Para fazer o seu primeiro filme Gianni di Gregorio acumulou as funções de realizador, co-argumentista e actor principal, rodeou-se de quatro idosas sem experiência profissional – uma tia, uma antiga socialite de 93 anos e duas senhoras que foi buscar a lares de idosos – e propôs-se contar uma história sem história.
Quem decide estrear-se nestas condições não pode acreditar verdadeiramente que vai ser bem sucedido. Por isso, Almoço de 15 de Agosto (no original Pranzo di Ferragosto) é uma experiência feita com a despretensão e ligeireza de quem decidiu arriscar e talvez perder… mas não muito. Afinal os seus custos de produção são baixíssimos e o insucesso de um neófito tolera-se bem, além de que quase não conta para cadastro.
Esta atitude descomprometida percebe-se desde os primeiros minutos, transformando o que poderia não passar de curiosidade benevolente sobre o trabalho de um realizador desconhecido em verdadeiro interesse. Por outras palavras, Gianni di Gregorio consegue sem esforço captar a nossa melhor atenção desde a primeira cena, quando o vemos a ler para a mãe adormecer Os Três Mosqueteiros.
A inversão de papéis neste episódio diz-nos alguma coisa sobre o tom de Almoço de 15 de Agosto, mas é sobretudo a atitude dos actores que nos passa a informação essencial: ele conformado com o papel de ama-seca, ela ciosa dos mimos do filho. Podia ser triste, mas esta cena, como todas as outras de um filme que nos fala do abandono, carência e fragilidade dos velhos, é resgatada da narrativa deprimente que sempre acompanha esta temática com uma frescura – sim, frescura – surpreendente.
É este o segredo e a beleza de Pranzo di Ferragosto. O parco investimento de Gianni di Gregorio, argumentista de carreira, nesta sua inusitada estreia como realizador teve um retorno que ultrapassou todas as suas expectativas.
Aclamado pelo público e pela crítica, revelação do Festival de Veneza de 2008, este filme, que o seu autor classifica de comédia, mistura humor, ternura e melancolia com uma arte só possível aos mestres ou aos inspirados. A avaliar pelo currículo deste respeitável argumentista de 60 anos, tratou-se de inspiração e, segundo as suas palavras, de uma catarse. Tal como o protagonista desta história também Gianni cuidou da sua mãe e não sendo solteirão, como o seu personagem, também ele cedeu ao amor possessivo da progenitora. Está assim explicado o toque de génio desta pequena pérola italiana, a que Freud não desdenharia assistir. A não perder.


Está em cartaz agora, Teresa? Tem tudo para me levar ao cinema, e ainda um bónus: esta primorosa apresentação que lhe fazes. É o meu género de filme.
Obrigada, Ana. Tenho a certeza de que vais gostar. O filme está em cartaz no King e já estreou há umas semanas, por isso deve estar quase de saída…
Também gostei muito deste filme – uma pequena pérola, ainda em exibição em Lisboa, naturalmente sem o alarde concedido pelos média às ‘grandes estreias’ com selo de Hoillywwod. Como acentuas, é um filme de pequeno orçamento, com um fio de argumento, mas que se vê com imenso prazer devido ao estado de graça dos seus intérpretes e sobretudo devido ao tom que transmite – sem pompa, sem retórica, sem lamúria, sem ‘lições de moral’.
Aplaudo e recomendo.
Pois. Não tem cenas de sexo, nem bang bang, nem gajas boas, nem o selo de Hollywood, logo não tem direito a promoção…
Gajas boas não tem mesmo!
Porque é que o doutor Freud gostaria de ver este filme? Fiquei curioso..
Vá-se lá saber porque me sinto inclinado a seguir a proposta da Teresa… Deve ser para dizer mal a seguir, só pode. É que eu e o cinema europeu sempre tivemos uma relação pouco saudável. (risos)
Mike: Já dei as coordenadas: nada de bang bang, sexo e gajas e boas. Depois não venha reclamar :)))
Mas decerto muitos planos de 20 minutos entre uma garfada e uma frase com a câmara fixa, numa cena típica do maravilhoso e erudito cinema europeu… ai Teresa, já me está a dar a sonolência. (risada)
Eu vou ver mas prepare-se para reclamações. 😉
Arrisco a dizer que quanto a relamações vai ter que metê-las no saco e planos de garfadas com 20 minutos é coisa que não existe ali. O filme, apesar da temática, é “todo para cima”.
odeio filmes europeus porque ele não coisam nem saem de cima. Demoram tanto tempo a coisar como a levar a colher à boca. E nunca têm perseguições de automóveis, que é aquilo que eu mais gosto no cinema a seguir ao sexo.
Ora aí está um comentário edificante. Viva o cinema…
Eh!eh! Quem diz o que pensa não merece castigo.
Não merece mesmo. 🙂
Subscrevo inteiramente a opinião do dita dura. É assim mesmo!
Falta só o “25 centímetros” para o trio maravilha…
Ah!ah!ah! Boa, Ana!
Está a falar do 25 centímetros, a quem eu chamo carinhosamente shorty?
Não tenho paciência para falar de coisas menores.
Eh!eh! Coisas menores não é comigo.