Um ideal por cumprir


Paulo Sousa,

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Na edição nº2 da revista Crítica XXI, a mais recente na sua ainda curta vida, está disponível um artigo especialmente interessante que me motivou a escrevinhar este postal.

Do autor, Alexandre Franco Sá, conhecia apenas alguns artigos no Observador.  Neste artigo propõe-se tratar de algumas semelhanças e diferenças entre Portugal e o Brasil, por ocasião do segundo centenário da independência deste.

Alexandre Franco Sá avança com a constatação de que “tanto em Portugal quanto no Brasil, o modo como nos imaginamos e representamos não coincide com o que realmente somos e fazemos, com o que desejamos ser ou com o que as circunstâncias nos obrigam a ser.”

Citando Eduardo Lourenço traz à conversa a relação irrealista que Portugal tem consigo mesmo, lembrando que a relação idiossincrática entre a nossa reduzida dimensão geográfica e o imenso impacto das navegações realizadas pelos nossos antepassados, gerou uma representação ficcional de si mesmo. “Não fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação. Contudo, se exceptuarmos talvez a Macedónia e Roma, poucas vezes um povo partindo de tão pouco alcançou um direito tão claro a ser tido por “grande””.

Refere depois o mote do Padre António Vieira, herdado por Pessoa quando diz: “Para nascer, pouca terra: para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”.

Olhando a partir da actualidade para a dimensão dessa ilusão, sugere que daí resultou uma existência doentia avessa à realidade histórica e concreta. Lembra-nos o “medo de existir”, assim designado por José Gil, segundo o qual a prudência coincide com a paralisação marcada por se furtar à realidade. “O medo da inscrição, de afrontar as forças do mundo, o medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português”. E acrescenta que “a leviandade suscitada pela não-inscrição permite que a lei não se cumpra ou que dela se escape, que os programas não se realizem, que não se pense nunca a longo prazo, que as fiscalizações não se façam, que a administração não se transforme realmente, que os projectos de reforma não se executem, que os governos não governem.”

Daqui parte então para o que designa como “Portugal e Brasil entanto imagens invertidas um do outro”. Se Portugal, enquanto pequena nação incapaz de se aceitar como pequena, mas sem se conceber como grande, do Brasil pode dizer-se o oposto. Desde antes da sua independência que o Brasil constitui, sob todos os critérios e não apenas os geográficos, uma grande nação. Grande no seu território, nos seus recursos, mas também nos seus costumes formados pelo cruzamento de etnias de vários continentes assim como pelo espaço de liberdade que logrou construir na relação entre elas. Mas trata-se de uma nação que, estranhamente, por mais que se invoque a si mesma como um “gigante pela própria natureza”, efectivamente recusa-se a sê-lo.

O artigo continua com muitas mais referências históricas e não o irei aqui descarregar. A revista tem outros artigos de interesse e merece que sobre ela seja dispensada alguma atenção.

Foram várias os pensamentos que este artigo desencadeou em mim. Se olharmos para a nossa história recente teremos de concordar com esta nossa incapacidade em lidar com a realidade. Se ouvirmos os nossos responsáveis políticos, e os seus acérrimos defensores nas redes sociais e na imprensa (todos ungidos pela omnisciência) iremos concluir que todas as grandes variáveis que afectam, e afectarão, o nosso dia-a-dia, assim como dos nossos descendentes, estão controladas. Se da tômbola nos sair uma bola favorável, o mérito é do governo imobilista. Se, pelo contrário, for um amargo de boca, então teremos de nos lembrar que outros estão bem pior, e que vendo bem, sem a protecção da tal prudência imobilista tuga, ainda nos arriscaríamos a tudo perder, seja lá o que designam por “tudo”.

Toda a narrativa pretende promover o aparente conforto que apenas quer imitar o homem-estátua da Rua Augusta, até porque qualquer possível reforma nos iria revelar os rigores da realidade. Os junkies mais agarrados à anestesia veneram as vozes públicas que lhes garantam mar chão e vento de feição e irritam-se, e atacam, quem tiver o atrevimento de lembrar o caos dos serviços públicos, que há uma semana não há aulas ou que lembre os números da emigração e da demografia são um sintoma verdadeiramente preocupante. Qualquer voz dissonante da narrativa do “está tudo bem e vai ficar ainda melhor” ou que lembre o jocoso provérbio italiano do “se non è vero, è ben trovato”, é destratada e carimbada de fascista.

Um triste exemplo é a alienação implícita no relatório da IAVE (Instituto de Avaliação Educativa) relativa ao período lectivo que coincide com a pandemia. Segundo a IAVE, ao contrário do que aconteceu no resto do mundo, os alunos portugueses conseguiram melhores resultados em 2022 do que os obtidos em 2019 em quase todos os itens em que foram avaliados. Este espasmo deslaçado da realidade foi engolido pelo vórtice mediático e ninguém se perturbou.

E foi também assim, anestesiados e desligados dos rigores da realidade, que chegamos à “estabilidade” que só uma maioria absoluta pode garantir. A receita assenta no síndrome do cônjuge enganado, que prefere ignorar todas as evidências, combinado com a máxima de que não há impossíveis que um mentiroso não possa prometer.

A “existência doentia avessa à realidade histórica e concreta” em que vivemos encharcados, e a que Alexandre Franco de Sá se refere no artigo, está aí, à vista de todos. Mesmo dos que garantem nada ver.

11 comentários em “Um ideal por cumprir”

  1. fui um dos alunos da Fac ciências de Lisboa que em 51 visitou A. Sérgio na Lapa e a quem dedicou ”Cartas de Problemática”
    o marxismo socialista destruiu a republiqueta nos últimos 50 anos.

    tó costa « 21 nov 2017 — o PR fez-lhe um passe de peito e o pcp sofreu mais uma colhida ‘a las 5 de la tarde’ ‘acta est fabula. plaudite!’ ou ‘finita la rigolada’

    ‘ enquanto estiveres na merda nunca faças pio pio ‘ Millor

    1. Se conheceu pessoalmente António Sérgio, ou mesmo que não o tenha conhecido, recomendo um artigo de Rui Ramos, sobre este intelectual do sec XX, nesta mesma revista.

  2. O ser pequeno ou grande não faz muita diferença, Portugal já deu muito ao mundo , apesar da sua reduzida população e território.
    Agora os portugueses hoje em dia, fazerem-se grandes, não sei como, especialmente quando a maioria dos indicadores revelam o contrário.
    Aliás a decadência começa quando o absolutismo (maioria) se impõe no tempo do Marquês de Pombal e do Rei D.José I e as cortes raramente se reúnem, e no mesmo período com a expulsão dos jesuítas, que eram aqueles que promoviam o ensino.
    Tal com hoje, maiorias, ensino fraco, desprezo pelos valores, só dá numa coisa, um país cada vez mais pobre.
    O Brasil é o que se vê, está escrito na sua bandeira ” ordem e progresso”, mas eu diria, ordem é progresso, mas parece que a maioria dos brasileiros quer desordem e retrocesso.

    1. Já há muito tempo, nas Conferências do Casino, Antero de Quental dissertou sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Os motivos são vários, mas duradouros. O que aqui referi será apenas um de vários ângulos com que podemos observar isto.

      1. As Cortes eram o que de mais parecido havia com um parlamento, onde diferentes pontos de vista entravam em debate. A abundância das receitas permitia satisfazer as clientelas e assim, unidirectionalmente, pouco a pouco, o declínio tornou-se inevitável. É a armadilha do excesso de recursos.

  3. A obra fundamental A Riqueza das Nações deveria estar sempre acessível,não só online,em qualquer biblioteca. Ler e reler.Ainda alerta para algumas questões actuais. Não por acaso era a obra sobre que Marx trabalhava ao ir compondo o Kapital.Ele o disse.
    A reedição da mesma seria obra meritória,a da Gulbenkian só estava prometida on line.
    Crítica XXI poderia talvez tentá-lo.

    1. A assinatura da Crítica XXI incluí quatro livros que serão publicados ao longo do ano. Ainda só foi enviado o primeiro e não é esse. Seria interessante. Aguardemos.

      1. Sei,obrigado,assinei.
        Mas Adam Smith é o alicerce,fundamental e julgo ter ainda muito a ensinar ou retificar a liberais de agora ou assim assumidos.
        Cumps.
        jjpires

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