O futuro irá sem dúvida canonizar Nelson Mandela e será impossível dizer que outros o merecem mais. Mandela será um símbolo, um herói. O pai do seu povo, como lhe chamou Zuma. Será alcandorado a gigante e ganhará uma imagem essencialmente mística, de ser infalível que guiou todo um país para se tornar um povo.
Mandela era no entanto um homem. Como todos os homens tinha dúvidas e defeitos. Cometeu erros e alienou pessoas que lhe eram queridas. Mudou de direcção a meio da sua vida e procurou a paz no final dela. Quando fraquejou, quando lhe faltou a coragem, recorreu ao poema que hoje será repetido por todo o mundo. Palavras belas, sem dúvida, mas não eram dele, de Mandela. Eram para ele.
Porque Mandela não era um homem de palavras, era um homem de gestos. Foi um homem que aprendeu afrikaans para melhor entender o seu adversário e também para melhorar a sua vida na prisão. Vestiu uma camisola dos Springboks, deu-lhes todo o apoio possível e em troca disse-lhes que cantassem um hino que lhes era estranho. Também lhes pediu apenas o impossível, algo que os jogadores, a ele, não lhe puderam negar. Pediu a um país dividido por cor, por classe e por língua que se lembrasse do mal do passado e perdoasse e pedisse perdão por ele.
Mandela pediu tudo isto porque também o fez. Viveu o mal dos outros e o seu e perdou e perdoou-se a si mesmo. Viveu aquilo que defendeu, nunca do alto de um púlpito mas na rua, na prisão, nos bairros. Mandela liderou sem palavras e sem ser uma espécie de rei-sol. Não foi Churchill nem de Gaulle. Foi apenas Mandela. Um Homem que será gigante pela sua simples e grandiosa humanidade.

Revejo-me inteiramente neste belo texto, João.
“Madiba”
Combatente da liberdade
Fez a longa caminhada
Do cárcere na mocidade
Até ao final da estrada
Soube unir uma nação
Sob as côres do firmamento
Onde a côr era desunião
Pintou um arco-íris de alento
Por ninguém seja ignorado
Na sua grandeza moral
E que fique uma certeza
Mesmo estando aprisionado
O perdão foi o seu sinal
Sua alma nunca esteve presa.
Na realidade, João, Madiba foi tudo isso que escreve: um homem. Mas um homem que pediu aos outros que fizessem o que ele mesmo fez. E é isto que o distingue do comum dos homens.
Ser este homem é ter consciência que enquanto tal não depende das leis física e da química, que não é um produto da evolução mas um Ser em evolução.
http://www.youtube.com/watch?v=5On8A2llE iQ