Um, dois, três e nascer outra vez


Teresa Ribeiro,

Envelhecer já não é encarado como um fenómeno natural. Agora chamam-lhe arte. Não me parece mal. Se considerarmos os testemunhos dos clientes das plásticas e até dos que fazem questão de celebrar o aparecimento das rugas como algo libertador, até podemos considerá-lo uma arte de palco. Às vezes esses que se manifestam contra a corrente exibem tal alegria com os seus duplos queixos e cabelos brancos que por vezes os confundo com os outros. Há alegrias tão contentinhas que até parece que levaram silicone nos entrefolhos.

As obsessões colectivas são sempre inquietantes e ridículas. Inquietantes, porque não há como evitar que se tornem nossas, nem que seja só um bocadinho, e ridículas porque os comportamentos obsessivos, que o diga Woody Allen, têm um enorme potencial de comicidade.

Já li muito sobre a arte de envelhecer ou, em versão mais musculada, sobre o combate ao envelhecimento. Das bulas dos cremes hidratantes que nos prometem a juventude aos 40, até às receitas dos famosos sem idade, mas este fim-de-semana, de entre uma série de entrevistas a figuras públicas maiores de 60, destacou-se uma frase cintilante: “Estou a programar o meu futuro para ser livre, como fui quando era pequenina”. Quem a disse foi uma rapariga chamada Ana Bola. Ao lê-la percebi porque a idealização da minha carcaça velha a escarafunchar, de cócoras, na terra, plantando couves ou alfaces para dar à coisa um propósito adulto, me persegue há tantos anos. É um projecto que tem muito mais sentido do que alguma vez lhe atribuí. Revela até uma estética – trata-se de um círculo que se fecha – que não me fica nada mal. Mas sobretudo este meu sonho de acabar os meus dias numa quinta, ou até mesmo num quintal, a tratar de bichos e couves, apresentou-se-me, à luz desta confissão da Ana Bola, como um sinal de resistência saudável a esta cultura fóbica que desenvolvemos contra nós próprios, todos velhos em potência. Não é à toa que ela tem envelhecido tão bem, sempre a esbanjar uma energia de catraia. Ah, grande Bola, que me iluminaste. O envelhecimento “combate-se” é assim! Assim e com alguns cremes, vá…

7 comentários em “Um, dois, três e nascer outra vez”

  1. Ana Bola, uma das pessoas mais bem humoradas existentes em Portugal. Basta falar alguns minutos com ela para perceber isso, como já me aconteceu. É uma geminiana com personalidade solar e satisfeita com a vida – um bem escasso entre nós.

  2. Não quero desiludir, mas aviso já que a posição de cócoras a escarafunchar na terra, quer para plantar couves quer para fazer bolos com forminhas e terra molhada, é um pedacinho incompatível com o tal envelhecimento, mesmo o mais saudável. É melhor fazer uma reserva de Voltarenes juntamente com os cremes. Ou então começar já, já para adquirir a flexibilidade necessária e começar a implantar as couves e as galinhas aí a meio metro do chão.

    1. …mas é possivel ser mais forte do que as dores.
      Assim de repente, lembro-me de uma tia avó que subia as escadas do seu quintal de gatas, depois de ter ido dar de comer ás galinhas. conservou esse hábito até depois dos 90 anos. E de um tio, que aos 86 ainda vai apanhar azeitona- a maior parte do tempo anda de gatas no chão.

    1. Leonor, já ouvi uma miúda de vinte anos lamentar-se que estava a ficar velha! E não brincava. Sabes o que isto quer dizer? Que a paranóia já ultrapassou todos os limites. É claro que assim não é fácil.
      Eu chateio-me com os efeitos da gravidade e com os cabelos brancos, mas procuro não me esquecer que isto é natural, portanto o melhor é pôr o coração ao alto e investir na juventude de espírito. E nos cremes, claro 🙂

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