Um mistério


jmmcc,

Sobre Raul Solnado, há quem diga isto: «Vivia fascinado pelas formas de cultura ditas superiores, era também um tipo interessado em tudo o que se passava. Esse substrato cultural começa a sentir-se no seu discurso. Coisa que eu depois também fiz à minha maneira». A apreciação é do Herman José e o sublinhado é meu. Ele esqueceu-se de dizer que Solnado nunca precisou de recorrer ao mau gosto, mas não se esqueceu de dizer de si próprio que também fez não-sei-quê que lhe parece bem.

Há gente para quem a planta dos pés foi feita para estar no ar: só se apoiam nos bicos. Herman faz parte dessa gente. É um mistério haver quem ainda os convide a falar.

36 comentários em “Um mistério”

  1. Leio este post, quando acabo de ver o programa da RTP sobre a comédia portuguesa com Bruno Nogueira e Raul Solnado. Ri-me a bom rir com o Hermann dos velhos tempos. Quando tinha humor, era criativo e não se levava demasiado a sério. Hoje, é apenas um convencido. Além de outras tiradas como a que citas, o seu humor reduz-se a palavrões de mau gosto.

  2. Fui fã do Herman . Cá em casa grava-se os programas. Depois acabou-se, entrou na vulgaridade, no mau gosto, no cabotinismo, uma desgraça.

  3. Tudo dito, João. Também fui fã incondicional do Herman, mas a preguiça e a indiferença pelo público que tomaram conta dele já não me convencem. E tenho pena. Raul Solnado era a antítese do estrelato preguiçoso e da piada fácil.

  4. Na verdade, enquanto o Raul Solnado foi sempre igual a si próprio, o Herman é já apenas uma sombra do que foi há muitos anos. Aliás, não deixa de ser curiosa a maneira como ele, repetidamente, se tem insinuado junto dos media para que lhe arranjem ‘emprego’, e a verdade é que o tem conseguido! Quem tem amigos não fica desempregado. Quanto a andar em bicos de pés, deve ser para compensar a falta de visibilidade que já não consegue ter por via do talento.

  5. Nunca me lembro de ver Solnado “fascinado” por formas superiores de cultura.

    Lembro-me sim de ver Herman fascinado pelo que ele (e só ele) considerava “formas superiores de cultura”, que basicamente eram os conselhos de decoração de uma tal de “Dadinha Ribeiro da Cunha” e as músicas do “duo ele e ela”, perante o olhar aprvador dessa forma superior de cultura, a múmia Lili Caneças.

  6. É verdade que o Herman de há uns anos a esta parte “ofuscou-se”. Mas para referência futura, ficam programas como “O Tal Canal” e “Herman Enciclopédia”, sem dúvida dos melhores programas de humor que já se fizeram neste país. Aliás, ainda está para surgir quem faça melhor – não foi o Gato Fedorento, nem me parece que sejam os Contemporâneos.

    Ainda há dias, fui ver (pois aquando da polémica, eu ainda era muito novinho) o famoso sketch da Última Ceia, que tanta polémica deu. É fabuloso. Até se pode argumentar que Herman não fez mais do que adaptar Monty Python, mas mesmo nisso é meritório: adaptar os maiores comediantes de sempre não é fácil, e Herman fê-lo com mestria. Sobretudo para um país como o nosso.

    Eu percebo que não se goste do “Herman actual”. Menorizar a sua carreira por causa do presente já me parece um tanto ou quanto forçado.

    1. John, o homem teve momentos bons no passado, mas há anos que se tornou insuportável. A sorte dele tem uma velha legenda: «Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.» Foi esse o caminho fácil que ele escolheu. Quando lhe damos boa nota “por exclusão de partes” convenhamos que alguma coisa já está mal à partida.

      1. Caro João, repare que eu concordo consigo. O Herman hoje em dia não é sequer uma sombra do que foi. Mas não consigo olhar para a sua carreira como apenas “bons momentos no passado”. Foi mais do que isso, muito mais.

        1. Com isso concordo inteiramente, John. O tal Canal, Humor de Perdição, Casino Royal, Herman Enciclopédia (não sei se estou a esquecer algum) eram programas de um humor genial. Do tempo em que o Herman era um humorista a sério, com respeito pelo público. Mas tudo isso desapareceu quando se transformou num insuportável novo-rico que apresenta talk shows a troco de milhões, num entrevistador insolente e mal educado com os convidados (sobretudo nas entrevistas a estrangeiros, conduzidas de uma forma francamente desagradável para quem não percebe português), numa caricatura de si próprio. Digo-o com pena, porque eu era mesmo uma fã incondicional dele.

          1. Certo. O que apenas prova que nunca devemos ser fãs incondicionais de quem quer que seja. Estou perfeitamente à vontade para dizer isto, porque até sou teu fã incondicional.

          2. Pois dessa não me lembro eu… estava a falar de uma certa guerrilha bairrista assim mais do tipo Lisboa-Porto, logo no meu post de apresentação no Risco… já te lembras?

  7. Imaginem que o Herman morre amanhã….teremos um discurso diferente Percebem é isso que me irrita, porque perfeito não há ninguém

    1. Sei do que fala, porque penso nisso muitas vezes. Pela minha parte, não daria a mais pequena cobertura aos invariáveis epitáfios que ultrapassassem o razoável comedimento.

  8. Pessoalmente não apreciava o Solnado como cómico preferia-o como actor fico triste com o desaparecimento dele.mas o Herman ..é outra guerra… não?

    1. Não sejam ingratos.
      Há muitos anos que o Herman não está bem, mas é grande e há-de dar a volta certamente.
      Vocês vão ser as mesmas pessoas que vão deitar abaixo os Gato Fedorento assim que puderem.

  9. Fiquei menos preocupada agora quando li os últimos comentários. Ao princípio da tarde, sem poder comentar, pensei que só eu tinha estranhado este conjunto de críticas negativas a Herman José. É que eu compreendo algumas das coisas que se escreveram aqui (já outras, como a cor do cabelo…). Herman , de facto, rodeou-se, ao longo dos últimos anos, de uma aura de arrogância e de complexo de superioridade que só o têm prejudicado e aceitou estar à frente de programas de televisão que em nada contribuíram para manter a sua imagem de humorista excepcional.

    Mas é isso exactamente que ele é: um humorista excepcional. As suas crónicas na rádio, nos anos 80 do século passado, que me ensinaram a ver tantas coisas de outro ponto de vista, os programas de televisão que já aqui foram citados, pertencem ao passado. Mas a sua capacidade está lá ainda. A “Hora H”, apesar de não ter tido sucesso em Portugal (mas que ganhou um prémio internacional), tem momentos geniais. A sua vontade de passar o seu saber aos mais novos através, por exemplo, das Produções Fictícias, ajudou a fazer surgir a geração que hoje nos ajuda a entender melhor, porque com inteligência, este nosso país. O humor não é uma coisa fácil de se fazer e se, por vezes, ele caiu no humor fácil, entendido aqui, por exemplo, como a utilização de linguagem mais directa, mesmo do palavrão, foi porque a sua produção era tal que nela cabia de tudo.

    A comparação com Raul Solnado não é feliz (mesmo a que fez o próprio Herman ). Solnado foi um grande actor que sabia fazer, muito bem, comédia. E conseguiu que, mesmo no tempo da censura, os textos, que iam sendo negociados, lá fossem passando, proporcionando, a muitos portugueses, uma hipótese de pensarem para lá do que eram as ideias papagueadas pelas autoridades. Já Herman , pelos temas que abordava, (e no Humor não deve haver tabus) viu, (em plena Democracia?) um programa seu ser suspenso e uma rubrica noutro programa ser censurada porque, supostamente, havia coisas com as quais não se devia brincar. Querem melhor humor do que este?

      1. Com isso concordo plenamente. E o “riquismo” nem precisa de ser novo. Digo mais: disso “não havia necessidade eeezzzzz”. Da maioria das coisas que Herman já nos deu, sim!

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