Um negócio que está a dar


Sérgio de Almeida Correia,

Um negócio florescente

Primeiro a cidade cresceu. Com as facilidades do cavaquismo e o desapertar de cinto do guterrismo abriram novos concessionários e revendedores e o negócio dos automóveis prosperou.

Entretanto, foram-se construindo prédios e mais prédios; e como a era pertencia aos patos-bravos, permitiu-se que esses mesmos prédios fossem sendo edificados sem garagens. E quando os projectos eram aprovados com garagens a Câmara fechava os olhos e permitia que as unidades fossem desafectadas dos apartamentos que deviam servir e fossem revendidas como unidades autónomas, em regime de propriedade horizontal, ainda que nem uma torneira tivessem. Algumas dessas garagens acabaram transformadas em arrecadações e nelas se entulha tudo menos um automóvel ou um motociclo. De outras vezes, os projectos foram tão bem apreciados pelos “técnicos” que se licenciaram garagens com rampas e pilares que impedem a sua utilização por veículos que tenham dimensão superior à de um “Smart”, como aconteceu ali ao lado do Hospital de Faro. 

A criação de locais de estacionamento automóvel não acompanhou o crescimento da cidade e essa pecha, dizem, é culpa de todos os autarcas que governaram a cidade. Ou seja, de ninguém.

A seguir, como havia necessidade de pôr os carros nalgum lado, os passeios começaram a ser alegremente ocupados e até os próprios agentes de autoridade começaram a estacionar em cima dos passeios. Para que não houvesse dúvidas essa passou a ser a regra mesmo diante do Tribunal de Comarca, não obstante a apenas umas dezenas de metros existir um parque de estacionamento.

Mas um dia apareceu o Eng.º Macário Correia, o tal que vociferava contra as portagens na Via do Infante e que agora que o Governo é cor-de-laranja já as dá como inevitáveis, mais a sua equipa de notáveis. Resolveram limpar os passeios dos automóveis que neles estacionavam. E fizeram muito bem. Porém, não se lembraram de encontrar soluções para um problema que se agravava diariamente. O do estacionamento. No seu afã permitiram que se acabasse com as poucas soluções viáveis, como fosse a utilização de logradouros públicos, em cimento, que não servem para nada a não ser para acumular lixo e dejectos caninos, e que sem prejudicar ninguém, com simples marcações no pavimento, podiam ter sido requalificados como parques de estacionamento para os residentes. 

Ao invés, e uma vez que a PSP não dava conta do recado, mostrando-se incapaz de multar e rebocar todos por igual, a Câmara de Faro e a Fagar, empresa municipal, encontraram uma solução mais engenhosa: inundar a cidade de pinos. E foi de tal forma que até os foram colocar à saída de garagens. Pois é, acontece, já não para se disciplinar o estacionamento desordenado, mas certamente para dificultarem as manobras de entrada e saída àqueles felizardos que as têm. Esta seria uma solução possível para se resolver o problema, pois que tendo dificuldade em manobrar o automobilista deixa de usar a viatura, mas duvido que seja a que dê mais votos.

Por seu turno, a PSP vai respondendo às “chamadas” e autua “a pedido”. Um dia os senhores agentes multam da parte da tarde. No outro dia da parte da manhã. As vítimas são sempre as mesmas, isto é, os residentes que estacionam no logradouro e não conseguem meter o carro no elevador. E a 100 metros, numa das principais artérias da cidade, em plena Avenida Calouste Gulbenkian, junto a uma paragem de autocarro, nenhum agente repara que se continua a estacionar alegremente em cima dos passeios. Durante semanas a fio. Até um camião.

Se num dia não muito longínquo os residentes não ganharem para as multas, já que com o estacionamento não haverá esse problema porque em certas zonas de Faro não existe nem sequer a pagar, há duas pessoas que hão-de estar satisfeitas com a obra realizada: Uma é o Eng.º Macário Correia, que tem estacionamento reservado no local de trabalho, não mora em Faro, e um dia, se Deus quiser, há-de se ir embora. A outra pessoa será com toda a certeza o fabricante ou vendedor de pinos que abastece regularmente a cidade.

Passada a época dos semáforos e das rotundas, chegou a maré do tipo dos pinos. Para este não há crise. Há apenas uma autarquia falida e com graves problemas de estrabismo – em razão dos pinos que coloca e que lhe estão a dificultar a visão de conjunto -, que resolveu dar-lhe milhares de euros a ganhar. A ele e à PSP.         

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