Um erro colossal.


Luís Menezes Leitão,

Em política a mensagem tem que ser muito clara e totalmente credível. Esta mensagem da recandidatura de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD é tudo menos isso. O desenho e o slogan “Social-Democracia sempre” remetem-nos para os tempos iniciais do PPD que, nos idos do PREC, propunha a social-democracia como tímido contraponto ao socialismo, que todos os outros partidos sustentavam. Na altura até o CDS reclamava defender um “socialismo personalista”.

 

O problema é que esta imagem e este slogan fariam sentido numa candidatura de Pacheco Pereira à liderança do PSD. Numa candidatura de Passos Coelho não fazem sentido absolutamente nenhum. Quem andou nos últimos quatro anos a dizer que o actual Estado Social é insustentável e que os contribuintes já não o conseguem suportar, não pode agora andar a proclamar “Social-Democracia sempre” e a recordar os tempos iniciais do PPD. Primeiro, essa recordação só fará sentido para pessoas com mais de 50 anos, já que a todos os outros nada dirá. Depois, se há imagem que Passos Coelho conseguiu construir foi a de alguém realista e que não iludia as dificuldades presentes que o país atravessa. Apresentar uma imagem mirífica de regresso a um tempo em que tudo parecia possível representa uma contradição total, o que só pode confundir os eleitores. E estes estão preocupados é com a realidade muito concreta da situação económica do país, que ameaça desabar a qualquer momento.

 

Por outro lado, o discurso de Passos Coelho também está a ser um desastre em termos políticos. Passos Coelho não consegue sair da amargura de repetir sucessivamente que “não só não governa quem ganhou as eleições como governa quem as perdeu“, o que, sendo a mais pura das verdades, não deixa de representar alguém incapaz de virar a página. Apresentar como principal conteúdo da sua mensagem política o de que “não falhámos” e que “este é o passado com que me apresento” é estar focado no passado e não no presente.

 

Só que o presente não é ser primeiro-ministro, mas líder da oposição. E se no passado Passos Coelho foi um bom primeiro-ministro, não foi seguramente um bom líder da oposição, já que foi incapaz de travar o caminho de Sócrates em direcção à bancarrota, tendo-lhe dado a mão vezes excessivas. É aliás o que está agora outra vez a fazer com António Costa, não se compreendendo como é que alguém pode dizer “não acredito na solução de Governo actual“, para depois ser quem lhe salva o orçamento rectificativo.

 

Passos Coelho começa a parecer-se perigosamente com Al Gore, que venceu o voto popular nas eleições dos Estados Unidos, mas não conseguiu impedir que George W. Bush chegasse à presidência, já que teve mais votos no colégio dos grandes eleitores. Al Gore foi incapaz de seguir em frente, e mesmo depois do colapso da presidência de George W. Bush, com Al Gore ninguém mais contou.

0 comentários em “Um erro colossal.”

  1. A sua reflexão pauta-se por uma questão emocional e pouco racional. Ao pretender chamar a atenção para questões racionais o Luís derrapou e caiu, com outra semântica, no mesmo tipo de discurso.

    A questão substantiva, importa referir, nunca teve que ver com aspectos de natureza ideológica. Quer Passos quer Portas revelaram o que Séneca afirmou: “Quando um homem não sabe a que porto se dirige nenhum vento lhe é favorável”.
    É exactamente a substância desta natureza que continua a revelar-se em Passos Coelho, ele não sabe o que é e o que pretende. Ele foi empurrado para uma governação através da mão de um PR e da mentira eleitoral para acabar fazendo igual e indo mais longe do que Sócrates vinha fazendo com os sucessivos PEC´s.
    Não corresponde à realidade afirmar que Sócrates não estava corrigindo as contas.
    Estes não só não o fizeram como o pouco que foram fazendo também em termos de receitas foi precisamente com o que Sócrates também tinha edificado. Os impostos, as taxas e outras mais eram aplicados sobre património que eles não edificaram.

    Por outro lado, a anterior coligação sempre baseou seus argumentos na pseudo-maioria que tinha atingido, corrigindo mais tarde o termo para “maioria parlamentar”. Significa isto que os pressupostos de sua governação assentavam nos alicerces parlamentares e da Constituição. Mas agora consideram uma vitória o resultado nas urnas e não a maioria parlamentar que antes suportava seu discurso.

    Por último, a anterior governação não governou, deixou-se governar. Portanto, o mérito que o Luís defende é a política do clã inicial, Merkel/Sarokozy, que começou a esboroar-se.

  2. “”não só não governa quem ganhou as eleições como governa quem as perdeu”” Também aconteceu em Timor (com uma Constituição parecida com a nossa) quando Xanana quis correr com a Fretilin do Governo.

  3. “E se no passado Passos Coelho foi um bom primeiro-ministro, não foi seguramente um bom líder da oposição, já que foi incapaz de travar o caminho de Sócrates em direcção à bancarrota, tendo-lhe dado a mão vezes excessivas.”

    Passos não deu a mão a Sócrates. Passos disse o que o povo queria ouvir:
    Os PEC eram muito violentos.
    O 13º mês era para manter.
    Sabemos resolver os problemas do país cortando 1700 milhões nas gorduras do Estado.
    Não vai ser preciso mexer nos salários dos funcionários públicos.

    Depois de ter os votos capitalizados, esqueceu todas as promessas (e falhou todos os objetivos económicos que se propôs).

    O que está a fazer agora ao ver que a corrente de opinião está a virar novamente é adotar novamente o discurso de 2011. Nada de novo.

  4. Este texto é falso, .
    E demonstra mais uma vez a fraude que existe no discurso político.

    O Governo de Passos Coelho foi um dos mais Socialistas que Portugal teve.
    Foi o Governo onde os Portugueses mais contribuíram para o Estado com o seu dinheiro.

    Socialismo que eu saiba não é ir buscar dinheiro emprestado aos mercados.

    Socialismo e Social Democracia é isto:
    http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/portugueses_suportaram_impostos_recorde_em_2013.html

    “Quem andou nos últimos quatro anos a dizer que o actual Estado Social é insustentável e que os contribuintes já não o conseguem suportar, não pode agora andar a proclamar “Social-Democracia sempre” “

    Porquê? Passos Coelho fez o possível para manter o sistema iníquo de irresponsabilidade pessoal que é o Estado Social ao tentar torná-lo sustentável no curto prazo. Isso é Social Democracia.

    Se Sá Carneiro julgasse que pagaríamos 35% de impostos quando no início dos anos 80 pagávamos menos de metade e isso era ser Social Democracia talvez tivesse recuado em horror hoje.

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