canal aberto.
    Está tudo borrifando.
    País de futebolistas de sofá e Facebook.

  3. O futebol,ainda hoje, tal como no tempo da outra senhora, é o ópio do povo. E os políticos, como todos os parasitas, não fazem mais do que aproveitar a euforia colectiva em redor do futebol para daí retirar vantagem. Vimos talvez o caso mais grave, na loucura do Euro 2004 do qual ainda hoje estamos a pagar a factura de estádios que são autênticos elefantes brancos. Mais recentemente, o circo patético do anuncio da fase final da champions em Lisboa feito em directo com o alto patrocínio presidencial, ficará para a (triste) história. O futebol é um circo e não faltarão palhaços a querer entrar na tenda para aparecer, enquanto houver audiência que sustente os milhões para pagar treinadores e jogadores a peso de ouro.

  4. Ele pertenceu ao programa de pilotos equipa da RedBull, e os dirigentes desta nao viram valor nele para entrar na formula1, nao se pode queixar da falta de dinheiro. E campeao de uma modalidade que nao e abordada pela imprensa desportiva portuguesa

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